O Outro

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Às vezes nos enganamos. Quase sempre nos enganamos. Certa vez Zeus perdeu as estribeiras com Ate, a deusa do engano. Por causa dela, ele, o supremo senhor dos céus cometeu um equívoco vergonhoso, de consequências olímpicas, tomado que foi por um súbito rompante de vaidade e prepotência. Pra lá de furioso, ele a agarrou pelas tranças e a jogou aqui na Terra, condenando-a a viver entre os mortais. Sobrou para nós, claro. E se Ate enganou o próprio Zeus, que dizer de nós, manezinhos? Ate é uma dessas divindades estranhas, mal adaptadas ao astral do Olimpo, assim como o são Ananke/a Necessidade, Nêmesis /a Vingança, Nix/a Noite, as Erínias e as Moiras, entre outras, quase todas fêmeas. Natural que, numa religião tão patriarcal, o Outro seja encarnado por mulheres. Zeus suporta essas divindades, sombrias e mal adaptadas, no interior de seu cosmos brilhante, limpo e organizado, unicamente porque se pela de medo delas, ciente de que lhe podem puxar o tapete sem cerimônia, a qualquer momento. Faríamos bem se, como Zeus, tivéssemos alguma sabedoria para lidar com o Outro que nos habita e que deseja ser conhecido por nosso Eu consciente, ainda que um minuto antes de nos destruir por completo, em sua revanche final. Confiar na hegemonia da razão sobre a emoção, da razão sobre a imaginação, por exemplo, é o maior de todos os nossos equívocos, o triunfo indubitável de Ate, a imperatriz deste mundo de enganos tomados como desastrosos acertos e venenosas verdades. Humberto Maturana subverte o clichê, quando diz que não é a razão, mas a emoção o elemento que determina nossa natureza. Somos seres emocionais, ele escreve, muito mais e muito antes de sermos seres racionais. A razão é uma conquista jovem demais, no processo de evolução de nosso aparelho neuronal, para se achar o último biscoito do pacote. O neocortex é a camada caçula do nosso cérebro. Imagine então esse sujeito arrogante que, só porque foi para a universidade e fez carreira acadêmica, acha que é melhor do que seus irmãos mais velhos, muito mais experientes e poderosos do que ele. Não contente com isso, o temerário ainda se mete a inferioriza-los, na vã tentativa de subjugá-los. Em geral, a razão se dá malíssimo quando a emoção e a imaginação (que frequentemente a engana com as mais destrambelhadas fantasias) cruzam sua radiante trajetória ascendente, rumo ao sol da explicação absoluta. Como o imaturo e impenitente Ícaro, ela despenca das alturas para mergulhar nas águas escuras da emoção, que a submergem e dissolvem. E apesar de todas as lições da tragédia grega e das misérias cotidianas que o jornal veicula, a razão desmedida nem aprende nem desiste de sua ambição de controle e hegemonia, ficando portanto à mercê dos titãs que acredita ter aprisionado para sempre no Tártaro. Os titãs são o Outro, esse alienígena, esse estrangeiro psíquico que não reconhecemos em nós (somente vemos nos outros) e que deve ser duramente reprimido, se possível extraditado (missão impossível, literal e metaforicamente, caso queiramos continuar a viver). Trabalham emparceiradas, para a supressão do sintoma aflitivo, para a redução da alma reprimida ao sexual, para o enquadramento do desviante ao estatuto normal (seja lá o que isso queira dizer), uma psiquiatria da medicalização e uma psicologia do ego, ambas a patinarem sobre a superfície mais externa e quebradiça da psique. Sua abordagem rasa não se aprofunda na alma porque também é um expediente racional e defensivo do Outro, atuando para favorecer a funcionalidade, a utilidade do sujeito que sofre, para restaurar sua produtividade e sua capacidade de continuar a consumir bens e serviços, o que me parece bastante coerente numa cultura em que só interessam nossas competências de produção e consumo. Entretanto o coração amordaçado estoura, na metáfora sangrenta do enfarto, quando as emoções se cansam de esperar e chutam a porta do calabouço aonde vegetam. O corpo recusado se transforma em pele e ossos, incapaz de enquadrar-se no modelo abstrato de beleza, juventude e vitalidade dos estereótipos do catecismo midiático. De quantas metáforas precisaremos, para escutar, lá nas profundezas de nosso inferno íntimo, os lamentos da alma abandonada e faminta, a nossa, a do mundo, o Outro em nós? Não se pode contar com a medicina do paradigma da razão técnico-científica, unilateral e todo-poderoso, porque ela não acredita em metáforas, por mais que elas se arregacem diante dos olhos de seus representantes. E lamentavelmente, a alma só fala através de metáforas. Mesmo Zeus, o senhor do cosmos, partilhava seu poder com os irmãos Posseidon, o senhor das águas turbulentas da emoção e Hades, o senhor das trevas do mundo inferior, o inconsciente. A ciência médica, a psicologia científica, porém, não partilham nada com ninguém, até porque Ate as convenceu de que já sabem tudo. Penso hoje na pediatra sensata e boa cidadã, mãe de uma família aparentemente harmoniosa, profissional respeitada, vizinha bem quista. Tínhamos a mesma idade: 56 anos. Para onde foi a razão dela, quando o surto se manifestou e essa boa pessoa assassinou, a tiros, o filho e a namorada, para suicidar-se em seguida? Há gente ingênua o bastante para tentar encontrar explicações racionais para esse cataclismo psíquico, que submerge em seu vórtice três seres humanos. Mas se ela era um ego enquadrado e sociável, a sustentar e alternar com eficácia, por anos a fio, suas personas sociais, sua funcionalidade, sua produtividade, sua condição de normalidade… O que aconteceu afinal? Não pretendo buscar entender, tão somente fornecer ao meu leitor mais elementos do que aqueles que costumam nos oferecer os “explicadores” de plantão. De acordo com o discurso midiático, a sombra já vinha dando o ar da sua existência, corroendo e se infiltrando nessa estrutura identitária tão consistente e convincente. Uma depressão, dizem os jornais, ecoando, talvez, as testemunhas. Ela andava meio deprimida, disseram os colegas de trabalho e o marido. Não, ela era não era louca, e isso é o que mais nos perturba, quando deveria nos ensinar alguma lição preciosa sobre como ela era parecida conosco. Ela foi raptada por um arquétipo, o mais poderoso de todos em nossa cultura: a Grande Mãe, aquela que tudo sabe e tudo pode e que, portanto, imagina-se no direito de tirar a vida de quem dela a recebeu e não parece estar aproveitando seu dom da maneira correta, pelo menos aos olhos dela. Não foi a boa pediatra e boa vizinha, nem mesmo a mãe responsável e amorosa quem engendrou e praticou esse crime horrendo, digno de ser recontado e encenado por Ésquilo e Eurípides. A mãe pessoal foi apenas um veículo para uma força transpessoal, carreada pela emoção descompensada e sem continente, pela a imaginação inculta que nos põe paranóicos, a perseguir os fantasmas que nos assombram de dentro, mas que projetamos fora de nós. Sobre esse Outro, é melhor ficar com as ficções que com as racionalizações. Alguns filmes maravilhosos nos esclarecerem por dentro, melhor do que qualquer artigo científico. Em “Clube de Compras Dallas”, o tosco e homofóbico cowboy vivido por Mathew Mc Conaghey precisa descer aos infernos para encontrar a si mesmo e transformar-se naquilo que estava destinado a ser, mas sua educação e a cultura em que vivia o impediam de ser. A AIDS ativou seu daimon, desencadeando uma impressionante jornada rumo à individuação. Em sua relação com o jovem transexual, seu odiado oposto, ele vai, pouco a pouco, integrando esse Outro e ampliando as fronteiras de sua personalidade. O tráfico de medicamentos não autorizados que ele promove, na fronteira dos EUA com o México, é uma imagem modelar de uma identidade que se torna permeável à alteridade, único caminho para uma transformação verdadeira. Em “Philomena”, a parceria bem sucedida dos paradigmas opostos complementares, o da razão e o da alma, aparece lindamente tipificada, na imagem do Tao que formam o jornalista-jovem-cético-intelectualizado-classe média alta e a aposentada-velha-devota-emotiva-classe operária. A jornada de ambos só triunfa porque os dois alternam suas qualidades de acordo com as necessidades e desafios que a aventura lhes impõe. Ao final, oscilando entre razão e emoção, cada um leva em si um pouco do Outro, e se transforma para melhor. No excepcional seriado para TV “True Detective”, da HBO, que acabou esta semana, o  Eu, Marty (Woody Harrelson), é um cara perfeitamente enquadrado nas falácias do american-way-of-life, enquanto o Outro, Rust (de novo, Mathew Mac Conaughey), é o desgarrado cínico, a alma torturada que reconhece e identifica a sombra coletiva terrível, para persegui-la com coragem, mas somente porque conhece a própria sombra. Ambos encaminham uma fabulosa parceria de opostos-complementares, que começa oficial e contrariada e se desenvolve para criativa e emocionada, no sentido da troca profunda e da transformação mútua. Enfim, as metáforas pululam. O Outro retorna e pede passagem, como possibilidade de calibragem e cura do Eu fora de si, mas também como ameaça de sua destruição. Quem tem olhos para ver, que veja.

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