Besteiras de férias (ou 50 tons de ouro sobre azul)

Leitura, Almeida Junior, 1899

“Leitura”, Almeida Junior, 1899

No Estadão, num dia qualquer de janeiro (nunca sei que dia é, quando o mês é janeiro), o escritor Milton Hatoum espinafrou o que chamou de “literatura de férias”, começando por dizer que o tempo vai se incumbir de apagar bem depressa todos os “50 tons de cinza”, bem como a memória de outras obras apócrifas, escritas apenas para encher os bolsos dos editores, acanalhar a indústria literária “séria” e emburrecer os leitores. Que maravilha se houvesse um contingente razoável de pessoas dispostas a emburrecer com a leitura, alguma leitura, nesta nossa pátria mãe gentil! Eu até concordo com Hatoum em termos, mas acho uma viagem na maionese imaginar que todo mundo deva ler os clássicos, num país como o Brasil, onde as maciças fileiras de analfabetos funcionais tradicionais são diariamente engrossadas com a adesão entusiasta dos analfabetos funcionais digitais. Literatura de férias é uma coisa ótima e até os tais 50 tons têm defensores assaz respeitáveis, como a minha amiga Tereza, que me disse que leu e gostou. E esse negócio de criticar o livro porque a protagonista gosta de apanhar do namorado é uma bobagem tão grande que nem merece comentário.  Basta dizer que “Madame Bovary” estimula o adultério e o consumismo, “Lolita” estimula a pedofilia e a Bíblia estimula a violência contra a mulher, a homofobia e o genocídio (neste caso, infelizmente, a sinistra turma dos sem-metáfora acha que é pra valer). Para dizer a verdade, se alguém tivesse carregado os 50 tons de cinza na mala até os 500 tons de ouro e azul do verão de Barequeçaba e ele acabasse misturado ao equipamento de praia, eu certamente teria me arriscado e, quem sabe, até tivesse gostado, como aconteceu com o vetusto português Lobo Antunes, fã confesso da série da escritora sapeca. Eu ainda não tive vontade de conferir os “50 tons de cinza” (título, aliás, bem brochante), mas meu sobrinho me repassou, lá na praia, o livro que acabara de ler, “Morte súbita”, de J.K. Rowling. Adorei. A mais pura literatura de férias, que só existe para a gente se evadir e relaxar, se entupindo de calorias, açucar e corantes, largado na cadeira-rede da varanda ou na cama mesmo, antes de cair naquele soninho contraventor de depois do almoço. Lendo Rowling, me revi no Guarujá aos 14 anos, indo comprar, aflita, uma nova Agatha Christie na livraria que ficava ao lado do cinema, como quem vai comprar um remédio para cólica. Era preciso substituir urgentemente o livro que eu tinha levado comigo para as férias e que tinha acabado em três míseras horas de chuva. “Por que não trouxe outro?”, perguntava minha econômica mãe. Ora, mãe, porque os melhores livros de férias são os que a gente ganha de natal (caso do livro do meu sobrinho) ou compra durante as férias, certo?

"Lesentes Mädchen", Théodore Roussel (1886-6)

“Lesentes Mädchen”, Théodore Roussel (1886-7)

Literatura de férias é assim: não tem nutrientes, mas é uma delícia, como friturinhas de verão. Com a vantagem extra que não engorda nem dá diabetes. A gente devora em tempo recorde, tal e qual uma porção dourada de bolinhos de bacalhau. Na modesta literatura de férias, está, inclusive, liberada (e até mesmo prevista), aquela olhadinha oportunista no final, para ver como a história acaba antes de pegar o ritmo da leitura.  A J.K. Rowling continua contando histórias com muita competência e sem quaisquer veleidades literárias, como fazia, aliás, Agatha, sua conterrânea mais simplória, porém não menos bem sucedida. Indico o novo livro dela, apesar das resenhas de nariz torcido dos metidos em geral, não só porque se trata de um ótimo suspense, muito bem amarrado do começo ao fim, como também porque acaba revelando a sombra de uma Inglaterra que nós adoramos superestimar, macaqueando nossos antepassados lusitanos. Lá no UK de Rowling, a favela se chama Fields e é um miserável conjunto habitacional popular cujo vizinho aristocrático, Yarvil, um encantador vilarejo, quer mais é que suma do mapa. Quem morre logo no início, de um prosaico AVC, é Barry Fairbrother, um filho de Fields que se dá muito bem em Yarvil, a ponto de ser alçado à condição de presidente  do conselho local. Como prova viva de que, sim, dá para virar o jogo, Fairbrother engaja-se na defesa do favelão de concreto, de seus moradores e de uma clínica popular de tratamento para dependentes químicos, feita para atendê-los. Contrariando interesses de alguns dentre os mais respeitáveis cidadãos locais, o falecido manipula a trama como um deus ex-machina e termina até por ganhar um duplo, na figura de um vingador cibernético muito bem urdido. Violência familiar, xenofobia, adolescentes problemáticos, bulllying digital, esposas perfeitas e esposas insatisfeitas, todo tipo de segredo inconfessável, abuso de drogas e outros assuntos candentes entram no excitante coquetel de frutas para o verão preparado pela mãe de Harry Potter, que se reinventou na trilha das damas do crime e, para mim, acertou o rumo de cara. Sobre o rápido esmaecimento dos 50 tons de cinza da literatura de férias e seu destino sem nobreza, é para isso mesmo que ela serve: para ser esquecida. Nossa cabeça precisa esquecer tanto quanto necessita recordar. É uma questão de saúde mental.