As fabulosas amigas de Cronos

Galinha-perua (fundo aquarelado e canetinha nanquim sobre papel)

Meu marido leu no Estadão e me repassou a coluna do Tutty Vasques de terça passada. Vou ter de falar dela, até porque, quanto usou o termo “idade da loba avançada”, Tutty ativou a senha de dona Clarissa Pinkola Estés. Como loba sobrevivente e veterana, com muito gosto, preciso responder. Fiquei lendo o texto e vendo a Oprah na TV. Sincronicidade absoluta. Você pode achar a Oprah apelativa, se-achona e manipuladora. Ela é tudo isso e não nega. Mas você tampouco pode negar que a Oprah seja uma força da natureza. Uma força tão bipolar quando a própria natureza. Uma força que atua diretamente sobre a concretude empedernida do mundo sem, contudo, intimidar-se com ela. E que geralmente abre espaços para alguma beleza, algum amor, alguma sabedoria. Sou Oprah e não abro. Choro em algumas entrevistas, mas também acho tudo muito brega (inclusive eu mesma). Neste momento, estou lendo Tutty e assistindo, na TV, uma cena do programa de Oprah em que duzentos homenzarrões com olhos marejados seguram seus próprios retratos de meninos, num ritual de superação de algum abuso ao qual foram submetidos na infância. Duzentos homens aos pés de Oprah, aos prantos, feito garotinhos que apanharam na rua e correram para chorar no colo da mamãe. Excessivo? De mau gosto? Duvidoso? Assista cinco minutos de BBB (sem vomitar) e você haverá de achar a Oprah BCBG (como dizem os franceses): bon chic, bon genre. Oprah luta obsessivamente contra o excesso de peso, alisa furiosamente o cabelo, nunca foi nem de longe bonita, não está se esforçando para parecer mais jovem… E que mulher fabulosa ela é. Continuo lendo o Tutty, que agora fala da noiva americana do Paul Mc Cartney, segundo ele, outra mulher fabulosa, mais como resultado de um jeito de estar no mundo do que do atendimento a parâmetros estéticos descartáveis. Esse jeito, afirma Tutty, só melhora com o tempo, suas pilhagens e seus investimentos. Ser fabulosa, então, depende do sucesso de um pacto que a mulher  faz com o velho Cronos, no qual, além de roubar, ele acrescenta. Falo de Cronos, o titã deus do Tempo na mitologia grega, não do Cronos da Natura que, por sinal, é muito bom, mas não renova as células da alma. Pacto fechado, Cronos começa a fazer a parte criativa de sua tarefa (além de continuar a destruir, o que também pode ser muito criativo). Acrescenta novas rugas e outros temas. Cabelos brancos e ideias furta-cor. Alguns quilinhos e muita curiosidade. Uma certa insonia e sua parceira criativa: a inspiração. Tira cintura e põe no lugar uma paleta de cores mais vibrante e ousada. Entre as fabulosas de Tutty, estão, além de Nancy Shevell, a noiva de Paul, Patricia Pillar e Carla Bruni. Na minha estão, além de Clarissa e Oprah, Marina Silva, Bibi Ferreira, Isabel Allende… Isso para citar as famosas porque, se eu for fazer aqui uma lista completa, vou ter de arrolar minhas companheiras de matilha, uma mais fabulosa que a outra. O Tutty termina a coluna dizendo que “só depois dos 45 anos se pode dizer com segurança que uma mulher integra esse seleto grupo (das fabulosas). Impossível identificá-las quando jovens”. Para contrapor às fabulosas, meu marido, sempre provocador, me entrega outro recorte de revista, agora com a foto de uma mulher que deve ter sido muito bonita, mas que hoje, graças ao excesso de botox e preenchimentos, ostenta aquela aparência inquietante e um pouco sinistra das antigas bonecas de louça: dura, lisa, envernizada. Apesar da fama e da grana decorrente, faltou esperteza da parte dela para ficar amiga de Cronos. E ele se vingou, segundo Tutty, fazendo o prazo de validade da beleza dela coincidir com a juventude.

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Apolo, Dafne e eu

Meu loureiro tem quinze anos de idade, trinta centímetros de diâmetro e mais ou menos seis metros de altura. Como a ninfa Dafne, cujo nome, em grego, quer dizer “loureiro”, ele lança seus dois lindos braços na direção do céu, um pouco suplicante, um pouco desafiador. Lutei anos contra as pragas que engruvinhavam suas folhas perfumadas. Até que um dia, meu jardineiro seu Aparecido me disse que não lutasse, que deixasse que o loureiro pegasse as pragas no meu lugar. Eu entendi, então, que ele era uma espécie de Cristo de quintal, vegetal e pagão. Depois das podas da última primavera, meu loureiro renovou-se e se encheu de brotos. Há uma semana, porém, suas folhas estropiadas secaram repentinamente e seu lindo tronco começou a rachar. Consultei o jardineiro (que não é mais o seu Aparecido), um agrônomo e a Ruth Toledo, minha mestra dos florais. O jardineiro embatucou. O agrônomo ecoou a Clarissa Pinkola Estés ao dizer que todos os seres vivos, mais dia, menos dia, têm de se haver com a degenerescência. A Ruth me entregou as metáforas que estavam faltando, como sempre faz. E eu juntei tudo neste post, que deve soar como uma louvação e um epitáfio ao meu querido loureiro agonizante: a árvore de Apolo, senhor das formas, das artes e da poesia, da medicina e da música, o grande clarividente, mas também o deus da peste e o doador da morte súbita. Apesar de ambíguo, como toda divindade que se preza, no território de Apolo reinam (ou ele espera que reinem) a razão luminosa e as proporções perfeitas. O que significa, em contrapartida, que não são bem vindas nem as sombras nem as dúvidas. Ao contrário de Zeus, seu pai, Apolo sempre foi meio azarado com as mulheres. Não à toa. O feminino teme esse excesso de secura, lucidez e claridade que devassa os cantos, expõe e ameaça o que deve permanecer oculto na umidade. Em nossas caprichosas bolsinhas anatômicas – vagina, peitinhos, útero -, as formas, tanto  as belas quanto as terríveis, esperam, protegidas na penumbra, pela hora certa de vir à luz. Por isso, as mulheres sempre preferiram o irmão barraqueiro de Apolo, Dioniso, o deus das transformações, com quem elas mantêm uma afinidade natural. Dioniso adora roubar a cena de Apolo, até porque é o deus do teatro. Hoje, porém, vou resistir ao seu charme debochado para continuar falando de seu irmão, o altivo e belo senhor do meu loureiro. O mito conta que Apolo apaixonou-se por Dafne, uma linda ninfa, filha de um rio-deus. Isso porque ele andara gozando da cara de Eros, coisa muito temerária de se fazer, já que o Amor carrega em sua aljava dois tipos diferentes de flechas: uma, que semeia a paixão e outra, que desencadeia a indiferença. Para se vingar dos gracejos de Apolo, Eros  condenou-o a amar Dafne e a ser, em contrapartida, repudiado por ela.  Doente de amor, o deus perseguiu inutilmente a ninfa, tão somente para ser humilhado e evitado repetidamente. Quando, enfim, conseguiu agarrá-la à força, ela suplicou ao pai que a livrasse e ele a atendeu, aliás, bem ao gosto de Dioniso: metamorfoseou a filha em árvore. Essa cena é linda e foi pintada e esculpida por não sei quantos artistas, ao longo da história da arte: entre seus braços, um Apolo atônito vê a pele branca e macia transformar-se em tronco escuro e rugoso, o corpo flexível enrijecer e imobilizar-se. Os braços erguidos tornam-se os dois grandes ramos principais, que eu tanto admiro em minha árvore.  Inconsolável, Apolo colheu alguns galhos, talvez mechas de cabelo da bem amada que o detestava, e com eles fez sua coroa, a mesma que premia os campeões, nem tão vencedores assim, como se pode perceber. Do seu jeito enviesado e belo, o mito sempre me esclarece. Estou eu mesma às voltas com as formas esgotadas de Apolo, condenadas à decadência, e com as transformações de Dionisos, inevitáveis e renovadoras. Acabo de substituir minhas calças tamanho 38 por novas, tamanho 42. Eu, que entrei nesse abraço como ninfa, saio dele lentamente transformada em árvore. Na minha fantasia, mais uma vez meu loureiro adiantou-se ao meu passo. A Ruth me disse assim: “Despeça-se dele e aproveite para transformar a ecologia do canteiro. Agora vai ter mais sol e espaço para arbustos e flores”. Não é lindo?