Ler, varrer, equilibrar

O artigo do Estadão de ontem (20-05) se chama “Troca-se serviço doméstico por leitura” e me fez lembrar dos tempos do mestrado. Quando minha cabeça começava a ferver, eu ia recolher e dobrar a roupa lavada, varrer o quintal, regar o jardim, fazer um bolo. Só no doutorado fui aprender a teoria, com Gilbert Durand. Trajetividade é a arte de oscilar entre dois polos, yin e yang, masculino e feminino, um e outro, excepcionalmente um ou outro, mas somente por breves períodos, porque toda unilateralidade é neurótica. Então era isso que acontecia comigo. Minha alma pedia equilíbrio. A partir daí, comecei a pendular conscientemente. Do tanque para o computador, do livro-cabeça para o fogão, da correção das redações para a lida com as plantas, das planilhas de avaliação para o varal, da espada para a vassoura…  Lendo o artigo, conclui que as moças que conceberam o projeto, atrizes da Coletiva Ela, devem ganhar tanto quanto as donas de casa a quem se oferecem para fazer o serviço doméstico de graça, enquanto as segundas leem. Eu diria que se trata de preservar o sagrado direito das mulheres ao bovarismo, se os livros propostos fossem romances e escolhidos pelas leitoras. Como se trata livros “didáticos”, tipo “Mulheres, raça e classe”, da Angela Davis, ou seja, formadores de seres militantes e não de seres devaneantes, não é o puro prazer de ler que se quer estimular. Para mim, poucas coisas são tão transgressivas quanto largar o serviço (qualquer serviço) para ler um romance. Aliás se Charles Bovary não guardasse Ema numa redoma e ela tivesse de alvejar, engomar e passar as próprias anáguas talvez a vida não lhe pesasse tanto.

E quando digo que as moças da Coletiva ganham tanto quanto as donas de casa com quem trocam de lugar, quero dizer que, no trajeto, essas moças que (imagino eu) foram à universidade, leem livros-cabeça, discutem usando o jargão ideológico-acadêmico e acreditam que a razão lógica é o topo da cadeia alimentar) devem se beneficiar um bocado quando se dispõem a cuidar do cotidiano horizontal, arrumando a casa, organizando a louça, passando a roupa, lavando o quintal, vivendo o presente absoluto da rotina perene dessas eternas cuidadoras da vida. Não há vida possível sem o trabalho diário, cíclico e infinito das donas de casa. Nem reflexões, nem teses, nem livros, nem artigos, nem nada que preste, já que toda(o) intelectual tem de comer, se vestir, viver numa casa minimamente habitável etc. Toda(o) pensador(a) depende da regência da vida tal como executada por uma dama de Ouros (o naipe da realidade concreta). É ela que garante o bom andamento de uma tarefa de Espadas (o naipe da vida mental). Liberar as donas de casa de sua faina gloriosa, ainda que por algumas horas, deve ser considerado não só uma honra, mas também uma oportunidade cada vez mais rara de aprendizado. Desse ponto de vista, não aprendem apenas as donas de casa com a douta Angela Davis e suas discípulas. Aprendem também – e muito – as discípulas de douta Angela Davis com as donas de casa. Desde que minha querida funcionária se aposentou, há 5 anos, vivo cada vez mais esse movimento pendular calibrador. Escudada pela minha faxineira semanal e apoiada pelos dois homens feministas que comigo dividem as tarefas, pude enfim tomar pé do meu território doméstico. E como amo desencardir uma fronha branca! E que deleite arrumar uma cama com capricho! E como alivia meu cabeção congestionado com leituras chiques preparar um almocinho gostoso! Que sorte têm essas moças, caso estejam mesmo abertas a experimentar a outra polaridade e desde que não se sintam superiores por imaginarem que o trabalho intelectual é superior ao trabalho doméstico! No meu entender, um título mais adequado para a matéria do Estadão de ontem seria “Troca-se serviço doméstico por leitura e leitura por serviço doméstico”. Há equidade nessa reciprocidade. Há uma proporção que honra Maat, a deusa egípcia da justiça. Ainda assim, eu diria, se acaso me perguntassem: mais romances, por favor. E mais liberdade de escolha. Porque se tem uma coisa que as donas de casa merecem é ter liberdade de escolha.

P.S. – Uma amiga que leu este post me escreveu ontem recordando que o psiquiatra da mãe dela costumava dizer que lavar um pouco de roupa no tanque todos os dias ajuda a manter a saúde mental. O que comprova minha hipótese sobre Ema Bovary e sua roupa de baixo.

Caçaram Pedrinho !!! Vida longa a Monteiro Lobato

Se tem uma coisa que infernizou a vida de Monteiro Lobato foram as patrulhas. Estéticas. Políticas. Ideológicas. Religiosas. Autêntico, bocudo, polêmico, ousado, emiliano, enfim, até a medula dos ossinhos miúdos, Lobato foi execrado por diversas patrulhas em atividade à sua época, por dizer e escrever o que lhe dava na telha e fazer o que achava certo. Era, em suma, um homem leal ao seu daimon, coisa que os medianos metidos a ótimos nunca lhe perdoaram. Por isso foi xingado de americanófilo, subversivo, reacionário, entre outras pérolas. Vira e mexe seu nome ainda é usado em vão por uma pobre gente que não teve a sorte de lê-lo na infância. E que, ao que parece, também não faz questão de lê-lo agora, antes de emitir julgamentos equivocados sobre sua obra. Semana passada, um tecnoburocrata da educação chamou-o de racista, baseado num trecho fora de contexto do delicioso “Caçadas de Pedrinho”. Foi assim: o livro apareceu numa lista de indicações de leitura elaborada por uma escola pública do Distrito Federal e o tal funcionário padrão, com seu olho de águia devidamente remunerado pelo contribuinte, encontrou lá uma menção a Tia Nastácia subindo numa árvore para fugir de onças, feito “uma macaca de carvão”. Baseado nisso, o servidor decidiu acertadamente incluir “Caçadas” no seu gosmento index. Acertadamente sim, porque tudo o que Lobato nunca quis na vida foi ser politicamente correto. Muito ao contrário. Por isso acho ótimo que excluam sua obra infantil das mofadas listas escolares, as mesmas que servem para imunizar crianças e adolescentes contra os perigos do prazer de ler. Quanto menos Lobato for lido como dever escolar, menos chance terá ele de ser desencantado pelo toque de anti-Midas da escola. E quem pode dizer se esse leitor bissexto não acabou prestando um serviço à obra de Lobato? Quem sabe se a  polêmica levantada por ele não acabará servindo para reviver as histórias contadas por esse brasileiro genial, na memória de uns tantos pais e avós que tiveram as infâncias iluminadas por seus livros? Assim já estaria de bom tamanho, se a turma do pano-quente não tivesse tido uma ideia realmente desastrada. Que funciona mais ou menos como pregar um cartaz nas costas do livro, do jeito que fez a Emília com o estafermo do João Faz-de-Conta, em seu famoso circo de “escavalinhos” (Reinações de Narizinho). OK, fica na lista, mas com uma bula de “politicamente incorreto” em anexo. Lindo. Apenas para esclarecer aqueles que não conhecem bem Lobato e suas criaturas, a diabinha da Emília em particular:  frequentemente eles descrevem pessoas brancas como “bichos de goiaba” e “baratas descascadas”. Será que isso configuraria um empate? Eu ainda tenho para mim que “O saci” resolve , no ato, essa pendenga, quando atua como orientador e guia de Pedrinho numa jornada de iniciação aos mistérios da floresta. O neto branco da aristocrata latifundiária dona Benta (na verdade uma sitiante metida a intelectual autodidata), posto sob o comando de um moleque negro, e de uma perna só, ainda por cima? Será que isso aplacaria os pruridos do tal moço zelozo? Ou poderíamos também considerar a hipótese “O minotauro”, em que tia Nastácia amansa e ceva o monstro mítico no interior de seu próprio labirinto, empanturrando-o com seus divinos bolinhos de polvilho… Aliás, em matéria de incorreção política, sugiro aos inquisidores de plantão que investiguem “Histórias de tia Nastácia” porque vão se fartar. Ali tem conteúdo que justifique, inclusive, um auto-de-fé. E vou parando por aqui, porque não ganho para dar consultoria sobre Monteiro Lobato a gente desinformada. Para encerrar, invoco a Emília. Ela que mande esses caras de coruja seca pentearem macacos. Ou descascarem baratas. Tanto faz.