A coragem de ouvir

Os-três-macacos-sabios

O último episódio da eletrizante primeira temporada de “The Newsroom”, série da HBO com roteiro do democrata corajoso (quase uma contradição em termos) Aaron Sorkin, foi de arrepiar. Nele, o protagonista e âncora do telejornal Newsnight, um republicano chamado Will Mc Avoy (Jeff Daniels), conduz uma edição especialmente polêmica, sobre uma senhora negra do Tenessee que não pôde votar para presidente pela primeira vez em 70 anos porque nunca dirigiu um carro e, portanto, não tinha um documento com fotografia para comprovar sua identidade de eleitora. Mc Avoy encerrou o programa com a enumeração detalhada dos valores de certa ideologia político-religiosa, uma dentre as inúmeras seitas políticas que parasitam e assolam nosso pobre planeta. Ao final, o âncora esclareceu que, ao contrário do que imaginava o espectador, era ao Tea Party, e não ao Talibã, que ele estava se referindo. Ainda que você não tenha assistido à série, tente ver na Internet ao menos a edição de final de temporada do Newsnight. Nela, os irredutíveis Senhores da Verdade, cada qual paralisado em seu Eixo do Bem particular, acabam por se fundir e confundir, unidos pela sanha compartilhada de destruir a diferença. O começo dessa bad trip para todos os envolvidos parece ser sempre o discurso de tom paranóico, o sermão que fatalmente desembocará na erradicação do direito à livre expressão, fundamento de qualquer regime que se considere remotamente uma democracia. Matar o mensageiro é preciso, acima de tudo porque ouvir é perigoso. Entretanto autoritarismo é sempre autoritarismo, bem como ao totalitarismo não importa a lateralidade. Os discursos conseguem facilmente encaixar sujeitos redondos em espaços quadrados, usando para isso a clássica técnica da cama de Procusto. Corte a cabeça que ele cabe. Se ainda assim não couber, corte também os pés. Os discursos ideológicos políticos e religiosos são, ao fim e ao fundo, uma e a mesma coisa: a cama de Procusto na qual nos deitamos voluntariamente, antes da lobotomia, a expressão da tentativa de reduzir o mundo a uma polaridade, a “nossa”, e assim implantar uma utopia de mutilados. Todo conchavo, toda mistificação, todo sofisma, toda voluta verbal serve para defender a doutrina (palavra facilmente aplicável aos dois campos) contra o bom senso, a moderação, a negociação marcada pela disposição de ouvir além da de gritar histericamente palavras de ordem, versículos de livros sagrados e outros clichês menos votados. O Senador Eduardo Suplicy matou a cobra e mostrou o pau quando disse aos sectários que agrediam, com seus slogans embolorados, a blogueira cubana Yoani Sanchez em sua chegada ao Brasil: “Tenham a coragem de ouvir!”. Isso é um luxo ao qual os fanáticos não podem se dar, caro senador. Fanáticos não podem ouvir porque isso implica reconhecer a existência de um outro, diferente deles. De um outro discurso. De uma outra versão dos mesmos fatos. De outros fatos que ampliam a perspectiva unilateral e revelam sua complexidade. A coragem de ouvir implica uma certa permeabilidade à opinião e à posição do outro, ou seja, algum grau de inteligência emocional, impraticável quando a emoção só pode se expressar como adesão obediente ou agressão feroz, ambas vividas no âmbito do coletivo que neutraliza a pessoa. Prova disso é que, quando se trata de enxergar a sombra das doutrinas que defendem sem qualquer posicionamento crítico, os mais brilhantes entre os intelectuais costumam adotar argumentações constrangedoramente infantis, com as quais procuram justificar as desrazões de sua fé política, tal como ainda fazem os eternos cruzados da fé religiosa. A camisinha é pecaminosa porque incita ao sexo antes do casamento, embora não usá-la possa custar a saúde do devoto. A hipocrisia nos vacina contra os males do mundo e as malvadezas do capitalismo (mas não contra os males da religião institucional nem contra as malvadezas do comunismo). Os genocídios de Pol Pot no Cambodja e de Stalin na URSS são menos genocidas do que o dos campos de concentração nazistas por pura questão de lateralidade? Nesse mundo de discursos obtusos, obscuros e labirínticos que se arrogam a condição racional, execram-se legitimamente os totalitarismos de direita, enquanto que os de esquerda são não apenas defensáveis, como também imprescindíveis para a consumação de um projeto messiânico de remissão do mundo que precisa eliminar pelo menos metade desse mesmo mundo para ser instaurado. Ou você acredita, caro leitor, que a esquerda fanática defenderia uma Comissão da Verdade para os dissidentes torturados e mortos pelo regime de Fidel Castro? Deus nos livre dos fanáticos, à direita e à esquerda, embora eu saiba que Deus não tem nada a ver com isso e que cabe àqueles que sabem transitar entre as polaridades trabalhar para calibrar os radicalismos, por meio da mediação crítica e pacífica de que fanáticos jamais serão capazes. O caso Yoani me deixou  impressionada não tanto pela visão da horda de sectários tentando forçá-la a se calar. Afinal ela está acostumada com isso e muito mais lá no país dela, novidade mesmo seria encontrar aqui uma esquerda inteligente e aberta ao diálogo. Por sorte, ela encontrou um Cavaleiro da Triste Figura para defendê-la, o nosso eterno Quixote Suplicy. E espero sinceramente que a esquerda européia franqueie a Yoani uma versão mais evoluída e civilizada desse modelo. Cá para nós, porém, confesso que o que mais me impressionou durante a visita da correspondente (aprendi com Alberto Dines que essa coisa de “blogueira” é francamente pejorativa, ai, palavras!) foi a sombra petista que vi se apoderar de alguns de meus amigos, pessoas de quem gosto e às quais respeito, inteligentes e esclarecidas, bondosas e criativas. Essa sombra expressou-se em frases como: “Não me fale dessa Yoani, não posso discutir política porque sou PT desde criancinha” (o problema aqui não é permanecer petista, é continuar criancinha). Ou esta pérola do tribalismo patriarcal idealizado: “Você precisa admitir que, com os talibãs, o desemprego diminuiu no Afganistão”. Ou ainda a seguinte declaração de auto-alienação voluntária: “Não estou nem aí para o que essa Yoani tem a dizer,  o que ela viveu não me interessa, estou interessado numa coisa maior”. É justamente essa “coisa maior”, viscosa, indiferenciada, peluda e feroz, que salta de dentro daquela pessoa tão bacana, que me dá muito, mas muito medo. A rebordosa de tanta possessão pelo arquétipo do Messias político que pode tudo porque, afinal, ele é o Messias, acometeu poderosamente, à saída da elegante Yoani, os deuses petistas, como bem os definiu a deputada Martha Suplicy. Num evento na semana passada, os que ocupam o topo do monte Olimpo uniram-se aos titãs caídos, vulgo mensaleiros, para cometer todo tipo de despautério verbal, reescrevendo a história como lhes bem aprouve. Ao contrário do Papa, que resolveu chutar o pau da barraca em nome da verdade, os olimpianos petistas não conseguem refluir de sua inflação pelo arquétipo, e seguem sendo manipulados pelo inconsciente, feito imensos e assustadores bonecos do carnaval de Olinda. Como se sabe, a prática da autocrítica nos movimentos políticos radicais somente se dá quando o sujeito forçado a ela discorda dos dogmas do partido. Nas doutrinas, como também se sabe, o mais importante é saber projetar a sombra no outro. Já o partido e a igreja, estes estarão sempre acima da autocrítica, mesmo porque não são reflexivos. São opacos. Enfim, e como dizia Jesus, “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

“Casinha pequenina”

mamae e caio bebe

Quando eu era pequena, minha mãe costumava cantar para me fazer dormir. Ela era meio desafinada, mas eu amava seu repertório heterodoxo e ecumênico, feito de marchinhas de carnaval, severos hinos do Cantor Christão, guarânias dolentes, modinhas sertanejas e cantigas tradicionais, algumas delas tristíssimas. Essas últimas eram as minhas favoritas. Uma canção em particular cortava em postas meu coraçãozinho tenro: “Casinha pequenina”. Pensando bem, triste mesmo é quem não teve, na infância, o privilégio de experimentar a tristeza pela metáfora e, com ela, viver o contraste que nos permite experimentar, por oposição, a mais perfeita alegria, quando ela se nos apresenta. Poucas crianças têm, hoje em dia, a mesma sorte, impedidas que são, pelos adultos, de aprender a lidar com os contrastes da vida mediados pelas metáforas, as imagens, a arte, as histórias, a (boa) música, o (bom) cinema etc. São as imagens que melhor nos ensinam a lidar com os opostos de que é feita a vida humana, para produzir resiliência. Déspotas obsedados pela ilusão de que a felicidade dos filhos é uma via de mão única, pais e mães interditam suas crianças de provar a tristeza, a dor, a morte por meio de fantasias protetoras e terapêuticas. A publicidade nos empastelou de um modo aviltante, viciando-nos com imagens falsas e vazias de uma felicidade que se pode comprar nas boas casa do ramo, enquanto nossas almas, reduzidas à mais negra miséria, passam fome. Boris Cirulnik, psiquiatra e etologista francês, foi o primeiro a usar o termo “resiliência” fora do contexto da física dos materiais, aplicado à psicologia, como a capacidade que todo ser humano pode desenvolver, se lhe for permitido, de se recompor e prosseguir, ferido mas íntegro, depois de sofrer um golpe da vida. Ele mesmo foi um menino judeu abandonado pela mãe num orfanato, porque esta não queria que o filho fosse levado para o campo de concentração nazista. A mãe foi e lá ela morreu. O filho sobreviveu, superou e transformou a resiliência no tema de sua vida. Num livro lindo, chamado “O murmúrio dos fantasmas”, Boris conta que pessoas com lesões na região do cérebro responsável por produzir a sensação de infelicidade, acabam se tornando, em decorrência, incapazes de sentir, também, felicidade. Não à toa, tantas crianças e jovens se tornam pessoas apáticas, astênicas, desinteressadas de tudo e de todos. Carentes de contrastes, polarizadas no prazer ou na dor, elas acabam precisando aditivar com drogas e álcool uma vida sem nuances. Assim ricos e pobres podem irmanar-se, democraticamente, na anomia e falta de sentido, caso os traumas inevitáveis do existir não lhes tenham ensinado resiliência.

Pupi

Pupi

A letra de “Casinha pequenina” dizia: “Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu. Tinha um coqueiro do lado que, coitado, de saudades já morreu”. Eu sei que tinha uma segunda estrofe, mais abstrata e romântica, mas a que eu guardei foi a primeira. Eu literalmente via as imagens enquanto minha mãe cantava. Eu vejo até hoje as imagens, como as via então. A casinha pequenina fechada e sombria, paredes descascadas, vidraças quebradas, a varanda tomada de mato. Na tela do meu cineminha subjetivo, a casinha chorava seu abandono, desintegrando-se à luz de um entardecer melancólico. O coqueiro do lado, coitado, o destino dele, então, me dilacerava. O tronco reclinado num arco desanimado, as palmas secas, sua ninfa evadida para sempre. Monteiro Lobato ainda não me contara que os gregos tinham uma alma com nome para cada ser da natureza, mas eu já intuía isso, como toda criança é capaz de intuir antes que os adultos tirem dela essa capacidade ou a transformem numa fome de lixo, de entulho, de venenos para a alma, muito parecida com a fome que eles mesmos carregam consigo. As imagens que reverberavam dentro de mim fluíam de todo lugar, das cantigas de minha mãe, das histórias, das imagens que meu lápis produzia incessantemente, dos quintais da minha rua, dos bichos, dos banheiros que eu visitava… É que, na minha cabeça, todo banheiro em que eu entrava pela primeira vez tinha um segredo escondido, um segredo que eu precisava descobrir. Honra seja feita ao banheiro da casa da dona Carmen, amiga rica de minha mãe, um cômodo vasto, com piso e parede verdes e peças feitas de louça preta. Puro mistério que devo ter desvendado, mas não me lembro mais qual era. Sim, o mundo concreto tinha sua própria luz e emitia essa luz para mim, como fez com os neoplatônicos e os alquimistas. O mundo era sagrado em si mesmo, um lugar “animado”, habitado por deuses, demônios, ninfas. Através daquela velha canção, a Anima Mundi se comunicava com minha alminha que, igual a de Zeca Baleiro, tinha (e ainda tem) muito que aprender. Ao escrever sobre a qualidade divina, orgânica, concreta e feminina que tem a matéria do mundo, Marion Woodman revestiu minha experiência com uma interpretação que não a violou, ao contrário, me esclareceu a ponto de fazê-la aflorar neste post. No último 2 de fevereiro, data em que se comemora Iemanjá, imagem afrobrasileira da Deusa, fez um ano que minha mãe passou para o outro lado. Há três meses, resolvi reformar o sobradinho que ela amava, literalmente vandalizado por um horda de inquilinos abjetos (se fosse por uma vara de porcos, eu até entenderia…). Esta semana, terminamos a reforma. Fiz questão de deixar a casinha do jeito que minha mãe gostava, com janelas e portões pintados de verde colonial, limpa e arrumada, luminosa e acolhedora. Hoje entendi que essa foi uma reparação que fiz àquela “Casinha Pequenina” da canção de minha infância, mas também à alma de minha mãe ou à sua ninfa, ou ainda a Héstia, a modesta e imprescindível deusa grega da lareira, que minha mãe encarnou muito bem. Ou a todas elas. O fato é que há uma porção da alma de minha mãe cuja luz a casinha real ainda irradia. Preciso contrastar essa luz recuperada com a boa morte que se anuncia para minha querida tia-madrinha Teresa, a quem minha mãe há de ajudar a fazer a travessia. As duas se gostavam muito, mas também se odiavam um pouco. Pobre mesmo é quem não tem metáforas.

Crianças na casinha

Crianças na casinha