Ler, varrer, equilibrar

O artigo do Estadão de ontem (20-05) se chama “Troca-se serviço doméstico por leitura” e me fez lembrar dos tempos do mestrado. Quando minha cabeça começava a ferver, eu ia recolher e dobrar a roupa lavada, varrer o quintal, regar o jardim, fazer um bolo. Só no doutorado fui aprender a teoria, com Gilbert Durand. Trajetividade é a arte de oscilar entre dois polos, yin e yang, masculino e feminino, um e outro, excepcionalmente um ou outro, mas somente por breves períodos, porque toda unilateralidade é neurótica. Então era isso que acontecia comigo. Minha alma pedia equilíbrio. A partir daí, comecei a pendular conscientemente. Do tanque para o computador, do livro-cabeça para o fogão, da correção das redações para a lida com as plantas, das planilhas de avaliação para o varal, da espada para a vassoura…  Lendo o artigo, conclui que as moças que conceberam o projeto, atrizes da Coletiva Ela, devem ganhar tanto quanto as donas de casa a quem se oferecem para fazer o serviço doméstico de graça, enquanto as segundas leem. Eu diria que se trata de preservar o sagrado direito das mulheres ao bovarismo, se os livros propostos fossem romances e escolhidos pelas leitoras. Como se trata livros “didáticos”, tipo “Mulheres, raça e classe”, da Angela Davis, ou seja, formadores de seres militantes e não de seres devaneantes, não é o puro prazer de ler que se quer estimular. Para mim, poucas coisas são tão transgressivas quanto largar o serviço (qualquer serviço) para ler um romance. Aliás se Charles Bovary não guardasse Ema numa redoma e ela tivesse de alvejar, engomar e passar as próprias anáguas talvez a vida não lhe pesasse tanto.

E quando digo que as moças da Coletiva ganham tanto quanto as donas de casa com quem trocam de lugar, quero dizer que, no trajeto, essas moças que (imagino eu) foram à universidade, leem livros-cabeça, discutem usando o jargão ideológico-acadêmico e acreditam que a razão lógica é o topo da cadeia alimentar) devem se beneficiar um bocado quando se dispõem a cuidar do cotidiano horizontal, arrumando a casa, organizando a louça, passando a roupa, lavando o quintal, vivendo o presente absoluto da rotina perene dessas eternas cuidadoras da vida. Não há vida possível sem o trabalho diário, cíclico e infinito das donas de casa. Nem reflexões, nem teses, nem livros, nem artigos, nem nada que preste, já que toda(o) intelectual tem de comer, se vestir, viver numa casa minimamente habitável etc. Toda(o) pensador(a) depende da regência da vida tal como executada por uma dama de Ouros (o naipe da realidade concreta). É ela que garante o bom andamento de uma tarefa de Espadas (o naipe da vida mental). Liberar as donas de casa de sua faina gloriosa, ainda que por algumas horas, deve ser considerado não só uma honra, mas também uma oportunidade cada vez mais rara de aprendizado. Desse ponto de vista, não aprendem apenas as donas de casa com a douta Angela Davis e suas discípulas. Aprendem também – e muito – as discípulas de douta Angela Davis com as donas de casa. Desde que minha querida funcionária se aposentou, há 5 anos, vivo cada vez mais esse movimento pendular calibrador. Escudada pela minha faxineira semanal e apoiada pelos dois homens feministas que comigo dividem as tarefas, pude enfim tomar pé do meu território doméstico. E como amo desencardir uma fronha branca! E que deleite arrumar uma cama com capricho! E como alivia meu cabeção congestionado com leituras chiques preparar um almocinho gostoso! Que sorte têm essas moças, caso estejam mesmo abertas a experimentar a outra polaridade e desde que não se sintam superiores por imaginarem que o trabalho intelectual é superior ao trabalho doméstico! No meu entender, um título mais adequado para a matéria do Estadão de ontem seria “Troca-se serviço doméstico por leitura e leitura por serviço doméstico”. Há equidade nessa reciprocidade. Há uma proporção que honra Maat, a deusa egípcia da justiça. Ainda assim, eu diria, se acaso me perguntassem: mais romances, por favor. E mais liberdade de escolha. Porque se tem uma coisa que as donas de casa merecem é ter liberdade de escolha.

P.S. – Uma amiga que leu este post me escreveu ontem recordando que o psiquiatra da mãe dela costumava dizer que lavar um pouco de roupa no tanque todos os dias ajuda a manter a saúde mental. O que comprova minha hipótese sobre Ema Bovary e sua roupa de baixo.

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Quando Mercúrio regride, ele me convida a andar para trás. A re-imaginar o passado, organizar documentos, rever decisões, limpar armários e estantes, desentupir ralos, revisar textos, reler livros queridos e velhos cadernos de sonhos, retomar projetos arquivados, rever filmes, superar convicções, abandonar ilusões, desmanchar diques, deixar o rio seguir seu curso. Nessas viagens de ré, acontece de eu reencontrar pessoas ou delas me reencontrarem. Posso também retornar a lugares em que vivi e que abandonei, concretos e abstratos, prédios, fantasias, visões de mundo… Morei em muitos lugares nestes 60 anos. Tenho aparência sedentária, mas minha alma é dada ao nomadismo. Habitei diversas casas que, de repente, viraram o “quarto do pânico”, blindado e claustrofóbico. Perdi a conta das peles ressecadas que soltei, não sem alguma dor, ao longo do caminho. A alternativa é estagnar, contudo Mercúrio não deixa. Ele me impele a revolver ruínas solenes, por vezes só mesmo a destinar algum entulho vulgar para o aterro sanitário. Hermes Psicopompo me guia nessas expedições a velhos sítios abandonados e o que já parecia esgotado de tão remexido ainda rende alguns achados de valor. Às vezes, retorno por escolha consciente. Outras, sou despachada de volta sem aviso, intempestivamente, por meio de um sonho, um encontro imprevisto, uma sincronicidade. E lá vou eu andar para trás, qual caranguejo, recobrar um fragmento perdido de quebra-cabeça, um lindo caco de vaso, uma ponta de flecha sem uso… “Tudo para mim é viagem de volta”, escreveu Guimarães Rosa. À medida que envelheço, tendo a concordar cada vez mais com ele. Cada passo para a frente que dou, sou manobrada pela vida de modo a dar dois ou mais passos para trás e assim me fincar nas profundezas da vida, aonde a morte aguarda. Refletir, revisar, retroceder, reavaliar, recuperar, reparar, re, re, re. Para morrer de coração leve, como aconselham os egípcios, tão leve quanto a pluma de Maat. A trajetória progressiva e ascendente rumo ao céu de qualquer monoteísmo, ao paraíso do proletariado, ao nirvana, ao futuro radiante ou sei lá que outra fantasia evolucionista, sempre me pareceu uma enganação do espírito para aniquilar a alma e seu peso, sua tendência a deprimir e aprofundar, justamente aquilo que nos dá sustança, que nos ancora no mundo, que nos torna livres e nos iguala pelo substrato daquilo que somos. Na iminência da Páscoa, Mercúrio começa a regredir. E vai até dia 15 de abril. Aproveite o movimento.

 

 

Dalila

Samson and Delilah 16

Minha mãe, profetisa incidental que era, resolveu me chamar de Dalila num certo período da minha vida. A intenção era a pior possível: me aproximar, por apóstata que eu era, da gói traiçoeira e malévola que desviou o santinho Sansão do caminho do Senhor, tosou rente sua cabeleira de filhinho da mamãe (ou do Papai, como preferirem) e acabou metendo o sujeito numa enrascada fatal para a escalada heróica que o pessoal lá do templo tinha projetado para ele. Sendo mamãe uma batista empedernida, chamar a filha de Dalila deveria soar a esta como ofensa, mas não. Quando me chamava de Dalila, minha mãe, sem saber, me atribuía uma força que ela mesma não possuía, contudo tenho certeza de que, inconscientemente, pretendia que eu encontrasse dentro de mim. Nunca me senti constrangida ou ameaçada por essa comparação, nunca mesmo, apesar de ter sido educada pelo mesmo imaginário no qual ela mesma havia sido educada. Talvez porque eu intuísse que “ser Dalila” tinha um significado mais profundo que aparentava o discurso lógico. Hoje compreendo que Dalila é uma metáfora e metáforas podem nos tirar da frigideira quente dos eventos e da dimensão pessoal e nos deslocar a um lugar mais arejado, com mais, digamos, perspectiva. Seria como me xingar de “filha de Eva” se ela fosse uma católica carola, fato aliás do qual muito me orgulho. Afinal nossa tão caluniada mãe mitológica, depois de ter sido talhada para a submissão e a inferioridade, ousou perverter a regra do jogo e dar início à História humana, libertando a si mesma, a Adão e a toda a criação dos limites estreitos jardim zoo-antropológico do Éden e lançando-os no campo do tempo e do espaço, para que a narrativa pudesse, enfim, começar. Como Eva, Dalila foi a iniciadora do masculino no campo da experiência, da qual Sansão, superprotegido e enquadrado demais na tradição, estava alijado, por interesses alheios a sua vontade. Isso sem levar em conta que ela estava defendendo seu povo, sua cultura e sua religião quando seduziu aquele homem feito que ainda ostentava os cachinhos da infância como símbolo de uma força que não provinha de dentro dele, mas era-lhe dada de fora, sob condições estritas. Quando eu era menina e, na igreja, me contavam a história de Sansão e Dalila, era de um ponto de vista literal, maniqueísta e tendencioso, que naturalmente fazia todo o mal recair sobre Dalila. Então eu odiava Dalila por ela ter “feito mal” a Sansão (olhem só a invertida do modelo!). Contudo, e como escreveu o apóstolo, quando eu era menina, pensava como menina. Agora que sou adulta, deixei de pensar como menina e de me deixar aprisionar por discursos dualistas, pendam eles para o lado que penderem. Depois de Jung, Hillman, Pedrazza e Thomas Moore, Dalila se tornou uma das minhas imagens favoritas de Anima. O ritual que ela protagoniza, da tosquia dos cabelos da criança que ainda persistem na cabeça de um macho adulto, é uma das cenas mitológicas mais lindas e significativas da relação homem-mulher, uma cena de iniciação do masculino pelo feminino, manipulada, adulterada e pervertida, ao longo dos milênios, pelos exegetas (quase todos homens) que se pelam de medo de feminino. A história infantil (a qual, porque não pode ser mito, fica retida no âmbito de versão oficial e literal) estilhaçou-se em milhares de caquinhos e eu pude compreender, enfim, porque ser chamada de Dalila por minha mãe nunca me ofendeu nem sensibilizou. Para dizer a verdade, eu adorava. E hoje descobri a razão.

Pequenina odisséia de 2017

“Sabemos qual é o problema: ele (Odisseu) veio de um mundo que rejeitou e negou o princípio feminino, tentando dominá-lo ou substituí-lo por um sistema patriarcal. Agora terá de encarar a força crua do feminino e submeter-se a ela”. (Joseph Campbell)

“Um deus é uma metáfora transparente à transcendência.” (Joseph Campbell)

Ontem, dia 2 de dezembro, Maria Callas teria completado 94 anos. Maria, a garotinha rejeitada e vulnerável, e La Callas, a deusa magnificente e incomparável, ambas  – e todas as personagens que as duas, em parceria, encarnaram no palco – foram reunidas no paradoxo de uma vida arrebatada pelo poder ambivalente do arquétipo. Comemorei a data em clima de sincronicidade, ouvindo uma palestra sobre Callas, marcada sem nenhuma intenção prévia de homenagem. Na verdade, nem mesmo o palestrante se dera conta do fato, lapso quase imperdoável para um devoto, ele também paradoxal. A história mais ou menos inteira é assim: estivemos lendo, nas matilhas, ao longo de 2017, dois livros bastante problemáticos. Callas era uma das figuras abordadas num desses livros, que fala do poder da loucura no Feminino, da sanha destrutivo-criativa de Anima. Não engatavam as leituras, os livros eram cheio de defeitos, pareciam mal traduzidos, um deles era racional e didático demais, o outro, panfletário e clichê. Em suma: nenhuma das duas leituras fluía. Mais de uma vez pensei em interrompê-las para começar outras. Os dois livros falavam, de perspectivas diferentes, da influência lunar, fascinante e dissolvente de Anima, de sua força para convocar confusão e névoa, para pôr a perder a eficiência lógica e discursiva do ego… Um foi escrito por um homem. O outro, por uma mulher arremedando um homem. Só ontem, graças a Maria Callas, consegui vislumbrar um pouco do que aconteceu, pelo menos comigo. Na iminência de desistir das leituras e estimulada por algumas amigas, resolvi mudar de método, numa derradeira tentativa de não fugir da raia antes pedir algum esclarecimento à Alma. Não que eu soubesse o que estava fazendo, longe disso. Estava perdidaça. Parece que deu certo. A Alma se moveu. Os livros foram estripados, espremidos, chacoalhados e a leitura ganhou fôlego. Fomos acolhendo os defeitos, aprofundando a retórica com nossas experiências, transformando enjoamentos em desafios, pulando trechos, enfatizando outros e parece que conseguimos afinal transpor as rochas que se entrechocam, as mesmas que emergem naquela leitura que está na iminência de gorar. Vamos terminando os dois livros, com níveis variáveis de envolvimento, mas, penso eu, também com ganhos para quase todas nós, que acreditamos na jornada compartilhada da matilha. Foi uma experiência e tanto, para mim, pelo menos. Foi minha experiência em particular de estar nas matilhas em 2017, a que mais me desconstruiu e, portanto, me ensinou, numa dimensão difícil de acessar e expressar com as ferramentas expressivas do ego. Me perdi nos labirintos de Anima enquanto eu lia e conversava sobre e com ela, enquanto ela me confundia e desorganizava. Permaneci semanas, meses mergulhada na neblina que Ela costuma liberar para se ocultar das racionalizações, para escorregar para longe das reduções e assim se manter viva, mutável, misteriosa e inacessível, disponível apenas por meio das imagens. Fui até reler “O morro dos ventos uivantes” e pedir ajuda à louca da Catarina, que sempre me vale nessas horas. À parte isso, honro a resistência do meu ego racional, que aguentou o tranco, não surtou de insegurança e aceitou mais essa iniciação humilhante e amplificadora. Agradeço de coração a esse Odisseu medroso e magricela, porém resiliente, por ele ter agarrado na borda com firmeza e evitado mergulhar nas bocas triturantes de Scila e Caribdis, não ainda, não desta vez. Obrigada também a Callas, e a Medeia e Norma e Carmen e Mimi e Butterfly e Tosca… Ao acolher e reverberar tantas faces de Anima em sua transparência, você abriu mão da dimensão opaca e normal que eu posso viver, para esclarecer e enriquecer a consciência coletiva, para alumbrar minha “pequena alma vaga e flutuante, hóspede e companheira do meu corpo” (Adriano Imp.). Ontem você foi a senha para o insight. Que bom que era seu aniversário, porque certamente sua magia estava mais potente e você roçou em mim por um momento que agora guardo, no relicário do meu coração.

 

 

A rainha de todos os bullies

Um jovem amigo me indicou uma série da Netflix, chamada “13 razões”, sobre uma garota de high school que se suicida e deixa 13 fitas gravadas, destinadas a um grupo de colegas, sobre os motivos de sua demissão sumária desta vida. Larguei a história no quarto episódio, antes mesmo da quinta razão. Não porque o seriado seja forte demais, ou por causa do tema espinhoso. Raramente desisto de um bom enrêdo por motivo de desconforto simbólico. Desisti das “13 razões” porque a protagonista e seu corolário de adolescentes babacas e adultos adolescentes babacas me irritaram até o limite da razão. Quase morri de tédio de ter de testemunhar seus infindáveis mimimis, sua fragilidade auto-induzida, sua agressividade fashion e suas neuroses enjoativas. Que mala sem alça de rodinhas quebradas e zíper enguiçado, a tal suicida com treze razões que não somam uma! Não tenho nada contra o suicídio, ao contrário, acho que pode ser uma saída digna e legítima de uma vida que insiste em embotar ao invés de desabrochar. Agora se matar para botar a culpa nos outros de não saber o que fazer com a própria vida me parece um negócio pra lá de idiota, além de muitíssimo perverso. Perversa, aliás, é um adjetivo que cabe como uma luva na protagonista. Manipuladora, paranoica, mimada e histérica para citar cinco qualidades que me assomam à mente sem nenhum esforço. Poderia haver alguma nobreza na saga de Hannah, algum busca interior relevante, alguma razão minimamente substanciosa para seu ato extremo, como por exemplo, uma sensibilidade agredida e violada pelo coletivo, ou mesmo uma desilusão, como a do jovem Wether de Goethe ou da Ana Karenina de Tolstoi. Mas, acredite, não há nada que conceda um mínimo de peso trágico à decisão da garota, ainda que para torná-la verossímil. Hannah, tão esperta, cínica e articulada, tão sobeja de high-tech e recursos, é também incapaz de se defender, de identificar a empatia ao seu redor e de encontrar força e escuta num grupo de aliados. Fato é que, antes de decidir-se pela opção radical, ela não experimenta nenhuma alternativa intermediária. Assim Hannah profana a dor de um verdadeiro suicida com suas razões que são, na verdade, meras racionalizações tingidas de sentimentalismo com sabor artificial de morango. Onde, aliás, a razão se excede, o instinto se ausenta. Seu suicídio é uma abstração calculada para incomodar o alheio e por isso mesmo, não me comove em nada. Essa é a parte verdadeiramente trágica de seu caso. Não consegui ver o seriado inteiro, mas posso testemunhar um desfilar interminável de chororô superficial, um déficit crônico e generalizado de resiliência, um egoísmo feroz associado ao descaso absoluto com o outro, praticados tanto pela protagonista vitimada quanto por seus supostos algozes, todos eles transformados em vítimas pela grande bully onipotente que Hannah se torna depois de morrer. Parece, aliás, que ela só se suicida para poder praticar bully impunemente. Os bullies sempre existiram, desde Caim, e sempre representaram algumas das muitas provações pelas quais temos de passar para nos tornarmos mais fortes. Eles não desaparecerão do mundo por força de nossos esforços prestimosos para nos tornarmos criaturas de pura luz índigo. O que não mata fortalece, na versão de Nietzsche, e engorda, na de minha mãe. Abatida pela fragilidade extremada das crianças de cristal que caracterizam o espírito de nossa época, Hannah não encontra força para viver. Contudo a morte a torna poderosa. Ainda não atinamos para o fato de que os bullies vicejam, em nossas famílias, escolas e empresas, porque nossa cultura ama a agressividade, a independência, o poder, porque cultuamos heróis e guerreiros, os supremos bullies, aqueles que não desistem nunca, que impõem seu desejo ao outro e são amplamente admirados por isso, que justificam, na violência do outro, sua própria violência. Guerreiro é elogio e bullying é proibido, entenderam a contradição? Também sempre existiram e continuarão a existir as vítimas crônicas, que fantasiam as estações de seu calvário privado e disso tiram prazer e sentido para suas vidas, prontas a responsabilizar outras pessoas por seus perrengues. Masoquistas podem se tornar, e frequentemente se tornam, competentes sádicos. Um forte sadismo percorre a lenga-lenga da ex-masoquista Hannah nas fitas. Suas confissões, prescrições e julgamentos são ditados com voz fria, clara e objetiva, num tom distanciado, irônico, assustador quando se pensa no contexto. Não, Hannah não soa abalada com a execução gradual de seu “projeto”. Ela recusa a tecnologia digital “malévola”, marca de sua geração, elegendo um gadget inofensivo como mídia “ingênua” para transmitir seu testamento. Ela é criativa. Ao microfone, ela dita instruções precisas aos que ousaram fazer-lhe “mal”, voluntária ou inadvertidamente, não importa. Todos vão pagar. O poder está em suas mãos agora. Nas fitas, Hannah premedita a própria morte com gélido autocontrole, como forma de vingança infantil, irreparável. Assim ela se torna a rainha de todos os bullies. Em “13 razões”, o sentimentalismo corrói os sentimentos verdadeiros e a comunicação se confunde com o discurso ágil e ácido dos defensivos crônicos, que saem correndo assim que a iminência de um diálogo verdadeiro se desenha no horizonte. Os adultos da série são de um ridículo que, infelizmente suspeito, espelhe em muito a atual realidade. Dá pra imaginar uma mulher de 40 e tantos anos e um diretor escandalizados com as coisas escritas na parede do banheiro de uma escola de ensino médio? Oi? Onde vocês estudaram? Em Marte? Uma história ruim, e pior que isso, equivocada, travestida de intenções solenes, que já vejo sendo considerada “uma sensível reflexão” etc. Temo, aliás, que nossa cultura, tão ciente de si quanto inconsciente de si, ache que a história meia-boca da chatíssima Hannah acrescenta alguma coisa ao já indigente debate sobre bullying. O que Hannah vive na escola bem poderia ser experimentado como uma educação sentimental, em épocas menos esquizofrênicas, com a mocinha aprendendo a amar e sofrer e se tornando mulher adulta no percurso. Nada disso. Ninguém pode sofrer hoje sem dia. Sofrer é politicamente incorreto. É violação dos direitos humanos e, se Deus bobear, vai ser eleito o Bully Supremo e denunciado nas redes sociais. Um elogio do individualismo pueril, do sentimentalismo barato, da auto-vitimização como valor a ser cultivado, “13 razões” é uma grande, cara e superestimada porcaria. E Hannah, uma Hello Kitty zumbi.

Ode à vitamina S

Gosto muito de deixar minha imaginação pendular entre os opostos de que este mundo e nós mesmos somos feitos. Opostos que se encaixam e calibram mutuamente, que se estranham e se apaixonam, que antagonizam e colaboram em parceria, que podem até se destruir mutuamente, mas que não sobreviverão um sem o outro. Yang e Yin, côncavo e convexo, luz e trevas, bem e mal, essas coisas, enfim, de que os barrocos baianos e os metafísicos ingleses souberam falar como ninguém. Paradoxos. Oxímoros. O Feminino e o Masculino, por exemplo. Um quer o presente, o corpo em relação com o mundo, a experiência, a encarnação. O outro quer o projeto, o controle e a abstração espiritual e racional que sustentam as fantasias lógicas de um futuro. Só nascemos porque mamãe e papai entraram no jogo dos contrastes, os opostos de uniram e… bem vindo ao jogo você também! Refletindo sobre as pessoas que passam tempo demais a excluir uma polaridade para a afirmar a outra, me veio um insight: de todos os vícios que a gente inventou para dar conta dos perrengues de viver, o pior é o vício da perfeição. Primeiro porque ele quer negar o jogo. Segundo porque todos os outros vícios derivam dele, ou do desejo doentio que o instaura. Um mundo sem dor nem sofrimento, sem mal e pecado, sem ansiedade ou solidão, sem germes nem bactérias, sem preconceito ou pós-conceito, sem acne, celulite e peitos caídos, sem fracassos nem perdas, sem corruptos e bandidos espelha a expectativa irreal e paralisante de uma multidão de seres humanos que, incapazes de jogar com os contrastes, usam qualquer aditivo à mão para afirmar um polo e negar o outro. Tabaco, fármacos, religiões fundamentalistas, ideologias sectárias, treino físico compulsivo-obsessivo, birita, junkie food, ortorexia, drogas legais e ilegais, redes sociais e outras porcarias naturais e sintéticas pretendem – e por mais ou menos tempo, até conseguem – aliviar a aflitiva sensação de que somos filhos vulneráveis dessa mãe louca que nos joga de um lado para outro, chamada Vida. Corta.

No mundo de onde eu venho, a vitamina S era muito usada para melhorar a resposta imunológica das crianças aos invasores naturais, tão indesejáveis quanto inevitáveis. Quer dizer: não que muita gente soubesse disso objetivamente, mas havia uma forte intuição da necessidade dessa interação, até porque a tecnologia médica não era esse deus supremo que é hoje em dia. S é de “sujeira”, para quem desconhece o termo científico. Nossos pais não tinham noção do bem que estavam fazendo, quando se recusavam a desinfetar obsessivamente nossos brinquedos ou quando nos deixavam brincar com nosso grande mestre, o mundo, sem grandes frescuras. Já adulta, um conhecido meu, infectologista, me contou que as lombrigas que tive na infância foram grandes aliadas da minha resistência a gripes e resfriados. Segundo ele, elas ensinaram meu corpo a lidar com agentes patogênicos bem mais punks, como bactérias e vírus. Agradeço sempre às lombrigas que ajudaram a fazer de mim quem eu sou. Ah! O mundo real! Que grande companheiro ele pode ser, quando a gente não tenta inutilmente esterilizá-lo com litros de álcool gel e antibióticos perigosamente desnecessários! A terra e a areia, os pelos dos gatos e cachorros, o ranho e a baba dos amiguinhos com quem trocamos peças de Lego, os biscoitos com meleca e os crocantes tatus-bola que degustamos, num piscar daqueles olhos vigilantes, todas as porcarias invisíveis do chão aonde precisamos engatinhar livremente, a fim de virarmos bípedes competentes! Que beleza é a sujeira, quando ela intervém para moderar a limpeza descompensada! Metafórica e literalmente, a vitamina S (de Sombra, adoro isso) é a melhor imunização contra o vício da perfeição. Ela é uma dádiva, não do conhecimento científico, mas do bom senso, que anda muito em falta ultimamente, malgrado o excesso de informação que nos intoxica com múltiplas paranóias. A vitamina S é uma dádiva do Feminino profundo e escuro, essa dimensão úmida, viscosa da vida a qual atua em nossa psique para que encarnemos mais e melhor, a grande alquimista que trabalha para transformar conhecimento em experiência. Dá pra imaginar que o vício da perfeição anda higienizando os contos de fadas? Histórias sem vitamina S, sem megeras, órfãos, anões e gigantes, desgraceiras e lobo mau… e as crianças, coitadas, vão sendo impedidas de construir defesas simbólicas contra predadores concretos e crises reais.

Uma combinação equilibrada de liberdade e controle resulta na criação sensata e prazerosa de indivíduos mais resistentes, física e psicologicamente: os tais sujeitos resilientes. É a união dos opostos que traz integridade, a qual, por sinal, não tem nada a ver com a perfeição, nada mesmo. No caso da criação dos filhos, tem de ter principio feminino e princípio masculino dinamizando o tempo todo na relação, exercendo forças polares e cooperativas, afirmando parâmetros opostos, sendo cada qual respeitado e acolhido em seu papel e função de ajudar as crianças e os adolescentes a ancorar neste mundo velho sem porteira. Educação de filho é parceria de energias antagônicas. A exclusão de um dos lados desse jogo mutila nossa alma, fragiliza nosso corpo e nos torna prisioneiros de idealizações que nos impedem de viver de verdade. Assim estou aqui hoje para defender as lombrigas e os ogros que nos ensinam a jogar. Vou aproveitar para pedir às mães e aos pais que tentem, mas não com tanta força, como diziam ao Marvin, personagem do Jerry Lewis em “O bagunceiro arrumadinho”: um cara que, de tão ansioso por organizar, convocava inconscientemente um caos proporcional (e calibrador) ao seu desejo excessivo pela ordem. Tudo é compensação, no mistério cósmico-bioquímico-psicológico que é nossa vida na Terra. “Nada em excesso”, ensina o sábio oráculo de Delfos. Nem limpeza, nem água, nem amor. Nem mesmo a bondade, que tem se manifestado, em nossa cultura, como a hipocrisia fashion da correção política, a mera aparência de bondade para exibir aos outros. Este mundo em que seus filhos terão o privilégio de crescer, se vocês permitirem, é lindo e perigoso, politicamente incorretíssimo, cheio de ameaças e oportunidades, de megeras e fadas, de vitórias e derrotas, de picos e vales. Quanto mais vocês aprenderem a transitar entre as polaridades e ensinarem a eles o jogo dos contrastes, melhor eles se sairão como pessoas inteiras e reais. Isso se vocês não quiserem que eles se juntem à horda de pseudo-pessoas, esses estereótipos mal encarnados que andam sonambulando por aí, afligidos pela sinistra doença que os obriga a sacrificar quem eles verdadeiramente são no altar daquilo que eles que nunca serão. Defendam-se e aos seus filhos do sinistro devorador de almas que é o vício da perfeição. O resto se ajeita. Sério.

P.S. – Recentemente ouvi uma notícia auspiciosa: que o FDA proibiu, nos EUA, a venda do sabonete antibactericia Protex, alegando que seu uso indiscriminado está relacionado com o aumento da resistência de agente patogênicos. Vitamina S nele!

Visões

palmira

Nada é, para mim, tão concreto e persistente quanto a memória. Nada é, para mim, tão real  e transformador quanto a imaginação. Nada precede a Beleza e o Amor, Afrodite e Eros, mãe e filho, na ordem da realidade como na do mistério, sendo as duas uma e a mesma. A verdade pode se tornar tirânica. A justiça pode se tornar arbítrio. A bondade pode ser pieguice. Já a Beleza nos põe de joelhos, muito antes que soe uma única vogal. O Amor a segue, qual um cãozinho ao seu dono. Eu sirvo à Beleza porque não tenho escolha. Quanto ao Amor, desconheço outra verdade, outra lei. O resto é vaidade e correr atrás do vento, disse Salomão, o homem que não fazia questão de ser nem melhor nem mais sábio do que os outros. Nada em excesso, e nisso o oráculo de Delfos é o único com licença para soar dogmático. Enquanto a vida prossegue, aprendo que menos é mais e mais é nada.

 

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MÚSICA

Não poderei ver um show ao vivo de Leonard Cohen por enquanto. Mas quando encontrá-lo, vou pedir que ele cante “Famous blue raincoat” ao violão, só para mim, de preferência com sua voz de mocinho. Vamos nos sentar numa esquina decadente da Montreal dos anos 1950, beber bourbon sem receio de ressaca e falar sobre sexo e religião, que também são uma e a mesma coisa. Jesus deve aparecer a qualquer momento, com sua mochila de lona verde. Lá vem ele: acaba de virar a esquina, bem acompanhado, como sempre. A morena agressiva, de lábios grossos, olhos chispantes e coxas de ébano, é Kali, a Negra, e não vai topar sentar com a gente, claro. Deixa ela, diz Jesus, largando a mochila no chão, entre resignação e alívio (“essa mulher é muita areia etc”). A morena se afasta furibunda (“ela é assim mesmo”, ele revira os olhos, como no retrato do Sagrado Coração). Penso que ambos formam o casal perfeito, a união dos opostos, a imagem-síntese das núpcias alquímicas. Jesus se junta a nós e pede “Hallelujah”, o que acho meio manjado da parte dele. Só que faz questão da voz demolida de profeta, pelo menos. A luz da tarde está linda, mescla de violetas e dourados, uma banda do mundo luminosa, a outra, já mergulhando em sombras. Obrigada, fui eu mesmo que fiz esse crepúsculo, diz Jesus, em resposta ao meu pensamento que não teve tempo de sair da cabeça. Isso irrita um pouco em Jesus, mas tudo bem. No resto, ele é ótima companhia. Começa a esfriar. As duas bandas da Terra estão escuras agora. Ainda bem que eu trouxe meu famoso xale azul. Pedimos mais uma rodada e Leonard recomeça.

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LIVROS

Eu e Agatha Christie flanando pelas ruas de Aleppo. Já embarafustamos por um souk ruidoso e colorido de doer nos olhos. Já tomamos café, comemos doces e eu consegui comprar, depois de vinte minutos de intensa barganha, duas cópias de cerâmica de figurinhas da deusa, embrulhadas em papel de seda amarfanhado. Chegamos a Estambul vindas de trem de Calais e depois viajamos até a Síria. Sou voluntária na equipe de Max Mallowan, o marido arqueólogo de Agatha, que vai escavar no vilarejo de Chagar Bazar, à beira do Eufrates, na temporada deste ano. Estamos nos anos 1930. Tenho 16 e pretendo ser arqueóloga. Fui aceita por Max com relutância, imagine se essa menina adoece, se se apaixona, que responsabilidade. Nem sei como meu pai deixou. Agatha intercedeu em meu favor, ela é muito convincente quando quer. Disse que vou ajudá-la com os originais do novo livro e estou que não caibo em mim, de alegria e medo. Eu e ela somos as únicas mulheres do grupo. Ela é a grande khatun e eu, sua ciosa carregadora de cauda. Sou um pouco mais velha que Rosalind, a filha que ela nunca leva nas viagens com Max. Aleppo é antiga e venerável, uma cidade sagrada cheia de sombras de deuses que teimam em continuar a existir, um emaranhado de ruas velhíssimas cruzadas por figuras embuçadas, saídas das histórias de Richard Burton.

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Um homem passa por nós, trajes brancos imaculados, capa multicolorida, tarbush negro emoldurando um rosto ocidental e quase feminino, olhos ardentes de Rodolpho Valentino. Falso como o sheik do livro de Edith Maud Hull que resgatei de uma caixa cheia de livros velhos, um tesouro abandonado na calçada pelos vizinhos de minha tia. Falso mas não menos galante por isso. Andamos Agatha e eu de braços dados e nos cutucamos quando o sheik passa por nós qual uma ventania, as roupas amplas farfalhando. A alvura dele me faz sonhar com a luz cremosa de Palmira, a deusa-cidade florescendo em seu oásis. Haveremos de ver Palmira a caminho para o Eufrates. Quero aprender a ser como Agatha: ao mesmo tempo uma khatun e uma menina que se diverte com tudo, que faz a mágica da reparação de revezes quando escreve. E olhe que ela não escreve sobre almas-gêmeas, nem potes de ouro no fim do arco-íris, nem prestimosos esforços para fugir da depressão em duas semanas. Aliás ninguém foi tão fundo na própria dor quando Agatha. Ela mergulhou e retornou da noite escura com uma braçada de crimes para narrar. Talvez por isso ela seja assim, tão inteira, tão honesta quando mente. Agatha me confessa que sente saudades de Aleppo, de Palmira, de Kamichlie, até mesmo da feiosa Amuda. Ela diz: “Inshallah, eu voltarei algum dia e as coisas que eu amo não terão desaparecido desta terra”. Sim, elas terão, minha querida. Nem a gloriosa Palmira restará, abandonada que foi pela civilização que não merecia o paradoxo de sua beleza. Mas que bom que você me levou lá antes.

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