Salve Saturno!

saturno

Para quem ainda não sabe ou não se interessa em saber, mas continua a ser afetado por isso, 2013 é um ano de Saturno. Salve, Saturno, que finalmente chegou, para dar forma, limite, sentido e legitimidade às manifestações que começaram mal há três semanas, misturando atos políticos com atos de vandalismo perpetrados contra a avenida Paulista. Pouco a pouco, porém, o senex ou velho sábio Saturno começa a calibrar o puer ou jovem Dioniso. As lideranças do movimento e os representantes do poder público sentam-se na mesa para dialogar, estabelecem-se regras, negociam-se acordos. Salve, Saturno! As imagens das marchas realizadas ontem, salvo atos isolados de gente que só quer aparecer (e mal) na foto, eram outras.  Multidões saíram às ruas para expressar, de modo pacífico e ordeiro, uma indignação patriótica que não é, nem nunca foi, monopólio de grupelhos, mas que representa o sentimento genuíno da maioria do povo brasileiro, em todas as camadas da pirâmide social, do Oiapoque ao Chuí, da esquerda e da direita conscientes, que amam este país e não apenas o confronto. As grandes marchas do Rio e de São Paulo reuniram gente de todas as idades e classes sociais, misturadas na rua sem a orientação sectária dos pseudo-especialistas que, desta vez, não tiveram muita chance de gerar as divisões que tão somente fortalecem ainda mais os poderosos grudados no trono. Só uma turminha de punks extemporâneos deu um certo trabalho para sair do espelho d’água diante do Congresso, em Brasília. Foi engraçado. No Rio e em Sampa, assim como no DF (não acompanhei o que acontecia nas outras cidades, mas sei que havia muito mais capitais envolvidas no movimento), a bandeira escolhida como símbolo da mobilização foi a brasileira, embora ainda houvesse gente defendendo algumas bandeirolas de partidos. As concorrentes, contudo, não tiveram chance: simplesmente desapareceram diante da original. Uma das palavras de ordem era justamente a que evocava a superação do partidarismo esquizofrênico, em nome de uma nação que precisa se sentir como uma nação para poder transformar sua realidade injusta e desumana. O povo que ganha pão e o povo que compra circo do governo federal estavam lá, para azar dos monopolares sem imaginação. E quando as pessoas se olham sem mediadores discursivos, se conhecem e caminham lado a lado num evento como esse, fica difícil jogá-las umas contra as outros, por mais competentes que sejam os discursos. Na multidão, parece que não tinha lugar para classe média fascista e reacionária, nem para pobre folgado e dependente de bolsa-família, nem para estudante vagabundo e baderneiro. Engraçado como, com Saturno para moderar, discriminar e disciplinar, uma multidão pode, sim, dissolver as generalizações mais perversas. Nas marchas que vi pela TV, porque meu corpo não esteve lá, só minha alma, me pareceu que existe um povo brasileiro inteiro e não um povo partido em muitos povos que guerreiam em favor dos poderosos. Imagino que alguns políticos profissionais, daqueles que não temem nem a Deus nem à História, devem ter tremido nas bases, mesmo que só um pouquinho. Mas preciso dizer também que suspeito que o rito de iniciação que marcou essa transição qualitativa e quantitativa foi mesmo o confronto com a violência da polícia, ocorrido em Sampa, na semana passada. Alguma coisa mudou substancialmente desde então. Um pouco da melancolia de Saturno contaminou, sadiamente, a euforia de Dioniso e a calibrou com dor e responsabilidade. A expansiva energia da juventude (de Jove ou Júpiter) viu-se contraída e forçada a se consolidar num projeto. A gravidade pesada de Saturno curou a hiperatividade aérea e sem compromisso de outro puer, Hermes, o festivo deus-padroeiro das redes sociais. Não procuro de modo algum justificar a arbitrariedade e a falta de estratégia e treinamento da polícia para lidar com situações como essa. Quero apenas mostrar que as coisas são do jeito que são e a gente pode compreendê-las melhor a posteriori, quando todas as peças já tiverem sido devidamente encaixadas no tabuleiro pelo desenrolar dos eventos e então enxergamos com mais clareza o cenário, ou boa parte dele. Porém isso é processo e, portanto, depende do tempo. Saturno é o deus Tempo, Cronos para os gregos. Ele pode trazer abundância ou esterilidade. Sabedoria ou caduquice. Pode introduzir uma sadia depressão que nos faz enraizar nossa mania no peso da realidade concreta ou pode nos lançar nos ressentimentos remoídos sem trégua de um passado mal vivido ou não superado. O “ou” de todas as categorias depende da manutenção da faísca acesa: a paixão do puer, que enche o senex de vigor e entusiasmo; o idealismo de puer, que impede que o senex se torne um cínico pragmático; a alegria de puer, que ajuda o senex a ultrapassar as próprias decepções e desilusões; o bicho carpinteiro de puer, que ajuda senex a não se deixar estagnar no poder do jogo ganho. Nas marchas de ontem, o inesquecível dia 17 de junho de 2013, Hermes e Dioniso, Júpiter e Saturno encontraram-se, se abraçaram e, juntos, puxaram o cordão feito de elos que se consolidam, aos poucos, de cidade em cidade do Brasil, para dar um basta a esse mais do mesmo que aprendemos a confundir com política. Não mais. Não desse jeito.

Anúncios

Uma outra história, que fica para uma outra vez

tatiana_belinky

Querida Tatiana,

Escrevo esta carta minutos depois de saber que você partiu “deste mundo descontente”, como cantou Camões. O velho bardo lusitano que, por sinal, anda sendo usado inadvertidamente, por gente que mal sabe do que está falando, tinha não poucas razões para expressar assim a sua desilusão com o mundo. Eu tendo a concordar com ele: este mundo é mesmo um lugar muito e cada vez mais descontente. Espero que, contente como você sempre foi, encontre, do outro lado, um mundo mais parecido consigo. Especialmente porque você não partiu cedo, tinha 94 anos bem vividos, recheados de livros, de viagens, de amigos, de entrevistas, de palestras, de fãs, de leitores, de artigos, de aventuras, de atos verdadeiramente políticos, em defesa da alma das crianças… Você viveu a sua vida inteirinha, de cabo a rabo, e ainda nos deixou a mais maravilhosa das heranças. A morte de alguém importante e querida como você sempre nos leva de volta àquelas fantasias de infância que certos adultos continuam a alimentar, de um jeito meio extemporâneo e canhestro. Para encarar a realidade de nosso fim, do fim inadiável da nossa historinha, precisamos inventar continuações. Essa é a “outra história que fica para uma outra vez”, como dizia o Júlio Gouveia, o grande amor da sua vida, Tatiana, a cada final de capítulo da adorável e singela versão inaugural para TV de “O sítio do pica-pau amarelo”, que, juntos, vocês criaram, para nosso deleite. O Julio dizia isso e fechava aquele livrão dele, de onde saíam as histórias que a gente assistia de olhos estatelados, muitas vezes enquanto a imagem da TV era acometida de um surto de listas horizontais, que cortavam as imagens e as faziam rodar as telinhas (sim, aquelas eram verdadeiras telinhas!) feito frangos num espeto giratório. Quando ele dizia isso, a gente tinha um siricutico de nervoso, porque queria saber o que ia acontecer e ia ter de esperar uma semana, no mínimo, até a tal outra vez. Eu sinceramente achava que aquele homem sobrancelhudo e bonzinho (mas também ligeiramente malvadinho, dava para ver nos olhos dele que ele gostava de nos deixar dependurados) era o próprio Monteiro Lobato, que adiava nosso prazer por mais uma semana e nos mandava brincar na rua com nossas amigas ou ficar em casa mesmo, brincando de casinha com as nossas bonecas. Foi por causa do Julio e daquela estratégia antiquíssima e infalível que descobri o verdadeiro Monteiro Lobato, um homem muito mais sobrancelhudo do que ele. Monteiro Lobato morava nuns livros verdes que eu tinha lá em casa, mas nunca havia folheado, porque só gostava de ler as histórias da minha coleção vermelha do Mundo da Criança. Suspeito que a cor tinha mais a ver com a minha escolha do que o conteúdo. Eu era muito mais seletiva naquela época. Você e o Júlio me fizeram descobrir a coleção verde e me estimularam a virá-la do avesso, no começo apenas para saber o que ia acontecer na tal outra história que não ficava mais para outra vez, porque eu não conseguia mais largar aqueles livros, um mais maravilhoso que o outro. Minha vida era muito contente, não porque eu tivesse um monte de brinquedos, nem porque eu tivesse um quarto só para mim (eu dormia no sofá da sala), muito menos porque eu viajasse, nas férias, para a Disney. Meu contentamento quase sempre vinha dos livros da minha coleção do Monteiro Lobato. As histórias dos picapauzinhos aliviavam minha dura existência de aluna de escola pública, a semgracice da minha família, as infernais visitas que minha mãe me obrigava a fazer com ela, quando eu sempre podia levar um livro verde comigo, para me salvar do tédio das conversas dos adultos. “Ler não comporta imperativos”, você costumava dizer. Que verdade mais profunda! E como você e o Julio, de repente, fizeram de mim uma menina rica! Será que você pode contar isso ao Julio, quando encontrar com ele? Digo isso sempre para o Monteiro Lobato, mas acho que se você puder contar pessoalmente, ele vai entender melhor. Você me faz esse favor? Quantas lembranças boas eu tenho de você! Uma vez eu te encontrei pessoalmente, chegando de táxi à ECA, de onde eu estava saindo nem sei bem porquê, acho que só para encontrar você, que ia fazer uma palestra ou coisa parecida. Isso faz uns 15 anos, no mínimo. Quando reconheci você naquela senhora sorridente e gorducha, corri para ajudá-la a descer do táxi (acho que não teria feito isso se fosse outra senhora, peça para Jesus que me perdoe por isso, por favor). Você sorriu para mim com suas deliciosas covinhas, olhou dentro dos meus olhos com seus olhinhos vivos e sapecas e logo se agarrou ao meu braço, como se fosse uma tia querida. Eu estava no céu. Acompanhei você até a recepção, descobri não sei como aonde ia ser o tal evento do qual você participaria e levei você até a sala, sempre agarrada no meu braço e conversando um monte de coisinhas. Fui ouvindo aquela sua voz de menina fanhosa, que era uma graça. Entreguei você à moça que a esperava e nos beijamos efusivamente, como se fôssemos grandes amigas. Na verdade, éramos grandes amigas, porque foi assim que você me tratou. Ainda tenho uns livros seus autografados numa Bienal e que você dedicou à Helô, minha filha mais velha, que adorava seus versos traduzidos do russo e do alemão, seus limeriques, suas histórias engraçadas. Quando encontrar com ela, agarre no braço dela como fez comigo e saiam vocês duas, conversando coisinhas. Vai ser como se eu estivesse junto. Não quero viver “cá na terra sempre triste” porque você também se foi. Ao contrário. Fica comigo a sua imagem encantadora de menina-velha, sábia e sapeca, um lindo oxímoro, uma união de opostos, apontando para aquilo que eu quero me tornar quando for velha, sem pretender arremedar sua grandeza, mas somente o seu contentamento. Boa viagem, querida! Um grande beijo da Eli

Rebeldes sem calça ou Dioniso no meio do redemoinho

Dedico este post a minha querida amiga Bea Enger, que tem 19 anos e já foi aluna do Colégio Bandeirantes. A encomenda foi dela. Espero que ela goste.

dioniso

Foi James Hillman, um rebelde com causa (a causa da alma), renovador da melhor tradição da Psicologia Profunda, quem teve esse insight que considero o mais genial de um homem dado a insights geniais: quando estiver diante de um evento, pergunte qual é o deus (ou o diabo) que está ali, dançando no meio do redemoinho. Grosso modo, isso corresponde a cultivar “um olhar psicológico” sobre a realidade, o que não tem nada a ver com entender de Psicologia, mas está relacionado com uma facilidade de enxergar a alma atuando nos eventos, nos seres, no mundo, em todo lugar. A alma, a dançarina que cria as ilusões em cujo fluxo nos deslocamos ou estagnamos: Maya, Psiquê, Perséfone. Existem analfabetos com mais olhar psicológico que muito psicanalista e psiquiatra. Porém aqui estou, como sempre, me perdendo nos labirintos da alma, por onde adoro vagabundar. Certa vez, Jung disse que, expulsos da consciência individual e coletiva pelo Deus único, os antigos deuses  haviam se transformado em doenças. Isto corresponde a dizer que foram mandados para o inconsciente (ou para o Tártaro, onde Zeus trancafiou os titãs, de onde, em sua revolta titânica, eles desencadeiam os terremotos que sacodem nossos olimpos particulares). As potestades do inconsciente, forças psíquicas que Jung chamou de arquétipos, são inúmeras, diversas e infinitamente poderosas. Para melhor lidar com elas, as religiões politeístas as personalizavam em divindades antropomorfizadas, gerando assim a possibilidade de abordar, por meio da metáfora, algumas dessas energias incognoscíveis e inefáveis que nos habitam e movem, quase sempre sem que a mirrada consciência de nosso Eu sequer se dê conta delas. Nem quando eles nos derrubam e pisoteiam, conseguimos enxergar os deuses por trás de nossas doenças, de nossa realidade política decadente, da violência que assola nossas cidades, do fenômeno das redes sociais digitais e assim por diante. Semicegados pelos antolhos da razão técnico-instrumental, da religião institucional, das ideologias polarizadoras e de seus podres poderes, dos discursos mal ou bem urdidos que nos enganam e a gente gosta, nos submetemos a essa condição de meia visão (ou menos) geralmente por escolha e sem esboçar muita reação.  Em geral, e mesmo quando achamos que temos poder sobre o que somos e fazemos (talvez ainda mais neste caso), somos tangidos como ovelhinhas burraldas e heterônomas, manobradas, ansiosas por chegarem logo ao aprisco de algum lobo em pele de pastor. O legal de tentar enxergar a divindade que se manifesta por trás de um evento é que, desse modo, trazemos à consciência algo que nos manipula a partir de nossa sombra, sempre enganchada na poderosa sombra coletiva. Esse upgrade não tem preço. Interessante que a consciência nos chegue mais por meio da intuição, da sensibilidade, das imagens, das metáforas, das experiências do corpo, da meditação do que por meio dos discursos lógicos e ideológicos sobre como se tornar consciente. Nesse sentido, um filme pode ser imensamente mais potente do que um sermão. Uma obra de arte pode ser muito mais esclarecedora do que a minuciosa explicação de um especialista. Um belo romance desbanca cinquenta livros de auto-ajuda. Um mito faz barba e cabelo de um conceito. Uma piada desanca a lenga-lenga do político mais habilidoso e cínico. Como a imagem é a linguagem da alma, a divindade a dançar no olho do furacão nos chega à consciência tão somente através da imagem, visível apenas para o olhar psicológico. A arte do Renascimento fez isso de caso pensado e com resultados fabulosos. Ultimamente é Dioniso quem anda solto, ou “a sombra de Dioniso”, como já anunciava o título de um livro de Michel Maffesolli, publicado há mais de 20 anos. A sombra dele porque ninguém sabe que se trata dele, de Dioniso, e, portanto, ele está fora das análises sociológicas, das pesquisas com suas intervenções demagógicas e ingênuas, dos reducionismos cartesianos da mídia, dos maniqueísmos materialistas, enfim, da pequena zona fortemente iluminada e murada da consciência individual e coletiva. E isso torna o deus oculto na sombra imensamente perigoso e ameaçador, já que ele não pode ser visto e integrado, legitimado pelo coletivo e, desse modo, devidamente controlado, posto a serviço da vida na polis. Dioniso é o deus das metamorfoses, um Shiva helênico, mas também um deus estrangeiro na Grécia, o qual destrói as formas que já perderam o vigor e estão ocas, estéreis, sem sentido, mas não querem largar o osso. Mais conhecido como o deus do vinho, quando usa outro de seus nomes, Baco, ele está, por exemplo, nos excessos que marcam o comportamento destrutivo da moçada ao beber. A sombra de Dioniso está na diversão que se transforma em coma alcóolico, na overdose que incapacita ou mata, no desfile fantasmagórico dos nóias da Cracolândia, na violência gratuita de pobres e ricos que querem exercer algum tipo de poder, ainda que entrando pela porta dos fundos. Ninguém vê Dioniso na nossa cultura arrogante e defensiva, mas é ele quem comanda pessoalmente o cortejo de delirantes, como fez na peça “As Bacantes”, do velho e ultramodermo Eurípides. A sombra de Dioniso emerge na manifestação inconsequente que rapidamente degringola em vandalismo, como as que aconteceram na avenida Paulista, sm Sampa, há duas semanas. Dioniso estava lá, para afrontar o Rei Velho e Tolo do poder instituído, o Cronos que come os próprios filhos para não ceder o trono, para não acolher a mudança urgente e necessária. Era, porém, um Dioniso sem imaginação nem metáfora, literal no seu furor descompensado, arrasador no seu descomedimento, no seu intento de destruir de fato uma ordem que se recusa a enxergá-lo e a ritualizar criativamente sua energia. De um modo mais leve e bem humorado, todavia não mais consciente, Dioniso estava no “saiaço” que tomou de assalto o apolíneo Colégio Bandeirantes, em São Paulo, reduto dos filhos de uma certa elite sócio-econômica paulistana que faz das tripas coração para ver os nomes dos seus meninos de ouro estampados nas listas mais distintas da FUVEST. Duvido que o garotos que foram de saia à escola, em apoio ao colega ridiculamente expulso da aula no dia anterior por estar usando a mesma peça, duvido e faço pouco que eles saibam que o travestismo ritual é de Dioniso, que gosta de atuar através do feminino, diferentemente dos fodões patriarcais do panteão olímpico, que mandavam na religião oficial. Sim, a mulherada é de Dioniso, e para poder espiar, sem ser notado, as bacantes e as mênades endoidecidas nos ritos dionisíacos, o rei Penteu, de Tebas, se vestiu de mulher e acabou deposto e desmembrado. A moçada que quer desmembrar o rei precisa, contudo, identificá-lo e melhorar a pontaria. Tomara que isso comece a acontecer. Dioniso derrubou Collor, hoje quase transformado numa vestal pelo descaramento dos monarcas in charge. Dioniso cai muito bem quando se trata de desbaratar projetos de poder auto-referentes, que não estão abertos a nenhum tipo de moderação pela alteridade. Ou quando é preciso, por exemplo, desmantelar uma medida desavergonhada e anti-democrática como a PEC 37, em que um bando de Saturnos eunucos luta para preservar seus mais duvidosos privilégios, contra todos os interesses do povo brasileiro. Bom seria se fosse um Dioniso conscientizado, como aquele que destronou Penteu em Tebas, não sem violência. Vejo com certa inveja os jovens turcos resistindo bravamente ao conservadorismo que ronda seu cenário político, tendo algumas centenas de árvores como centelha de inspiração. No caso da praça Taksim, vejo Dioniso, o Puer impulsivo, e Cronos, o Senex sábio e metódico, associados para garantir as liberdades ameaçadas pelo endurecimento do regime. Por aqui, a moçada parece que começa lentamente a sair de trás das barricadas de maio de 68. A violência da polícia, indesculpável mas, cá entre nós, um clichê, é a reação igualmente desmedida, que acaba por, inadvertidamente, obrigar o rebelde a encontrar uma causa que valha mais do que R$0,20. A liberdade cobra seu preço aos que nasceram nela. E Saturno, o senhor deste ano de 2013, demanda limites, responsabilidade, forma. Como aconteceu no apolíneo colégio de que falei há pouco, Dioniso virá e espero que, com ele, venha também um Cronos que o ancore na realidade e o compense, em sua impulsividade. Assim o arquétipo se torna inteiro: puer-e-senex.  Se isso acontecer, estaremos diante de uma genuína mudança.

O inverno está chegando 2: a hora e a vez de Jaime Lannister Matraga

jaime lannister

Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento. O adágio cai como uma luva para a personalidade número 1 de Jaime Lannister, o tio-pai do vilãozinho Joffrey. Outra imagem arquetípica poderosa, desta vez para o masculino perdido e ferido, órfão do Papaizão corporativo ocidental, aquele que “fora de mim não há salvação”. No artigo “A face oculta do novo”, publicado no Estadão do dia 09-06, Lee Siegel fala sobre o crescimento do número de suicídio entre os americanos adultos do sexo masculino, como efeito colateral de algumas das “tendências festejadas” do Império, aquelas que as periferias adoram copiar: hiperindivualismo, hiperracionalismo, hiperconsumismo, hiperprodutividade. Para escapar ao suicídio, Jamie Lannister, assim como o Augusto Matraga do conto de Guimarãe Rosa, vai ter de se auto-sabotar.  Jamie literalmente terá de matar um pedaço de si para continuar vivo. No caso de um exímio espadachim, nada mais expressivo do que a mão direita. Um metrossexual cinico, amoral, irresistível, metido na sua reluzente armadura Louis Vuitton, Jaime forma, com sua contraparte feminina, a irmã-amante Cersei, uma espécie de totalidade corrompida, um andrógino literal e perverso. Ambos são consumidos pela relação incestuosa que não permite  que suas vidas evoluam, retidas no pântano do mundo da mãe morta, a quem eles reverenciam inconscientemente. É preciso abrandar a dureza, a agressividade, as altíssimas expectativas do poderoso patriarca da casa Lannister, Tywin, que trata os próprios filhos como crianças sumamente decepcionantes. Apesar da inegável competência para manipular e seduzir, Jaime permanece, contudo, sob o estigma de “Regicida”, o epiteto que o persegue  aonde quer que ele vá. No passado, tendo matado, pelas costas, um rei louco e homicida, ele continua preso a essa dúbia façanha e, portanto, uma espécie de herói eternamente sob suspeita, até porque, além de matar um rei (louco, mas rei), Jaime não foi capaz de fazer mais nada que o distinguisse por seu verdadeiro valor. Na corte do cunhado a quem corneia com a irmã, Jaime não passa de um super-valete. Retido na adolescência, preso ao pai e à irmã, incapaz de instituir uma jornada solo, Jaime acaba sendo lançado pela narrativa a uma aventura “campbelliana”, ao longo da qual será reenviado aos próprios limites. De volta ao lugar de onde partiu, ele encontrará seu verdadeiro lugar e papel num mundo que se transforma violentamente. Sua vida vira do avesso e sua aventura realmente começa quando ele se vê separado, pelas circunstâncias, do seu clã de origem. Segue-se sua captura pela casa inimiga, os Stark, cujo filho ele aleijou, ao empurrá-lo do alto de uma janela onde o menino inadvertidamente testemunhara a relação incestuosa entre Jaime e Cersei. Aí começa o calvário que desencadeará sua iniciação e sua metamorfose, impedindo que Jaime se autodestrua. Enviado pela matriarca dos Stark, sob a guarda estrita e competente de uma paraíba mulher-macho sem retoques, a cavaleira Rienne, Jamie deve ser trocado pelas duas filhas dos Stark, retidas na corte do malvadinho rei Joffrey. Mas as peripécias ao longo do caminho o submetem a todo tipo de provação e humilhação. Sem a resiliência do irmão Tyrion, o anão, de longe a melhor personagem da história, Jaime não sabe como se comportar na posição de inferior e é duramente castigado por sua arrogância e impulsividade. Termina por construir um vínculo de honra e lealdade com a improvável Rienne, mas somente depois de ter a mão direita amputada por um miserável caçador de recompensas. O homem que, ao final da temporada, retorna a King’s Landing, não é nem de longe o mesmo que deixou os confortos e os excessos da vida palaciana. Na cena final, eletrizante, Jaime entra, sem ser notado, no quarto de uma Cersei desatenta, mergulhada em pensamentos sombrios. Irreconhecível, mendigo e maneta, imundo e andrajoso, ele me pareceu, de repente, um digno avatar do épico Augusto Matraga em sua trajetória invertida, de reparação e redenção. Por fora, pão bolorento, por dentro, bela viola, Jaime Lannister engrossa o exército de Brancaleone que cresce e aparece lentamente ao longo da trama, um contingente de “loosers” de todos os tipos e que prometem virar o jogo dos tronos.

O inverno está chegando

Final de temporada na série “Game of Thrones”, da HBO. O autor é um deus ex-machina sem misericórdia nem clemência, que rapidamente esvazia nossas apostas e mata um a um os personagens convencionais aos quais mais nos apegamos, dependentes que somos de uma visão de mundo que, numa expressão, já era. Quem leu os livros sabe de antemão para onde o enredo se encaminha, porém quem é fã da série de TV, meu caso, prefere continuar dependurado no fio tenso do excelente roteiro. Os deuses novos e antigos me livrem de saber antes o que vai acontecer. Pelo mesmo motivo, não frequento videntes e acho uma pobreza quem frequenta para saber o que vai rolar na semana que vem. É melancólico a gente não ser capaz de imaginar ou estar tão ausente de si mesmo a ponto de querer antever o futuro para ganhar alguma perspectiva. Olhe em volta. Olhe para dentro. Leia. Vá ao cinema. Aos museus de arte. Veja como se move o imaginário da época. Preste atenção, como aconselhava Montaigne. Enxergue os deuses que se movem, ocultos nos atos impudentes, inconscientes e mecânicos dos homens, essa raça mal acabada de demiurgos idiotas, como dizia Jung. Pergunte a esses deuses os seus nomes e eles lhe dirão, sem rodeios, quem são, de onde vêm, para onde nos levarão. Em “Game of thrones”, à medida que a história avança para o desfecho, as mulheres abusadas, as crianças, os aleijados, os disformes, os bastardos, os escravos, os miseráveis, os selvagens pouco a pouco roubam a cena dos heróis, dos senhores, dos príncipes, dos cavaleiros, dos reis, dos nobres, dos times da primeira e da segunda divisão. O patriarcado se desconjunta diante dos nossos olhos, em dez capítulos enxutos, vitimado por sua própria desmedida. A síntese está lá, primorosa e impactante porque é metáfora, e a metáfora resume e, ainda por cima, antecipa, já que está livre para imaginar, ao contrário dos discursos oficiais, dos dogmas e das doutrinas. Fiz uma lista das imagens arquetípicas que  mais me saltaram aos olhos nesta fase da história e que me esclarecem muito sobre os tempos sombrios que vivemos, se é que vivemos outra coisa neste mundo que não tempos sombrios. De qualquer modo, “o inverno está chegando”, o mote sinistro da casa Stark, me parece muito apropriado para nós, que esperamos ao invés de agir. Devagarinho vou recuperando aqui as personagens da série como cintilações do arquétipo, que sempre tem muito a nos dizer, no avesso da razão. Meu primeiro tema é:

JOFFREY, O REIZINHO EQUIVOCADO

joffrey baratheon

Joffrey Baratheon, o tiranete infantil, mimado e sociopata da história, é uma imagem nítida e incômoda da nossa juventude que tem tudo e, por isso mesmo, morre de tédio e soçobra na própria falta de empatia e imaginação. Quando não tem o que quer, também não se constrange em roubar e matar para conseguir. Indigente de caráter, valores morais e ideais, Joffrey sofre, entre outras coisas, de um déficit crônico de limites, que um corpo coletivo leniente e hipócrita não foi capaz de lhe impor. Você pode imaginar homens crescidos que cometem crimes bárbaros sendo tratados, pelo Estado, como criancinhas perversas, incapazes de escolher entre o bem e o mal? Se pode, então entendeu o cerne desta questão. Joffrey foi largamente convencido de seus direitos e assim acredita neles com uma fé fanática, embora seja bastante cético no que tange aos seus deveres. Como a atual geração dos micro-déspotas superprotegidos e refratários à autoridade, sejam eles ricos ou pobres, Joffrey prossegue sem vínculos, nem rumo, nem desejo, todavia possuído de uma violência e de um arbítrio sem limites, que já apontam para o destino funesto que o aguarda, pelo menos na ficção. Vi muito de Joffrey nos atos de vandalismo que destroçaram patrimônio público e privado na avenida Paulista, semana passada, em meio a um canhestro protesto contra o aumento da passagem de ônibus. O espírito de Joffrey, destrutivo, desrespeitoso, arrogante, que adora causar, embora não tenha outra causa além da sua própria, depositada no fundo do umbigo, estava por lá, encapetando a moçada, grande parte da qual nem sequer usa ônibus e até foi de carro ao local, como quem vai à balada. São, como Joffrey, filhos de reis fracos e ausentes, de rainhas incestuosas e permissivas, de uma sociedade de aparências, roída de culpa, louca para se livrar do mico de ter de servir de modelo. O rei  Robert, pai formal de Joffrey (para quem não assiste, seu verdadeiro pai é seu tio Jamie), começou bem e terminou poderoso demais, entediado, amargo, bebum e promíscuo. Só no leito de morte caiu-lhe a ficha da bisca que deixaria em seu lugar, por puro descuido. Interessante que, no derradeiro capítulo da temporada, Joffrey se confronta, enfim, com um inimigo à altura: o próprio avô, perto de quem a maldade do neto é pinto. Grandes expectativas desse que será um duelo inesquecível: o da antiga ordem, tão cínica quanto ciosa de sua honra, dos interesses de seu clã e do lugar que este ocupa no mundo, contra a nova ordem, representada, na série, por um montinho de merda pretensioso e prepotente, o qual, assim como foi alçado a um lugar de ilusório poder por força de um golpe do destino, dele será derrubado, a seu tempo, pelos mais velhos, mais safos e mais malvados do que ele. Olhem para o Joffrey, garotos e garotas insolentes e auto-referentes, tomem tento, baixem a crista e vão trabalhar para ver se conseguem conservar a única herança que lhes cabe de fato: este mundo despedaçado pelos seus pais e avós.