Minha tia

Tudo viagem de volta

Um dos filmes da minha vida é “Meu tio” (Mon oncle), com o deliciosamente atrapalhado sr. Hulot, avatar do ator, roteirista e diretor francês Jacques Tatit. Se você ainda não conhece o sr. Hulot, tome já já uma providência. Comece por ver “O mágico” (L’ilusioniste), uma animação que recentemente trouxe o personagem de Tatit de volta à vida (tem uma resenha dele neste blog). Confuso, solteirão, calado mas simpático, pobretão e, acima de tudo, polidíssimo, o sr. Hulot é, na minha opinião, uma espécie de antídoto para uma época como a nossa, de gente que acha bonito ser vulgar, que tira valor da própria grosseria, que abusa dos mais fracos, fala aos gritos no celular dentro do ônibus ou do restaurante e que é incapaz de dizer “bom dia”, “com licença” e “obrigado” aos seus semelhantes. O sobrinho de “Meu tio” é um pobre menininho de classe média que vive numa casa maluca de tão perfeita, cheia de “gadgets” eletrônicos (isso ainda nos anos 1960!!!), com uma mãe maníaca por higiene que lhe inferniza a infância e um pai que, se existisse smart-phone e laptop, iria viver dependurado neles, feito um náufrago numa bóia salva-vidas. Graças a Deus, o menininho tem um tio que é um verdadeiro espetáculo de graça, paciência, afeto e inadequação. Com esse tio, ele vive muitas aventuras engraçadíssimas, longe dos olhos neuróticos da mãe controladora e do isolamento emocional do pai tecnoburocrata. Ontem, olhando dois velhos vasos carregados de orquídeas do tipo tamanquinho holandês que tenho no jardim, me lembrei muito da tia de quem os herdei. Ela se chamava Maria Adelaide, mas seu nome poderia perfeitamente ser sra.Hulot. Nós a chamávamos “Tiadelaide”, assim mesmo, tudo grudado. Tiadelaide morava numa velha casa de quatro andares ao lado do Jardim da Aclimação. Uma casa meio estapafúrdia, que era uma continuidade dela, do corpo dela, da pessoa dela, e que perdeu completamente a graça quando ela morreu. Se transformou numa casa velha, estapafúrdia, triste e desalmada. Autêntica, bocuda e independente, com a derrocada financeira final de meu avô, Tiadelaide veio sozinha para São Paulo, em meados da década de 1940. Veio com a cara e a coragem, para comer o pão que o diabo amassou. Arranjou um emprego de telefonista, virou sacoleira nas poucas horas vagas, batalhou, enfrentou as más línguas da família (que costumam ser as piores), comprou com enorme sacrifício a tal casa esquisita, abriu caminho para as irmãs e venceu, do jeito dela, que era uma heroína noturna nada convencional. Não se casou, apesar de ter tido muitos namorados. Dizia que, se o seu marido fizesse com ela o que seu pai fizera com sua mãe e os cunhados faziam com as irmãs, ela iria matá-lo, sem culpa nem remorso. Como gostava demais da liberdade e não queria virar uma assassina na cadeia, Tiadelaide preferiu sabiamente evitar a ocasião. Para mim, ela era a tia que fazia bruxinhas de meia preta, com olhos de retrós, que me levava ao Jardim da Aclimação para recolher cocô de cavalo para adubar as plantas (ela falava “prantas”), que fazia os melhores bolinhos fritos de polvilho azedo do universo, para serem comidos acompanhados com café diluído em água quente (ela falava “chafé”), e que amava as flores, os bichos e as crianças (e, em contrapartida, era amada por eles, na mesma medida). Sua exclamação favorita era: “Minhas almas!” que ela dizia tudo junto, assim: “Minhasalma!”. Como o sr. Hulot, ela era também era um tanto esquisitona. Fora os bolinhos de polvilho que só fazia para nós, as crianças, Tiadelaide odiava cozinhar. Por obrigação, ela se dispunha a lavar a louça dos almoços de domingo na nossa casa, mas fazia isso tão depressa e com tanta má vontade que alguém tinha de refazer depois dela. Até hoje, a gente ainda fala: “Olhe uma coisa este prato: parece que foi lavado pela Tiadelaide”. Suas amigas eram um bando de mulheres igualmente esquisitonas, todas meio bruxas, como ela. Evangélica numa época em que os evangélicos não eram fundamentalistas e ainda tinham alguma compostura, ela guardava santinhos dentro da bíblia e simpatizava muito com os espíritas. Libertária, ela sempre tomava o partido dos mais fracos, especialmente das crianças. Aliás, quando cuidava de crianças, Tiadelaide virava criança. Suas histórias eram impagáveis: um dia, ela saiu de casa para trabalhar com um sapato de salto num pé e um, sem salto, no outro. Cruzando o Viaduto do Chá, ela achou que tinha tido um derrame no ônibus e ficado manca. Noutro dia, enquanto se vestia para ir trabalhar, ela experimentou um sutiã novo (ela usava uns sutiãs de bojo bem bicudo, do tipo daqueles corseletes que o Jean Paul Gauthier desenhava para a Madona usar em shows). Não ficou bom, então ela desceu o sutiã para a barriga sem tirar e vestiu outro, que ficou bom. Ela botou o vestido por cima de tudo e saiu de casa com quatro peitos. Só quando chegou à companhia telefônica, foi que as amigas a avisaram e ela entendeu porque todo mundo a olhava, espantado, na rua. Como tinha as pálpebras caídas e não queria operá-las, ela usava uns óculos engraçados, equipados com um suporte estranhíssimo, feito para levantar as tais pálpebras. O efeito era surreal. Para armar o cabelinho, sempre tingido e bem desfiado para ganhar volume, ela enrolava uns pedacinhos de papel até fazê-los virar palitinhos e, com eles, afofava bem o penteado. Acontece que, de vez em quando, ela esquecia os tais palitinhos enroscados no cabelo. E a gente, que era criança e adorava o efeito daquela, digamos, decoração, não falava nada para ela, só para poder dar risada à vontade. Ela nem ligava quando descobria. Na sua bolsa, nunca faltava uma bala paulistinha. Era líquido e certo. Às vezes, era melado e certo. Nem preciso dizer que Tiadelaide não era uma unanimidade na família. Polêmica, nunca uma santa, tinha gente que não gostava dela, nem quando era criança. No jeito dela, porém, não ser gostada estava previsto e era totalmente aceitável. Além dos vasos de tamanquinhos (que continuam florindo loucamente, mais de vinte anos depois da morte dela), herdei de Tiadelaide um anel solitário de brilhante champanhe que ela amava e que usou no dedo todos os dias da sua vida. Um ladrão (maldito seja e que o seu dedo apodreça!) me levou aqui de casa. Também herdei três móveis que adoro e que ela comprou usados, quando se mudou para São Paulo: uma cristaleira, um bufê e uma cadeira de braços que parece uma pessoa, de tão especial. Ela morreu quando eu estava grávida da minha primeira filha, em 1985. A causa de sua morte foi uma dose equivocada de quimioterapia. Já no hospital, Tiadelaide me contou que achava que aquele câncer de útero era o filho que ela não tinha tido coragem de ter sozinha, mas que tinha passado a vida toda desejando. Enquanto desejava, ela ajudou a criar sobrinhos e sobrinhos-bisnetos, filhos de amigas e vizinhas, as crianças que a amavam e que ela amava porque eram autênticas como ela, sem frescuras nem afetação, diziam o que sentiam e não fingiam ser quem não eram.  Seu desejo foi, então, muito criativo e poderoso, movido por um vazio que encheu o mundo de amor e brincadeiras e bolinhos de polvilho. Eu, infelizmente, não herdei de Tiadelaide nem a coragem, nem a autenticidade. Estudo, reflito, me analiso, me esforço, leio, escrevo, pinto, me desafio todos os dias da minha vida para ser como ela era naturalmente, sem aditivos nem fórmulas. Como Jung e Campbell, mas de um jeito muito mais simples e feminino, Tiadelaide soube ser ela mesma, especialmente ao envelhecer. Ela se tornou uma grande velha, muito parecida com as tias de quem fala Clarissa Pinkola Estés: ao mesmo tempo digna e engraçada, amorosa e bravia, original e tradicional. Não é nada, nada fácil.

Como matar sua alma: pequenas lições práticas

Alma de Egon

“Uma vida não examinada não merece ser vivida.”  Sócrates

“Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou.” Jung

Ficou fácil. E está ficando cada dia mais fácil. Basta tomar um remedinho para fazê-la parar de doer. Ou deixá-la doer em silêncio, amordaçada. Uma bolinha, uma carreira, algumas doses, uma picada… É o alívio. O limbo redentor da estupefação. Faça qualquer coisa para não ter de haver com ela. E vamos logo combinar: ter ou não ter alma é, ao fim e ao fundo, uma questão bioquímica, farmacológica. Pois se a medicina científica nem mesmo acredita na existência dela, por que temos nós de aturar uma coisa que nos incomoda tanto? Faça como os médicos: não acredite na (sua) alma. Para garantir a segurança do vazio, neutralize-a. Afinal ela pesa. Ela mergulha. Ela deprime. Ela recorda. Ela sente. Ela imagina demais, essa delirante. Ela insiste em afirmar que existe sim, contra todas as argumentações lógicas. Pior: ela inflitra as blindagens de aço e concreto do seu ego e as corrói de dentro. Ela se vinga do modo como você a destrata, a ignora, a esnoba. Ela é uma sabotadora que precisa ser presa e exilada. Investir num vaso que a contenha e lhe dê forma dá trabalho, dá despesa, às vezes mais trabalho que despesa. E dói pra burro. Você não é burro. Você é sapiens. Racionalize. A razão instrumental salva mais do que Jesus, embora Jesus também seja frequentemente usado para fazer calar a alma dos fiéis, essa questionadora revoltosa, essa perigosa sonhadora. Acredite no poder da razão soberana. Não é preciso coragem para matar sua alma. O mercado vem oferecendo estratégias cada vez mais indolores e eficazes de fazê-lo. Quanto mais miseráveis forem as almas dos consumidores, mais o mercado haverá de bombar. Vá ao shopping e compre tudo o que conseguir carregar. Detone o seu cartão de crédito. Sua alma vai entorpecer legal, pelo menos até chegar a fatura. Às vezes o efeito só dura até você chegar em casa e concluir que não precisava de nada do que comprou. Que a sua alma insaciável não queria aquele relógio, muito menos aquela bolsa.  Que o buraco se aprofundou e ainda por cima afetou sua conta bancária. Enfim foram duas ou três horas de alívio. Não valeu a pena? Você não quer saber, mas ela insiste em querer que você saiba. E viaja para o outro lado, aonde você não quer entrar. E traz de lá assuntos com os quais você não quer lidar, de que não você não quer nem saber. Embora o outro lado seja a sua própria face obscura e esses assuntos sejam, eles também, os seus assuntos. Um jeito, digamos, mais produtivo, de matar sua alma é malhar compulsivamente. Seu cérebro vai secretar uma quantidade espantosa de endorfinas e você vai se sentir o último biscoito do pacote. O prazo de validade dessa sensação é curto. Então você malha mais. O efeito colateral é que seu corpo vai ficar magro e musculoso, como mandam a opinião pública e as mídias especializadas. OK, seu corpo também adoecerá, mais dia menos dia, até porque a saúde dele depende de sua relação com a alma, sua companheira inseparável, com quem ele forma uma totalidade dual, dinâmica, indivisível. Mas a gente divide, porque dividir é a nossa praia, a especialidade da razão instrumental. Nada de misturar as coisas. Quem mistura as coisas é a alma, essa sem-noção. Um pouco de esquizofrenia pragmática e pronto. Tudo resolvido. Observe, por exemplo, como as doenças psicossomáticas não convencem. A medicina científica continua a suspeitar delas. OK, não dá para ignorar as disfunções de autoimagem, os distúrbios alimentares, as aneroxias e vigorexias e bumilias, as doenças de um corpo que é obrigado a sobreviver quase sem alma, da mão para a boca. São todas doenças-metáfora: do corpo que, movido pela razão insaciável, luta para avassalar a alma, do corpo que espelha a miséria na qual a alma vive. Mas a ciência não crê em metáforas. A religião literaliza e esgota as metáforas. A metáfora é uma coisa que só serve aos vestibulandos e poetas. Não perca tempo e sono com a alma. Durma bem e, por favor, não sonhe. Qualquer farmácia vende esse pacote por alguns trocados. Enfim escolha logo a ocasião, o comparsa, o método, o veneno, a arma. Tem para todos os gostos e estilos. Já matamos a alma do mundo mesmo, por que, afinal, teimar em preservar a nossa?

P.S. – Em tempo, a revista Piauí 59, de agosto de 2011, traz um artigo reproduzido do New York Review of Books que se chama “A epidemia de  doença mental”, escrito por Marcia Angell.  Se você ainda tem alma, não deixe de ler. Você vai tremer de medo.