Poderosa Afrodite

Para a Paola, que me mandou contar uma história ao meu corpo.

Ela, a perua. A fútil, irresponsável, metida, temerária. A tudo-o-que-eu-não-sou-deus-me-livre. Sonsa, superficial, fácil. Gostosa e burra? Vagabunda? Puta? Ela nem se abala com minha lista de atributos, só passa por mim rebolando a bunda perfeita de Vênus Calipígia e, já bem lá adiante, me dá uma olhadinha de esguelha do tipo “perdeu, fofa”. Com aqueles olhos dourados, enormes, de longos cílios naturalmente recurvados e sobrancelhas de arcos perfeitos. Beijinho no ombro pra você, amiga. Que no caso sou eu.

Foi revanche dEla. E nem posso reclamar, porque sei muito bem das barbaridades que ela aprontou com o Hipólito e aquele diretor de teatro do filme do Polanski (e o próprio Polanski, sem falar do Woody Allen, de quem surrupiei o título do post). Comigo ela foi beeeeeem mais sutil, embora não menos cruel, considerando a vastidão dos hematomas e a minha cara atual de panda-zumbi-mutante. Talvez tenha funcionado a meu favor o fato de que eu não a esnobo de jeito nenhum, não sou nem louca. Sou, afinal, uma Virgem sensata. Falo bem dEla para todo mundo, teço loas a Ela sempre que posso, a senhora da beleza “múltipla e vívida”, mas também “efêmera e pessoal”. Vou lá na Ginette Paris pegar coisas lindas para falar sobre Ela, a que “torna a vida cotidiana mais bela e civilizada”, porque a Beleza é o verdadeiro fundamento da civilização e blá blá blá. Cuido do meu jardim, rego, adubo, abraço minhas árvores, celebro com júbilo as bocetinhas que minhas flores escancaram, faço prestimosos buquês e os espalho pela casa. Tenho, aliás, dois vasos lindos de Spatiphylum, os chinelinhos dEla, que florescem pontualmente em junho. Contudo Afrodite não é tonta. Sabe perfeitamente que, além das plantas, também cultivo por Ela uma pontinha aguda de desprezo, inveja e suspeita. Que a critico em segredo, enquanto a louvo em público.

Onde os deuses vêm repousar
Arranjinho de flores caseiro: uma oferenda à beleza que não dura

“Sou de Virgem e, só de imaginar, me dá vertigem”, cantava João Bosco em plena Idade do Bronze. Afrodite se compraz em dar vertigens em virginianas práticas, realistas, estáveis, controladoras e previsíveis como eu. E na hora da vertigem de Afrodite, nossa sensatez inata se esboroa qual bolha de sabão contra asfalto quente. Sou uma virginiana platônica e estóica, para piorar criada na religião protestante. Virginianas são virginais por definição, mais afeitas a divindades luminares como Jesus e os gêmeos Ártemis e Apolo. Nascemos especializadas em separar, organizar, abstrair, distanciar-se, explicar, enxugando assim os excessos voluptuosos dEla, tentando conter a tendência dEla para disseminar, assimilar, desfrutar sem culpa, fundir e confundir, valorizar o inútil… Foi assim por algum tempo em minha vida. Agora porém não mais. Afrodite Dourada me avassalou. Fui intoxicada por seu mel. Estou aqui, de molho, roxa, inchada, costurada e subjugada por um mandato dEla. Recorrendo à querida Ginette Paris, que sempre me socorre nesse assunto: “Insistindo sobre a beleza de Afrodite, como inevitavelmente acontece, arriscamo-nos a esquecer que seus mistérios dizem respeito ao corpo todo, e não apenas à vista. A mulher que tem as qualidades de Afrodite sabe movimentar-se, respirar e vibrar e é capaz tanto de gerar quanto de receber energia sexual de alta intensidade”.

Você acha mesmo que lacrou? Então saiba que tem mais. Ginette me conta que a beleza de Afrodite constitui um “estado de graça”, composto “mais de uma audácia e encanto do que da conformidade com uma norma externa”. Terei cometido tamanha insensatez apenas para descobrir que o tal “estado de graça de Afrodite” já estava aqui faz tempo? Tão típico dEla isso, a mentirosa que engrupiu Pandora e Eva e eu, não necessariamente em condições de horizontalidade. Ou será que tudo isso está sendo uma espécie de rito sangrento, o anúncio de uma “florada tardia”, a desabrochar tão logo o panda desbote? Quem sabe seja isso e mais… ou menos. Com Ela, a gente nunca sabe.

Playlists

Para terminar e começar o ano, Gilberto Gil. Alternando yin-yang, no ritmo mesmo da vida, esse pop wu-wei. Palco. Drão. Realce. Rebento. Indigo blue. Se eu quiser falar com Deus. Refazenda. Extra. Toda menina baiana. Tempo Rei. Estrela. Raça humana. Debaixo do barro do chão. Copo d’água… Por aí vai, mas por aqui fico.

Quanto tudo der certo, James Taylor. Quanto tudo der errado, Leonard Cohen. Pode ser o contrário também, até porque nem tudo dá só errado ou só certo. Melhor alterná-los também, por motivo de realismo. Today today today. Dance me to the end of love (que pode ser com a Madeleine Peyroux). Wild mountain thyme. Everybody knows (em versão tangueira, com Kevin Johansen). Blossom. Night comes on. Carolina in my mind. Suzanne (esta com a Nina Simone). Angels on Fenway. Waiting for the miracle. Sweet baby James. Choices. Fica a amostra, pra quem quiser brincar na gangorra.

Playlists antigas, do tempo da fita cassete. Escolher os LPs, escrever a lista como uma carta, empilhar discos, gravar canção a canção, ordenando com cuidado a narrativa. Paciência de artesã, devoção de sacerdotisa, amizade juramentada pelo tempo do sagrado desperdício. Os deuses compõem, a gente recompõe e vai vivendo, ao som do que eles cantam para nós. Uma em particular, de emergência, também todinha do Gil. Gravada a meu pedido por um casal que eu mal conhecia, a quem acho que nunca agradeci o suficiente. Primeiros socorros num caso de hemorragia grave.

Minha playlist para o reveillon de 2011, gravação prestimosa, copiada em duas dúzias de CDs caseiros, meus presentes de natal forjados no mais absoluto desperdício de tempo. Brand new day, com Sting e Stevie Wonder. Hold on you, com Jeff Bridges. Dura na queda, com Elza Soares. Ainda sem a moleza do Spotify, eu já podia contar com a mão na roda do ITunes. Fiz tudo no capricho. Escolhi cada conta e fui enfiando uma a uma no cordão, cada qual com seu formato, cor, padrão, textura… Enquanto enfiava, eu pensava em quem usaria o colar. Acho que só eu gostei, porque afinal era comigo que as canções falavam. Fechado o CD, continuo metendo contas no mesmo fio, a playlist ainda aberta no ITunes: Money can’t buy it (Annie Lennox), Anthem (Leonard Cohen), Into your arms (Nick Cave). Playlists são um pouco como a vida. Só que sempre dá pra escolher.

Faz uns meses, comecei a montar a playlist do meu velório. Está ficando linda. Já mudei muita coisa, tirei, pus de volta e suspeito que ela vai ficar longa demais para minha curta vida. Daria para tocar a noite inteira, entre shots de cachaça e canja quente, caso as noites viradas com o defunto ainda estivessem na moda. Eu, contudo, não vou ligar de passar sozinha essa noite em especial. Afinal estarei na melhor das companhias.