Páscoa

Mulher-Esqueleto

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Quem me conhece bem, sabe que, de todo o calendário canônico, a Páscoa é minha data favorita. Amo a Páscoa tanto quanto detesto o Natal, e por muitas e diferentes razões. Creio, porém, que o que mais me agrada na Páscoa é seu sincretismo, a recusa dessa festa a ser reduzida a uma única tradição e a um sentido de mão única. Nenhuma festa cristã é mais acolhedora das tradições pagãs, nenhuma é tão tolerante a imagens originárias de outras mitologias, nenhuma (fora as queridas festas juninas, recentemente demonizadas pelo protestantismo evangélico) é tão aberta e permeável ao folclore popular. Infelizmente, porém, aqui no Brasil, pelo menos, há muito tempo as crianças já não escutam de seus avós e pais as histórias que iluminam a Páscoa e a retiram da agenda do mercado para devolvê-la à da imaginação, que fertiliza a tradição, renovando seus significados e encantando com eles a vida cotidiana. Eu poderia ter…

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Quando Mercúrio regride, ele me convida a andar para trás. A re-imaginar o passado, organizar documentos, rever decisões, limpar armários e estantes, desentupir ralos, revisar textos, reler livros queridos e velhos cadernos de sonhos, retomar projetos arquivados, rever filmes, superar convicções, abandonar ilusões, desmanchar diques, deixar o rio seguir seu curso. Nessas viagens de ré, acontece de eu reencontrar pessoas ou delas me reencontrarem. Posso também retornar a lugares em que vivi e que abandonei, concretos e abstratos, prédios, fantasias, visões de mundo… Morei em muitos lugares nestes 60 anos. Tenho aparência sedentária, mas minha alma é dada ao nomadismo. Habitei diversas casas que, de repente, viraram o “quarto do pânico”, blindado e claustrofóbico. Perdi a conta das peles ressecadas que soltei, não sem alguma dor, ao longo do caminho. A alternativa é estagnar, contudo Mercúrio não deixa. Ele me impele a revolver ruínas solenes, por vezes só mesmo a destinar algum entulho vulgar para o aterro sanitário. Hermes Psicopompo me guia nessas expedições a velhos sítios abandonados e o que já parecia esgotado de tão remexido ainda rende alguns achados de valor. Às vezes, retorno por escolha consciente. Outras, sou despachada de volta sem aviso, intempestivamente, por meio de um sonho, um encontro imprevisto, uma sincronicidade. E lá vou eu andar para trás, qual caranguejo, recobrar um fragmento perdido de quebra-cabeça, um lindo caco de vaso, uma ponta de flecha sem uso… “Tudo para mim é viagem de volta”, escreveu Guimarães Rosa. À medida que envelheço, tendo a concordar cada vez mais com ele. Cada passo para a frente que dou, sou manobrada pela vida de modo a dar dois ou mais passos para trás e assim me fincar nas profundezas da vida, aonde a morte aguarda. Refletir, revisar, retroceder, reavaliar, recuperar, reparar, re, re, re. Para morrer de coração leve, como aconselham os egípcios, tão leve quanto a pluma de Maat. A trajetória progressiva e ascendente rumo ao céu de qualquer monoteísmo, ao paraíso do proletariado, ao nirvana, ao futuro radiante ou sei lá que outra fantasia evolucionista, sempre me pareceu uma enganação do espírito para aniquilar a alma e seu peso, sua tendência a deprimir e aprofundar, justamente aquilo que nos dá sustança, que nos ancora no mundo, que nos torna livres e nos iguala pelo substrato daquilo que somos. Na iminência da Páscoa, Mercúrio começa a regredir. E vai até dia 15 de abril. Aproveite o movimento.