Coringa: um post repleto de spoilers

“Quanto quis tirar a máscara, estava colada à cara.”

Álvaro de Campos

 

Quantos anos terá Arthur Fleck, o homem-criança a quem Joachim Phoenix emprestou corpo e alma para fazer o Coringa baixar, magnífico, na tela do cinema? Oito anos? Dez talvez? Certamente não mais que doze, porque ainda não viveu sequer a iniciação dos treze anos à adolescência, não passou pelo bar-mitzvá. Arthur nem mesmo é Arthur. Ele é Happy, um menino frágil, meigo, doce e um bocado esquisito também, um pagem encruado à serviço da Mãe, ela ainda mais frágil, meiga e doce do que ele, a única criatura neste mundo mau que parece valorizá-lo, amá-lo e aceitá-lo tal como é. Oh, a aceitação indiscutível de mamãe… quem não a conhece, que a compre… A maravilha do roteiro de Coringa, o filme, são as camadas, densas, múltiplas, variadas, camadas que vão se desvelando e ficando mais escuras à medida que o mito da Deusa e seu Filho consorte avança, arrastando consigo um cortejo de outros mitologemas, todos tão arcaicos quanto poderosos. Você pode ficar retido na camada mais externa, a do melodrama militante com veleidades rosseaunianas de crítica política e social, uma camada que definitivamente está lá e está na moda, embora não demande muita reflexão, até porque é basicamente projetiva. Nela você vai encontrar todos os clichês da hora, aqueles que confirmam o quanto você é legal, politicamente correto, solidário, nada preconceituoso, até mesmo um usuário irregular de Rivotril, olha só. Quase todas as resenhas que li ficaram presas nessa superfície pega-mosca, vociferando no deserto contra a lista usual de malvadezas que a humanidade pratica desde que fomos expulsos do Jardim do Eden, já faz tempo. Discurso inócuo. Será uma pena se você também resolver patinar com o rebanho nos clichês bom-mocistas que aliviam sua consciência, recusando-se a descer com Happy até o porão do Asilo Arkham, onde repousa, ocultado nas sombras fervilhantes de vida do arquivo-morto, o lado B de sua delicada e delirante mamãe, a que o chama por esse codinome maldito e o diagnosticou, em casa mesmo, como portador de uma “condição psiquiátrica”. Lá embaixo estão guardadas as lembranças, convenientemente apagadas por Happy, da loucura que o ata a essa mãe com o fio implacável das Moiras, do estigma que ambos compartilham, a mácula (fleck) de seu nome de família. O Pai arquetípico do herói mitológico (que não tem nada a ver com o estereótipo aguado do herói que nossa cultura cultua) emerge, ele também, como um sujeito arrogante, um ego superinflado, idealizado pela ex-amante e depois pelo próprio filho bastardo. O sr. Wayne encarna a divindade masculina indiferente, sedutora e elusiva, que inseminou a mulher mortal, renegou sua cria e subiu de volta ao topo, para onde ela, trinta anos passados, ainda envia cartas ansiosas, na esperança de ter acesso a algumas migalhas da opulência dele. O anfitrião do programa de entrevistas, personagem benevolente das fantasias infantis de Arthur, encarna momentaneamente um sucedâneo do Pai até revelar a faceta pragmática por trás de tanta empatia.  O colega palhaço mais velho, outra figura paterna que o chama de “meu garoto”, conta com a ingenuidade pueril de Arthur para pregar-lhe uma peça malévola e desestabilizá-lo ainda mais. Feminino e Masculino adultos são igualmente perversos, nada confiáveis, dementes em graus diversos no filme de Todd Phillips. Afinal estamos em Gotham City, a suprema distopia urbana onde o único homem decente é um anão e a única mulher acolhedora é uma alucinação. Todos os adultos, incluindo-se as duas psicoterapeutas com suas pautas monótonas, impotentes e irrelevantes, merecem ser aniquilados. Quanto às figuras parentais, essas serão eliminadas uma a uma, de modo literal, na medida em que Arthur não é capaz de separar-se psicologicamente delas para seguir seu próprio destino, rumo à vida adulta. Ele não tem escolha. É o clássico herói trágico, um joguete do destino – o genético e o biográfico -, um peão manipulado pelos deuses que o puseram no mundo e o traíram, que é o que todos nós, pais, fazemos com nossos filhos, até quando os cumulamos de privilégios (e mais ainda, quando o fazemos). Isso depois de termos sido traídos pelos nossos próprios pais, remontando assim, de novo, até o Jardim do Eden. O coringa, trunfo do baralho por excelência, a carta número zero e que, apesar de ou graças à sua valência nula, pode substituir qualquer carta, é a grande ausência no mito de Arthur Fleck. O que falta a Arthur é a resiliência do Louco do tarô, que precisa superar seus sofrimentos, ultrapassar seus genitores, esgarçar as projeções deles sobre si e assim expor a humanidade escondida por trás das máscaras aparentemente divinas. Arthur escolhe a máscara, em detrimento de seu próprio rosto. Se Happy não é ninguém, o Coringa tampouco é alguém. Ambos cumprem o destino que os pais de Arthur lhes impuseram, estão identificados com suas personas trágicas, sem que nenhum ego tenha coagulado por baixo delas, sem que Arthur tenha tido sequer uma chance de se diferenciar de Happy antes de ser avassalado pela sombra que o Coringa representa. Sem que seu estigma o tornasse um ser humano único, irrepetível, um pouco como a cicatriz de lábio leporino e aquele incisivo recuado típico fizeram com Joachim Phoenix.