Salve, preguiça!

Uma espreguiçadela arquetípica

Andei com preguiça de escrever no blog. Gosto muito de escrever no blog, mas também gosto de sentir preguiça. Não abuso nem de um nem de outro, porque se a preguiça e a escrita virarem coisas banais, acabarão perdendo o valor. Bem vivida, a preguiça pode ser tão criativa quanto a escrita. Sentir preguiça é mais ou menos como estar grávida por uma horinha ou duas. Este post é filho da minha última preguiça. Este e os próximos que pretendo escrever em seguida. Tudo bem que o clichê da boa preguiça já foi lindamente explorado por Michel de Montaigne, Dorival Caymmi, Domenico de Masi, Ariano Suassuna, Caetano, Gil, entre outros preguiçosos mais ou menos interessantes. Eu insisto, porém, que certos clichês são, na verdade, falsos clichês. Embora a mente racional os considere assim, eles ainda não foram devidamente experimentados, tão somente debatidos até o desgaste e abandonados no arquivo morto do plano mental. Ainda há muito que viver, na nossa cultura compulsivo-obsessiva, em termos de preguiça. A igreja cristã considera a preguiça um pecado. Muito natural. Afinal, num sistema em que o corpo e a alma foram dissociados e ainda são considerados como realidades antagônicas, a preguiça vira uma transgressão incontornável, mesmo porque, entregues a ela, percebemos que o corpo e a alma são inseparáveis. Na preguiça, a segunda convence o primeiro a fruir a si mesmo e ao mundo sem ter de ir a um restaurante ou cinema, nem botar um CD pra tocar, nem dar uma trepada, nem investigar a geladeira em busca de sorvete ou vinho, nem ler, nem escrever… A preguiça não precisa de aditivos. Ela produz sua própria química, seu próprio combustível. A preguiça é um daqueles estados em que nossa alma é feita, como diz James Hillman. O corpo responde a ela ficando pesado e sonolento quando, na verdade, está ainda mais aberto e disponível às coisas que a alma lhe sussura e revela. Os sentidos se aguçam, a gente ouve o próprio coração bater, às vezes os ouvidos zumbem, sem incômodo, com um zumbido que, suspeito eu, deve ser um eco da música das esferas. Por isso uma bela preguiça e uma gravidez são tão semelhantes. Em ambas, algo está sendo gestado na penumbra, na aparente imobilidade fervilhante de possíveis. Parece que se está vivendo em câmera lenta, contudo se está vivendo apenas, mas muito minuciosamente. Na preguiça, a alma convida o corpo a perceber o que quase sempre esteve lá (no mundo) e cá (em nós), e que raramente percebemos, “escravos cardíacos das estrelas” que somos, como disse Fernando Pessoa. É que a preguiça instala uma espécie de torpor no espírito. Ela manda o espírito dormir, como uma mãe manda um menino tirar uma soneca à tarde, porque não aguenta mais suas traquinagens. Natural então que, na preguiça, a gente baixe, a pressão baixe, as abstrações baixem e virem, todas, sensações. Como é macio este travesseiro. Como é linda aquela trepadeira indomável que eu queria cortar, mas agora não quero mais. Como é bom este cheiro de café que vem da casa do vizinho. Como gosto daquela gravura do Egon Schielle de que acabo de me lembrar, mas que não vou conferir, porque estou com preguiça, o que não me impede de reconstruir sua imagem de memória, num devaneio plástico. Minha preguiça de escrever aqui talvez seja uma resposta automática à mensagem que recebi da WordPress no começo de 2011, dizendo que meu blog é muito produtivo, movimentado etc etc. Na hora em que li, até fiquei orgulhosa. Depois, me deu uma baita leseira. Agora estou de volta, até porque o menino traquinas acordou e acaba de escapar para o quintal. Corro atrás dele, com o corpo e a alma mais pacientes, mais sincronizados. Até porque o menino-espírito é do chifre furado e precisa de um continente firme e flexível para nem ficar à deriva, nem virar um fundamentalista pentelho.  Sim, a preguiça é um paradoxo, ou um oxímoro, se você preferir. Para entendê-la sem vivê-la, só mesmo observando a soneca diurna de um gato, misto de entrega absoluta com a mais absoluta prontidão.

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