Neobárbaros no rastro de Héstia: as pistas de Hundertwasser

Um jardim no telhado. Uma toalete que capta o cocô da família e o redireciona, como húmus, para adubar as áreas verdes da casa. O sagrado direito às janelas. A arte que respeita a natureza e suas leis. A arte que respeita o homem e sua aspiração pela verdade e pelos valores que duram. “O manifesto da merda sagrada”… Se você está achando tudo isso pra lá de original, é porque provavelmente ainda não conhece Friedensreich Hundertwasser… ou conhece, mas ainda não deu a ele a atenção devida. Vienense, filho único de mãe judia (poderosa) e pai “ariano” (falecido quando ele tinha apenas um ano de idade), Hundertwasser foi um pintor criador de seu próprio movimento ético-estético, um “médico” da arquitetura, visionário, naturista (que gostava de discursar pelado, absolutamente fiel ao contexto dos discursos), agitador cultural e ativista ecológico em luta pela qualidade de vida na cidade e contra o racionalismo e as linhas retas na arquitetura, um inventor ousado e um reencantador do mundo em tempo integral. Nascido em terra muito firme em 1928, o artista morreu sobre a água em 2000, a bordo de um navio que singrava o Pacífico, rumo à Nova Zelândia. Mais mítico impossível. Muito antes da ecologia virar clichê, Hundertewasser  já era um ecologista completo, sem fissuras entre vida, arte, ciência e política. Quando ele morreu, a consciência ecológica, seja lá o que isso queira dizer, nem bem engatinhava. “Gugue”-o e você vai se deleitar com algumas visões de sua obra: quadros em que a arte nunca é uma abstração intelectual, mas uma experiência para ser vivida como presença no mundo; prédios sem linhas retas, com ávores pendendo de janelas e acabamentos deslumbrantes, feitos com sucata de material de construção; a Kunsthausswien, um conjunto arquitetônico que ele ergueu em Viena, com o apoio da municipalidade, à margem do rio Danúbio (www.kunsthausswien.com)… Desculpem a tietagem explícita mas, em matéria de Hundertwasser, sou tudo, menos objetiva. Um poema do artista: “A linha que traço com meus pés / quando vou ao museu / é mais importante e mais/ bela que a linha / que descubro pendendo / dos muros-paredes” (Paris, 1953, minha própria tradução afetiva). Apesar de sua urgência para nós, neobárbaros, de sua atualidade, de seu gênio modesto, empático e bem humorado, tão deficitário na arte desta nossa idade do ferro, Hundertwasser é, neste post, tão somente um pretexto (muito maior e melhor do que o texto!). Quero invocá-lo aqui para abordar, com a devida reverência, uma de suas teses mais geniais: a das 5 peles do ser humano. Pele número 1: a Epiderme. Pele número 2: as Roupas. Pele número 3: a Casa. Pele número 4: a Indentidade e o Meio-Ambiente Social. Pele número 5: o Ambiente Global / o Planeta. E eu, que outro dia falava de Héstia, acordei no meio da noite pensando nas 5 peles de Hundertwasser. Mas, como dizia o Júlio Gouveia, que era o mestre de cerimônias da versão para TV da minha infância do “Sítio do Picapau Amarelo”: “Este é uma outra história que fica para uma outra vez…” Quer saber mais sobre Hundertwasser? Vá até ANIMATECA e clique no post VIDROU EM HUNDERTWASSER?

O exílio de Héstia, a verdadeira rainha do lar

Quando eu tinha uns 11 anos, minha mãe me ensinou a lavar a calcinha no banho e a pendurá-la no varal, na área de serviço. Ela também me ensinou a enxugar a tampa da bacia da privada depois de usá-la e a aproveitar a toalha de papel usada no banheiro público para enxugar a pia, porque ela seria usada por alguém depois de mim. Quando eu punha certas roupas para lavar, ela dizia: “Esse vestido está limpo e bem pode ser usado de novo antes de ser lavado. Assim a gente economiza água e energia elétrica, sem falar que a roupa dura mais”. Minha mãe também me ensinou que a gente lá em casa não era sócio da Light, a Eletropaulo dos anos 1960-70. Isso queria dizer que cômodos vazios não mereciam a dádiva da luz acesa ou da televisão e som ligados, porque a energia não chegava de graça em nossa casa. Hoje sei que isso se chama civilidade. Inteligência prática. Racionalidade. Também se chama respeito pelo outro: o que paga as contas, o que usa o banheiro depois de nós, o que lava e passa a nossa roupa. Minha mãe dizia: “Aqui em casa não tem uma fadinha que faz tudo usando uma vara de condão”, mesmo que, na maior parte das vezes, ela mesma encarnasse essa fadinha. É claro que ser de Virgem ajuda muito nesses casos, mas sou muito grata a minha mãe por ter me criado com essa consciência do valor de uso e da conservação dos objetos, da necessidade de desenvolver uma independência e competência para lidar com a realidade concreta. Ao fazer isso, ela me ensinou a atribuir um valor visível e outro, invisível, ao mundo cotidiano, à dimensão banal da realidade. E eu aprendi com ela que nada é banal, nem a calcinha suja misturada com outras roupas no cesto, nem o prato de boa comida jogado quase inteiro no lixo, porque a mãe não teve bom senso para prepará-lo de acordo com o apetite do filho pequeno.  Minha amiga Marina, que foi gerente de uma pousada em Salvador, me contava outro dia de como os hóspedes brasileiros iam à praia, deixando para trás o ar condicionado e a TV ligados e as luzes acesas. Quando ela sugeria que desligassem tudo ao sair do apartamento, eles respondiam: “Mas nós estamos pagando…”. Esse ar condicionado zumbindo ao Deus dará, essa calcinha suja misturada no meio das outras roupas do cesto (quando não jogada no chão do quarto ou do banheiro), essa boa comida desperdiçada não são objetos sem alma, muito menos causas sem consequência. São mensagens de um modo de viver esgotado e decadente, mas também sintomas da repressão, em nossa cultura, de um arquétipo muito bem personificado, como sempre, por uma divindade do panteão grego: Héstia, a deusa guardiã do lar, a senhora do fogo da lareira, filha de Cronos, o Pai Tempo e neta de Gaia, a Mãe Terra. Mas vou falar dela só amanhã, para não desperdiçar a paciência do leitor.