Tut etc

As notícias do derradeiro rolê de Tutancamon me envolveram num certo clima de Mercúrio retrógrado que amo. Nada como passar alguns dias andando para trás e devagar, fluindo nas imagens que ressoam dentro da gente. Flashes da minha amizade com Tutancamon retornou com Mercúrio, ou melhor, com Thot, o Mercúrio egípcio. Entronizado faraó aos 9 e morto aos 18, ele me fez companhia em algum lugar no passado entre meus 14 e 17, pelas datas dos livros que resgatei na estante assim que soube de sua turnê pela Europa. Quando esta for encerrada, o faraó-menino deve voltar para casa e nunca mais sair de sua ala no Museu do Cairo. Uma página arrancada de uma National Geographic, estampada com seu lindo rosto, de lábios e nariz africanos e olhos bem delineados, ficou anos colada na parede do meu quarto. Era sua máscara mortuária de ouro, uma imagem que, a meu ver, só tem concorrente à altura no busto de sua mãe-sogra, a glamurosa Nefertiti. Die young, live forever é um adagio que orna com Tut. Vivo ele não fez quase nada. Ao contrário, desfez o que seu pai-sogro Aknaton, o faraó herege, tinha feito antes dele: instituir, pela força, o monoteísmo como religião oficial do Egito. Não foi pouca coisa restaurar a velha religião, combatendo o legado do próprio pai e devolvendo o poder aos velhos deuses (e principalmente aos seus sacerdotes). Morto, Tut mobiliza multidões loucas para ver as mesmas maravilhas que deslumbraram, primeiro e pela ordem, o arqueólogo americano Howard Carter, seus capatazes egípcios, os felás descendentes dos construtores de pirâmides e, por fim, Lady e Lord Carnavon (os mecenas da expedição), em 1922. Gosto de quando, pela primeira vez, Carter mete uma vela (!!!) dentro da fresta aberta na parede da tumba recém-descoberta e diz: “Estou vendo coisas maravilhosas!” Eu também, Howard! Todos os dias! Tut e sua fabulosa entourage vão se hospedar, de sábado que vem até setembro, no anexo do Louvre que fica no parque La Villette. Pergunta: o que é ser rico de verdade? Resposta: é pegar um jatinho só para visitar Tut em Paris pela última vez (a primeira foi em 1967).

Por falar em Egito, achei Pantera Negra horroroso. Assim como a Mulher-Maravilha reuniu estereótipos masculinos dotando-os, para faturar, de xereca e peitos, Pantera Negra é uma coleção de clichês de super-herói branco maquiados de preto. Roteiro mal amarrado, visual ultra-kitsch porém levado a sério, historinha maniqueísta de gritar, bons atores engessados em personagens planos. Os estilos de atuação são (a) o sapiente-grandiloquente e (b) o espertinho-sarcástico. Não há super-bonder que dê jeito na tentativa do filme de colar civilização ultratecnológica com cultura tradicional. Poderosa Ísis, que pastiche! A linha de sutura usada, no filme, para reunir esses e outros opostos, é sintética e de baixa qualidade. O resultado não poderia ser outro: ela esgarça logo de cara. Juntar as duas coisas num roteiro seria um trabalho para o Super-Roteirista, aquele que bebe nas fontes arquetípicas (as do HQ inclusive) e pede consultoria a um Joseph Campbell da vida. Não funciona para surfistas da mais nova onda sobre a qual tenta se equilibrar a puta velha Hollywood. Afinal o politicamente correto que arranha a superfície (e até por isso mesmo) dá bilheteria. E as mídia pira. O filme só convence quem ou se contenta com ensopado enlatado de HQ com mitologia ou acha tudo lindo só porque todos são pretos. A pobre deusa-gata Bast, mal citada e já empastelada, é apenas um exemplo da ruindade da coisa. O Egito já corria por fora quando a Grécia ainda mal engatinhava, gente! Fazer um filme desses é sobretudo um trabalho mercurial, o de tecer ou restaurar as conexões perdidas da imagem com o arquétipo, usando para isso as linguagens de cinema e HQ, com o objetivo de abordar os mesmos temas, sempre candentes, só que a partir de uma visada simbólica. Algo do tipo “segura na mão de Thot e vai” derretendo estereótipos ao invés de consolidá-los ainda mais. Só que não. Os caras confundem símbolo com efeitos especiais. Na minha modestíssima opinião, que é a de quem segue mitologia como alguns seguem o Face e o Insta, o imenso potencial que o filme tinha para mobilizar imagens potentes do imaginário africano e da alma negra profunda acabou encalhado numa loja de moda e decoração étnica. Uma pena. Que não é a de Maat.