Nêmesis

Os deuses gregos continuam muito vivos e ativos, dizia ontem, numa entrevista mostrada no programa Saia Justa, um tal de Jonathan Gothshall, autor do livro “Storytelling animal” (“O animal contador de histórias”, sem tradução em português). Eu concordo com ele, e acrescento: os deuses sumérios, iorubás, aztecas, maoris, cananitas, nativo-americanos, bororos, nórdicos e os que mais você conseguir se lembrar.  Os deuses estão vivos, ativos e, pior, no mais das vezes, encarcerados no Tártaro do inconsciente, loucos para se vingar de séculos de negação, chacoalhando cada vez mais violentamente as estruturas do nosso frágil e presunçoso ego monoteísta ocidental, o coletivo, bem como dilacerando os nossos egos individuais. São forças obscuras que se erguem das profundezas da nossa vida subjetiva cada vez mais relegada ao abandono ou, pior ainda, entregue aos cuidados de uma grande variedade de charlatões oportunistas. Como dizia Jung: os deuses não morreram; apenas viraram doenças. Exemplo tão terrível quando didático, portanto carregado da energia trágica que deu origem ao teatro, foi o assassinato e desmembramento, pela esposa, do herdeiro do reino dos carboidratos, duas semanas atrás. A mídia fez o escarcéu de sempre, expondo a própria cabotinice inconsequente numa enxurrada de clichês para atrair a habitual freguesia “dois-neurônio”. Em primeiro lugar, explorou o lugar-comum mais manjado de todos: o da mulher fatal. A narrativa revelou-se mais profunda que uma embalagem média de margarina quando emergiu, dos depoimentos das criadas do palácio, outra imagem, bem mais reveladora e complexa: a da Gata Borralheira de Programa elevada à condição de princesa, para logo em seguida ver-se humilhada e traída pelo príncipe que a tirara do borralho da vida. Príncipe que nada tinha de gentil, nobre e audaz, muito pelo contrário. O excesso de dinheiro e de mimos encolheu e infantilizou sua alma, tornando-a insensível, egoísta e temerária. Equivocado a respeito dos limites de seu poder e controle no interior do pequeno e conturbado feudo afetivo que ele ajudara a criar, o príncipe logo se cansou do brinquedo novo (como acontece com a maior parte dos príncipes e já havia acontecido antes com ele) e se pos a provocar a fera enjaulada na alma da Borralheira, ela mesma diplomada na duríssima escola da sobrevivência que ele, por sua vez e para seu azar, nunca frequentou. Em sua arrogância típica de menino rico, talvez ele acreditasse que, diante de seus rompantes, ela agiria como um coelho assustado, fugindo de volta para o borralho. Contudo foi outro bicho que ele, inadvertidamente, acordou. A mitologia grega conta qual entidade foi essa que se ergueu das profundezas arcaicas da psique, uma dimensão mais para reptiliana do que para humana, a fim de realizar o acerto de contas final: Nêmesis, filha de Nyx, a Noite, a deusa que pune “a presunção humana em suas demonstrações de demasia e arrogância”. No dicionário de mitologia de Mario da Gama Kury, Nêmesis carrega um epíteto que remete à sua natureza e função: ela é Adrasteia, a Inevitável. Ou seja, mais dia menos dia, drástica como é, Nêmesis acabará chutando a porta dos fundos para rachá-la em dois. Não sei quem disse isso, se foi Jung ou Freud: não temos complexos; são os complexos que nos têm. Às vezes, cremos estar lidando com pessoas, como pensava o moço mimado, personagem de mais esta história sangrenta e demasiado humana. O que ocorre é que estamos verdadeiramente lidando com “trans-pessoas”: divindades que se refugiam no âmago de nossos complexos, aqueles nódulos psíquicos que escondemos de nós mesmos, carregados e dolorosamente inflamados de afetos mal resolvidos. As divindades que vegetam dentro deles ativam-se quando cutucadas, ainda que em situações aparentemente inócuas, irrelevantes, equivocadas para quem as vê atuando e leva um susto com o tamanho da reação, com a desproporção da revanche. Vemos muito claramente os complexos dos outros, seus deuses desembestados destroçando tudo em volta, as relações, as pessoas, os projetos longa e cuidadosamente construídos. São como feras famintas que arrebentaram as grades da jaula e não voltarão a sossegar enquanto não  se sentirem justiçadas a seu modo. Terminada a encenação trágica, elas refluem, saciadas, devolvendo ao cotidiano os egos que possuíram por minutos, horas, meses, anos a fio, e que agora estão lá, esfarrapados, esgotados e ridículos, tão aturdidos quanto nós, que testemunhamos o episódio de fora, sem entender o que estava acontecendo. Vemos nos outros sim, vemos e apontamos, com clareza e sem piedade, os “complexados” como essa Gata Borralheira de Programa duplamente possuída por Nêmesis e Dioniso, essa bacante pós-moderna que misteriosamente largou a filhinha dormindo no berço, fuzilou (c0m uma arma da coleção dele) e desmembrou ritualmente o rei Penteu dos carbohidratos, que há muito estava possuído de presunção desmedida (para mais informações, vá ler a tragédia “As Bacantes”, de Eurípides). Porém, como os deuses estão mortos e somos todos pessoas lógicas, racionais, objetivas e civilizadas, seguimos nossas vidas produtivas e bem condicionadas vendo o cisco no olho do outro, mas completamente cegos para a trave que bloqueia nossa própria visão da realidade, como bem disse Jesus. Ou seja, continuamos caminhando inconscientes das divindades que espreitam na sombra de nossos toscos eguinhos presunçosos, à espera da oportunidade para acertar as contas com ele. Pode ser uma continha merreca, de armazém de secos e molhados. Pode ser uma conta cara demais e cujo acerto resulte em consequências irreversíveis para todos os envolvidos. Uma das utilidades públicas de se ler mitologia com um olhar existencial, ou psicológico como propõe James Hillman, e não meramente informativo ou erudito, é tomar consciência dessas divindades como metáforas que são de nosso politeísmo psíquico, ou seja, da diversidade das figuras numinosas que nos habitam. Elas se tornam então as “ficções que nos curam”, de acordo com o mesmo Hillman, não mais os deuses que nos adoecem. Passamos assim a olhar para elas e a integrá-las, pela imaginação, em nossa vida consciente, considerando-as como aspectos de nossa personalidade que não devem ser subestimados e não podem ser erradicados, mesmo porque não há como fazê-lo sem convocar sua revanche. Desse modo, ao invés de uma Nêmesis e de um Dioniso furiosos, vingativos e destrutivos, podemos ativar energias criativas tais como a da busca legítima pela justiça que Nêmesis representa e a da transformação tão inevitável quanto necessária que Dioniso encarna. Fica bem melhor assim, além de muito mais divertido.

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