Meus pedacinhos de Malu

As histórias da Malu já começaram a rolar na rede. Adoro. Parece o conto indiano dos cegos e do elefante. Cada um vê um pedacinho da Malu. Malu inteira, só mesmo agora, quando os opostos da vida e morte se encontraram e todos queremos evocar uma história na qual ela aparece dotada com as qualidades e os defeitos que a fizeram única, imperfeita e bela, como só a integridade pode revelá-la. Eu também tenho de falar dos meus pedacinhos de Malu. Do seu divertido mau-humor. Da sua presença gostosa e querida na nossa matilha de leitura, uma lobinha digna da mestra Clarissa. Das nossas polêmicas sobre os homens e o amor. Da sua compaixão pelas crianças com recursos demais e infância de menos. Da sua paixão pelos mitos, os gregos em particular (também por causa dos heróis guapos, fala a verdade, Malu!). Da sua aversão pela instituição educativa e a religiosa, e o infinito gás que ela tinha para polemizar sobre o tema. Do seu senso de humor ingênuo e impagável. Da sua inegociável elegância, sempre de unhas feitas e cabelo impecável, equilibrada no alto dos saltinhos. Da sua habilidade sonsa para ganhar no jogo de mau-mau. Do seu gosto pelas imagens, que resultou numa vontade de desenhar e pintar, coisas que ela fazia no ateliê fora do horário de atendimento. Da sua absoluta incompetência para a cozinha. Da sua falta de paciência com “gente tapada”, como ela mesma dizia, e das respostas curtas e grossas que ela dava para essa gente, que faziam a gente ficar se espremendo de dar risada. Da sua coragem para dizer as coisas que precisavam ser ditas. De beber vinho branco em turma, com ela junto, falando merda (para adubar a vida, Malu) e dando risada, lá na varanda em Barê. De comentar e compartilhar bons filmes e livros. De caminhar pela praia, ela em meio à mulherada, todas movidas a letrinhas (como dizia o Edu). Daquele pendant que ela me trouxe do Chile, um idolozinho andino com cara de mau humor, feito de lápis lazúli. Do dia em que a gente gravou, aqui em casa, o DVD do Beto e da Laura, sobre Jung e educação, com ela linda, loura e loquaz, falando com propriedade e inteligência. Das nossas conversas sobre o ego e a sombra. Da gente preparando a festa de Dia de Muertos no ateliê, em 2010, e lendo o artigo lindo do Gambini, “A morte como companheira”, que ela adorava. De estar com ela naquele Moitará inesquecível sobre a morte, lembra, Malu? De recebê-la aqui em casa para festar (nas nossas fotos de festas dos últimos 200 anos, lá está ela, irmãzinha querida, inclusive no último natal, tomando prosecco, a danada). De fofocar sobre Lorde Voldemort, o falso. Daquela ida ao colóquio do Rio, eu, ela e a Lelê partilhando o mesmo quarto de hotel, feito três meninas numa festa do pijama. De passear com ela por Olinda, enforcando o congresso do Imaginário, quando o frei sem vergonha quis tirar foto no meio de nós duas e nos deu um bom apertão. De ir com ela e as garotas do imaginário à maravilhosa Oficina do Brennand, no Recife, o jardim dos arquétipos, lembra, amiga? De ter ido ouvir as vésperas cantadas pelas freiras naquela igreja-convento cheia de morcegos, num maravilhoso entardecer a la Frans Post. De ter ido com ela ver e ouvir o Wisnik e o Caetano no lançamento da obra do Freud e de ela achar o Caetano um gato (coisa difícil, porque Malu era super-picky). Malu que me levou para o imaginário de Durand, que me apresentou para a Ciça da FEUSP, que me contratou para dar aulas de “12 trabalhos de Hércules” para ela, minha primeira aluna (e também mestra) de mitologia grega. Quantos pedacinhos da Malu, cada um, um delicado fragmento de cristal colorido que integra nosso pequeno vitral lateral, não a grande rosácea central que você agora encena, querida, mas apenas nosso vitralzinho particular, lindo e colorido e translúcido. Tomara que você tenha levado consigo alguns pedacinhos de mim também, querida, para esse lugar aonde você agora está. Do nosso vitral encarnado, eu continuo cuidando, pode deixar, enquanto estiver por aqui, no ateliê, na praia em Barê, na matilha, com as garotas da FEUSP, com a Laura, o Beto e a Bel, rodando pelo Itaim, festando aqui em casa, nas nossas festas do Dia de Muertos, com você agora no centro do altar das ofrendas, vendo um belo filme, estrelado pelo George Clooney, de preferência. Na véspera da tua partida, mais um pedacinho veio se juntar aos que eu já guardava comigo: você me visitou num sonho deslumbrante, chique a mais não poder, vestindo um mantô branco de lã muito fina, coisa de alta costura, linda e loura de chapinha, como você gostava. Estávamos numa casa ampla e luminosa, que também era um estúdio de gravação. Havia uma terceira personagem negra, gorda e muito linda, com um enorme sorriso no rosto. Era a zeladora da casa-estúdio. Você chegou e me disse que tinha ganho um fôlego novo e queria fazer uma festa, embora soubesse que não tinha sarado. A zeladora ouviu nossa conversa e se meteu, dizendo: “Vocês ouviram falar de um cientista que acaba de lançar um medicamento novo, chamado panaceia?” Fiquei radiante e te disse: “Olha que sorte, Malu! Você ganhou um fôlego só para tomar a panaceia”. Acordei sabendo que, embora eu já não pudesse te visitar, você havia me visitado. Obrigada, querida. Nos vemos. Muitos beijos. Seja feliz.

“No cemitério é bom de passear”: um memento para o Dia dos Mortos

Eu tinha dez anos e cursava o ginásio no instituto estadual de educação. Aquilo era a morte. Escola era a morte. Ficar dura, quieta, ouvindo a professora vociferar ou então falar com voz hipnótica, para boi dormir. Era ou medo ou sono, ainda mais no período da tarde, que era o meu. Eu odiava aquilo de ter de ficar ouvindo, ouvindo sem entender nada. As professoras falavam grego, arcaico a de matemática. Eu me sentia tão burra, mas tão burra que nem pergunta eu sabia fazer. Ou até sabia, mas… e se eu fizesse a pergunta errada? De vez em quando, alguém perguntava uma besteira e levava broncas horríveis, era humilhado na frente de todo mundo. E a gente ainda ria do coitado que perguntava o que a gente não tinha tido coragem de perguntar. Melhor ficar dura e quieta e me fingir de morta e esperar aquela eternidade terminar. Porque demorava, mas terminava. O sinal tocava feito um guincho de dragão furioso e a gente pulava da carteira como aqueles escravos que arrebentavam correntes com as mãos erguidas, na lição da Princesa Isabel assinando a Lei Áurea. Parecia uma boiada estourada que arrebentava a porta e se enfiava pelos corredores, todo mundo se atropelando, gritando, socando, pulando, liberdade ainda que tarde, vamos embora deste lugar maldito, vamos viver, andar, falar, mexer, perguntar, ser. Era muito linda a libertação. Dava medo, mas era linda. Eu amava o último medonho guincho do dragão furioso do sinal da hora da saída. Era um som celestial, um som que vinha direto do paraíso ou do inferno, tanto faz porque, fosse o que fosse, estava consumado. Tinha gente que jogava tudo para o alto, de tão feliz. Eu não tinha coragem de jogar tudo para o alto. Eu só ficava feliz. O melhor final de dia da semana era na sexta-feira, em que a gente não tinha a última aula. O guincho do dragão anunciava que a gente ainda tinha uma hora de luz do dia para passear na avenida Lins, xeretar as prateleiras da loja Momotaro, cheias de bobaginhas japonesas uma mais linda que a outra, passear no cemitério da Vila Mariana… Eu adorava passear no cemitério, do jeito que a Adelia Prado conta em seu poema “Campo Santo”. Eu e a Satiko, minha amiga japonesa com cara de lua cheia. As outras meninas tinham medo ou achavam besta. A gente não, mesmo porque passear no cemitério podia ser tudo, menos besta. Besta era ficar fumando bituca encostada no muro da escola e fazendo tipo para uns meninos espinhentos e panacas. Quanto a dar um medinho, isso dava. Mas era um medinho interessante, primo-irmão da curiosidade. Eu e a Satiko, a gente andava de braço dado entre os túmulos, ia lendo as placas, fazendo contas das idades dos defuntos, conferindo os retratos, reparando nos vasos: os vazios, os com flores secas, os com flores frescas… As capelinhas davam um medinho um pouco maior, porque elas tinham portas e janelas gradeadas e a gente sempre achava que o defunto ia aparecer de repente, vindo lá do fundo, e nos dizer: “Olá!”, com aquele sorriso eterno de caveira. Nunca apareceu nenhum. Uma pena. Mas a gente continuava olhando, cheias de esperança. Era bom demais passear no cemitério. Era calmo como a escola nunca era, e as folhas das árvores ciciavam com o vento, como se as almas nos dissessem: “Boa tarde, meninas, ainda bem que vocês vieram hoje. A gente passou a semana aqui, na maior solidão”. Às vezes, a gente fazia um piquenique de lanche mirabel com caçulinha morna em cima de uma lápide mais lisa e limpa. Era uma coisa bem japonesa de se fazer. A Satiko me contava de como, quando a avó dela morreu, teve festa na casa dela e os pais e tios levaram bandejas de doce de feijão (que a avó dela adorava) ao cemitério, para botar em cima do túmulo, feito flores. E que ela e o irmão tinham se empanturrado de doces, enquanto os adultos conversavam e riam de coisas da vida da avó dela, uma velha muito mandona. Meu pai não me deixava ver defunto, então eu achava que era assim que todo mundo fazia e me surpreendi com a história da Satiko. A primeira vez que fui a um velório, eu tinha uns doze anos e foi muito, muito triste, porque o morto era um mocinho, irmão da minha amiga da escola e da igreja. Teve muito choro, a mãe gritando, minha amiga gritando, o pai do morto muito quieto e arrasado, o pior de todos. Tive muita, muita pena do pai, mais ainda do que da mãe do moço morto. Não foi nada parecido com o que a Satiko tinha me contado lá no cemitério, entre um quadradinho de lanche mirabel e um gole de caçulinha morna. Muito tempo depois, eu soube da festa mexicana do Dia de Muertos e aí entendi um pouco mais os meus passeios com a Satiko pelo cemitério da Vila Mariana. Ontem, lá no ateliê, a gente fez a segunda Festa do Dia de Muertos em que eu já fui na vida. Foi linda. Só não teve lanche mirabel com caçulinha morna, mas teve muitas outras coisas gostosas de comer e beber. A gente contou histórias, leu poemas, botou fotos dos mortos no altar que as crianças armaram, riu, chorou, viu filmes… Os mortos também viram, ouviram, sentiram. Com nossos olhos, ouvidos e corações, é claro, porque os deles já não existem mais. E eu me senti de novo como se fosse um fim de tarde de sexta-feira, aos 10 anos de idade, vadiando pelo cemitério com minha amiga Satiko. Ouvindo o vento ciciar nas folhas as vozes dos fantasmas. Sentindo um medinho misturado com liberdade e prazer.  Logo depois, eu me lembrei dos passeios da Adelia: “Se um galo cantar e for domingo, será tanta a doçura que direi: vem cá, meu bem, me dá sua mão, vamos dar um passeio, vamos na casa de tia Zica pra ver se Tiantônio melhorou. Ressurgiremos. Por isso, o campo-santo é estrelado de cruzes”.