Ode à vitamina S

Gosto muito de deixar minha imaginação pendular entre os opostos de que este mundo e nós mesmos somos feitos. Opostos que se encaixam e calibram mutuamente, que se estranham e se apaixonam, que antagonizam e colaboram em parceria, que podem até se destruir mutuamente, mas que não sobreviverão um sem o outro. Yang e Yin, côncavo e convexo, luz e trevas, bem e mal, essas coisas, enfim, de que os barrocos baianos e os metafísicos ingleses souberam falar como ninguém. Paradoxos. Oxímoros. O Feminino e o Masculino, por exemplo. Um quer o presente, o corpo em relação com o mundo, a experiência, a encarnação. O outro quer o projeto, o controle e a abstração espiritual e racional que sustentam as fantasias lógicas de um futuro. Só nascemos porque mamãe e papai entraram no jogo dos contrastes, os opostos de uniram e… bem vindo ao jogo você também! Refletindo sobre as pessoas que passam tempo demais a excluir uma polaridade para a afirmar a outra, me veio um insight: de todos os vícios que a gente inventou para dar conta dos perrengues de viver, o pior é o vício da perfeição. Primeiro porque ele quer negar o jogo. Segundo porque todos os outros vícios derivam dele, ou do desejo doentio que o instaura. Um mundo sem dor nem sofrimento, sem mal e pecado, sem ansiedade ou solidão, sem germes nem bactérias, sem preconceito ou pós-conceito, sem acne, celulite e peitos caídos, sem fracassos nem perdas, sem corruptos e bandidos espelha a expectativa irreal e paralisante de uma multidão de seres humanos que, incapazes de jogar com os contrastes, usam qualquer aditivo à mão para afirmar um polo e negar o outro. Tabaco, fármacos, religiões fundamentalistas, ideologias sectárias, treino físico compulsivo-obsessivo, birita, junkie food, ortorexia, drogas legais e ilegais, redes sociais e outras porcarias naturais e sintéticas pretendem – e por mais ou menos tempo, até conseguem – aliviar a aflitiva sensação de que somos filhos vulneráveis dessa mãe louca que nos joga de um lado para outro, chamada Vida. Corta.

No mundo de onde eu venho, a vitamina S era muito usada para melhorar a resposta imunológica das crianças aos invasores naturais, tão indesejáveis quanto inevitáveis. Quer dizer: não que muita gente soubesse disso objetivamente, mas havia uma forte intuição da necessidade dessa interação, até porque a tecnologia médica não era esse deus supremo que é hoje em dia. S é de “sujeira”, para quem desconhece o termo científico. Nossos pais não tinham noção do bem que estavam fazendo, quando se recusavam a desinfetar obsessivamente nossos brinquedos ou quando nos deixavam brincar com nosso grande mestre, o mundo, sem grandes frescuras. Já adulta, um conhecido meu, infectologista, me contou que as lombrigas que tive na infância foram grandes aliadas da minha resistência a gripes e resfriados. Segundo ele, elas ensinaram meu corpo a lidar com agentes patogênicos bem mais punks, como bactérias e vírus. Agradeço sempre às lombrigas que ajudaram a fazer de mim quem eu sou. Ah! O mundo real! Que grande companheiro ele pode ser, quando a gente não tenta inutilmente esterilizá-lo com litros de álcool gel e antibióticos perigosamente desnecessários! A terra e a areia, os pelos dos gatos e cachorros, o ranho e a baba dos amiguinhos com quem trocamos peças de Lego, os biscoitos com meleca e os crocantes tatus-bola que degustamos, num piscar daqueles olhos vigilantes, todas as porcarias invisíveis do chão aonde precisamos engatinhar livremente, a fim de virarmos bípedes competentes! Que beleza é a sujeira, quando ela intervém para moderar a limpeza descompensada! Metafórica e literalmente, a vitamina S (de Sombra, adoro isso) é a melhor imunização contra o vício da perfeição. Ela é uma dádiva, não do conhecimento científico, mas do bom senso, que anda muito em falta ultimamente, malgrado o excesso de informação que nos intoxica com múltiplas paranóias. A vitamina S é uma dádiva do Feminino profundo e escuro, essa dimensão úmida, viscosa da vida a qual atua em nossa psique para que encarnemos mais e melhor, a grande alquimista que trabalha para transformar conhecimento em experiência. Dá pra imaginar que o vício da perfeição anda higienizando os contos de fadas? Histórias sem vitamina S, sem megeras, órfãos, anões e gigantes, desgraceiras e lobo mau… e as crianças, coitadas, vão sendo impedidas de construir defesas simbólicas contra predadores concretos e crises reais.

Uma combinação equilibrada de liberdade e controle resulta na criação sensata e prazerosa de indivíduos mais resistentes, física e psicologicamente: os tais sujeitos resilientes. É a união dos opostos que traz integridade, a qual, por sinal, não tem nada a ver com a perfeição, nada mesmo. No caso da criação dos filhos, tem de ter principio feminino e princípio masculino dinamizando o tempo todo na relação, exercendo forças polares e cooperativas, afirmando parâmetros opostos, sendo cada qual respeitado e acolhido em seu papel e função de ajudar as crianças e os adolescentes a ancorar neste mundo velho sem porteira. Educação de filho é parceria de energias antagônicas. A exclusão de um dos lados desse jogo mutila nossa alma, fragiliza nosso corpo e nos torna prisioneiros de idealizações que nos impedem de viver de verdade. Assim estou aqui hoje para defender as lombrigas e os ogros que nos ensinam a jogar. Vou aproveitar para pedir às mães e aos pais que tentem, mas não com tanta força, como diziam ao Marvin, personagem do Jerry Lewis em “O bagunceiro arrumadinho”: um cara que, de tão ansioso por organizar, convocava inconscientemente um caos proporcional (e calibrador) ao seu desejo excessivo pela ordem. Tudo é compensação, no mistério cósmico-bioquímico-psicológico que é nossa vida na Terra. “Nada em excesso”, ensina o sábio oráculo de Delfos. Nem limpeza, nem água, nem amor. Nem mesmo a bondade, que tem se manifestado, em nossa cultura, como a hipocrisia fashion da correção política, a mera aparência de bondade para exibir aos outros. Este mundo em que seus filhos terão o privilégio de crescer, se vocês permitirem, é lindo e perigoso, politicamente incorretíssimo, cheio de ameaças e oportunidades, de megeras e fadas, de vitórias e derrotas, de picos e vales. Quanto mais vocês aprenderem a transitar entre as polaridades e ensinarem a eles o jogo dos contrastes, melhor eles se sairão como pessoas inteiras e reais. Isso se vocês não quiserem que eles se juntem à horda de pseudo-pessoas, esses estereótipos mal encarnados que andam sonambulando por aí, afligidos pela sinistra doença que os obriga a sacrificar quem eles verdadeiramente são no altar daquilo que eles que nunca serão. Defendam-se e aos seus filhos do sinistro devorador de almas que é o vício da perfeição. O resto se ajeita. Sério.

P.S. – Recentemente ouvi uma notícia auspiciosa: que o FDA proibiu, nos EUA, a venda do sabonete antibactericia Protex, alegando que seu uso indiscriminado está relacionado com o aumento da resistência de agente patogênicos. Vitamina S nele!

Madrasta

madrasta


Como lidar com a sombra da Santa Mãezinha? Onde enfiar toda aquela mesquinharia, o desejo de controle, o talento para manipular, o sentimento de posse, a tendência à auto-reparação usando a vida alheia, a perversidade, o autoritarismo, o narcisismo? Na madrasta, ora! Onde a primeira espelhava Nossa Senhora, a virgem-mãe obediente, extremosa e modesta, a madrasta refletia Eva e Lilith, a curiosa e a vadia, a insubmissa e a insaciável, duas fêmeas rebeladas que introduziram o mal no mundo. A imagem da madrasta foi uma verdadeira mão na roda, quando se tratou de expurgar os bichos peçonhentos que se escondiam nos desvãos da alma pura e boa de mamãe querida, com seu avental todo sujo de ovo. A sogra também servia, claro, e continua servindo, mas a madrasta… Que competência para receber projeções obscuras! Os contos de fadas estão repletos delas, sedutoras e loucas, invejosas e ciumentas, vaidosas e cruéis, ambiciosas e arrivistas. As santas mãezinhas morriam cedo, boas demais, frágeis, carentes de libido e de contrastes, se desmilinguindo de tanta luz, indo logo morar no céu, único lugar aonde é possível ostentar tanta pureza desencarnada. Deixavam assim suas filhas e filhos à mercê de pais distraídos, fracos, complacentes, hesitantes, em geral cúmplices por omissão das malvadezas de suas novas esposas, elas mesmas pujantes de saúde. Em todo caso, eles, os pais, também duravam pouco. Vejam os casos da Branca de Neve, de Cinderela e Vassilissa (essa pelo menos recebeu uma bonequinha mágica da mãe agonizante). Se alguns desses pais de contos de fadas não podiam ser culpados pela própria má saúde, outros, como os João e Maria e do Pequeno Polegar, nem mesmo mereciam ser chamados de pais, meros paus mandados que eram, manobrados à vontade pelas megeras a quem serviam, até mesmo contra a vida dos filhos. E havia os pais assumidamente perversos, capazes de suportar os próprios defeitos sem constrangimento, como o rei incestuoso, pai de Pele de Asno. É claro que os contos em versões mais cruas e originais estão repletos de mães ambíguas, bipolares. Mas essas versões foram sendo gradualmente revisadas pelos moralistas de plantão, de modo a garantir a dissociação entre mãe boa e mãe má, a madrasta, num grande desserviço para a consciência humana, individual e coletiva. Vivendo com alguma noção do realismo fantástico nosso de cada dia, não é difícil enxergar a matéria de contos de fadas a reverberar nos jornais, embora também não seja nada fácil. Era uma vez um menino de 11 anos de idade, órfão de mãe. O pai trabalhava como louco, do jeito que devem fazer todos os pais, neste mundo que consagra a produtividade e o consumismo sobre todos os outros valores. O pai do menino, pelo visto, não tinha nem jeito nem tempo para ser pai: conversar com ele, educá-lo, servir-lhe de exemplo, protegê-lo, amá-lo, dar-lhe limites. Por isso, ele se casou de novo, quem sabe pensando em arrumar alguém que fizesse essas coisas por ele. Deu azar. Ou melhor: o menino é que era azarado. Quantas oportunidades nos dá a vida de escolhermos se queremos ou não ter filhos, se temos mesmo vocação para a coisa, se não seria mais honesto e responsável de nossa parte desistir de botar no mundo um ser humano que não temos condições de criar… Quanta dor, quanta loucura, quanta miséria economizaríamos, exercendo esse grão de consciência! Mas o menino já tinha sido posto no mundo. Um estorvo, uma atrapalhação. A nova mulher do pai, jovem e bonita, era uma peste rematada. Chegava ao ponto de deixar o menino para fora de casa enquanto o pai estava ausente (que era quase sempre), sentadinho na calçada. Parecia aquela madrasta do conto de Câmara Cascudo. A da menina que tinha que cuidar da figueira e que foi enterrada porque os passarinhos bicaram alguns figos. O menino também foi enterrado, mas o pai dele nem notou, ao contrário do pai da história de Câmara Cascudo, quando voltou para casa de uma viagem de trabalho e deu por falta da filha. E se tivesse notado, o menino não estaria vivo ao ser desenterrado, como acontece na história. Desculpem: estou me adiantando a esta história. O menino não era bobo. Ele sabia que, se o pai dele não era capaz de cumprir com seus deveres de pai, havia outro Pai mais poderoso, o Rei, que podia obrigá-lo a fazer isso. A avó materna do menino lutava, também junto aos emissários do Rei, para ganhar a guarda do neto, porém era velha e usava um marca-passo. Todo mundo sabe que uma velha com marca-passo não serve para criar um menino. É uma coisa lógica. Nos contos de fadas, porém, muitas vezes a fada-madrinha, que vem em socorro do herói ou da heroína, aparece na forma de uma velha. É claro que também existem as avós desalmadas, como aquela da Cândida Erêndira, do conto de Garcia Marquez (embora a gente acabe por descobrir que a Erêndira tampouco era flor que se cheirasse, mas essa mistura irracional de bem com mal só pode ser coisa de realismo fantástico). O pai e a madrasta nem deixavam o menino ir visitar a avó, porque, todos sabem, não se deve deixar um menino aos cuidados de uma velha cardíaca, é uma irresponsabilidade. Os emissários do Rei, uma gente muito racional, que escreve e fala muito, e muito bem, escutavam as repetidas reclamações do menino e consideravam, ainda que com muitas reservas, os pedidos da avó dele. Em geral, os emissários do Rei estão sempre muito ocupados e preocupados em garantir a ordem lógica da realidade, por meio dos processos e dos seus trâmites burocráticos, enfim tudo aquilo que assegura o cumprimento rigoroso das leis, que levam um tempo imenso para ser aplicadas corretamente. As pessoas podem morrer enquanto esperam que a justiça seja feita. É normal e ninguém deveria se surpreender com isso. Assim os emissários do Rei adiaram a solução em favor daquilo que consideravam “o ideal”: pai, madrasta e menino vivendo felizes para sempre, e mais, quem sabe?, um cachorro para amar o menino de verdade, que era o que ele mais queria. Eles chamaram o pai do menino e conversaram muito racionalmente com ele que, por sua vez, se comprometeu em fazer tudo direitinho. No dia seguinte, ele saiu de casa para trabalhar e o menino ficou para trás, como de costume. E o que fariam vocês, se estivessem no lugar dos emissários do Rei? Entre a família ideal e uma família formada por um menino e sua avó cardíaca, o que vocês, pessoas razoáveis, escolheriam? Foi então que o ideal ergueu uma ponta e, por baixo, escapou uma revoada de bichos viscosos e peçonhentos. Duplamente exposto, pelo pai pessoal e pelo Pai coletivo, o menino foi, enfim, se encontrar com sua mãe lá no céu, aonde vive agora. Acabou-se a história, morreu a Vitória, entrou por uma porta e saiu pela outra. E quem quiser, que conte outra.

P.S. – (Tenho amigas madrastas que desempenham o papel de mães com mais amor, responsabilidade e generosidade do que as próprias. Infelizmente o menino da nossa história não teve a sorte de encontrar uma delas em seu caminho.)