A bailarina e o rei

Sem sapatilhas, só cascos

Este post também poderia se chamar “As sapatilhas e a coroa”. Ou “Pai ameaçador, mãe pirada”. Ou ainda “Meio cisne,  rei inteiro”, “O palco e o trono” etc… Crie seu próprio título a partir dessas imagens duais, mesmo porque sobram espelhamentos entre Nina e Bertie, protagonistas de dois entre os muitos bons filmes que integram a safra de cinema 2010. Para reforçar as semelhanças, Natalie Portman, que encarnou Nina em “Cisne negro”, e Collin Firth, que viveu Bertie em “O discurso do rei”, garfaram os prêmios de Melhor Atriz e Ator no último Oscar. Nina e Bertie têm quase tudo em comum. Tudo para dar certo. Tudo para dar errado. Nina é prisioneira das sapatilhas, que Portman chamou de “instrumentos de tortura” numa entrevista. De um momento para outro, Bertie passa a ser assombrado pela coroa, símbolo de uma condição que ele jamais desejou para si. Quando as histórias começam, Nina é a dançarina disciplinada, talentosa, ferreamente dedicada ao balé e à companhia da qual faz parte, e Bertie é o príncipe gago, porém, em geral, bem adaptado às expectativas que giram em torno de seu papel, como segundo na linha sucessória. Nina é perfeita. Bertie, imperfeito. Ela está completamente só, apesar da mãe vigilante, invasiva e sinistra, e do bando de cisnes que a rodeia no palco, sem, contudo, tocá-la. Ele também está só em sua gagueira infantil, mas, ao contrário de Nina, algumas pessoas estão com ele e não ao seu redor, feito uma corte de cisnes respeitosos e redundantes. Primeiro há a esposa, que o ama a ponto de quebrar os rígidos protocolos da corte para ajudá-lo a liquidar o assunto. Depois há o obscuro e excêntrico terapeuta que a mesma esposa descobre. Nina e Bertie são ambos reféns de sistemas muito parecidos, em sua claustrofobia e formalismo, universos minuciosamente demarcados e estruturados numa infinidade de e etiquetas e convenções cujo sentido profundo antecede e escapa à maioria dos indivíduos que deles fazem parte. No caso de Nina, trata-se do mundo do balé clássico profissional. No de Bertie, trata-se de nada menos do que a corte inglesa. Para completar, ambos vêem-se limitados de todos os lados pela espetacularização dos papéis que devem desempenhar frente ao coletivo. Aliás, poucas caras sobreviveriam ao poder petrificador de máscaras tão pesadas e aderentes. Enquanto Nina precisa lidar com sua inesperada ascensão à condição de prima ballerina numa produção de “O lago dos cisnes”, Bertie precisa elaborar sua imprevista transição, de segundo a primeiro na linha sucessória e, portanto, a rei. Nina deseja e teme essa conquista, já que, embora se tenha preparado para ela por anos a fio, descubra, provocada pelo coreógrafo, que o duro treinamento não lhe basta para brilhar. Bertie tão somente teme a coroa, mesmo porque nunca se preparou para ser rei. Ao contrário, sempre planejou viver à sombra do irmão e em paz com sua gagueira. O ambíguo calvário de Nina é, então, o centro do palco, de frente para uma platéia numerosa, culta e exigente. O de Bertie é o microfone, de frente para todo o povo inglês, o mesmo que amava o pai que ele sempre temeu. Mais do que o pai, agora morto, mais até do que a coroa, Bertie teme o microfone. Acontece que, no auge dos tempos do rádio, o primeiro é decorrência natural da segunda. Coroa e microfone são inseparáveis. Nina e Bertie também vivem em mundos nos quais a emoção e a imaginação estão sob suspeita, conquanto ambos tenham de lidar com sentimentos e fantasias que os pressionam de dentro, sem outra chance de legitimação do que aquela oferecida por algum tipo de mediação simbólica. Thomas, o coreógrafo, até chega a despertar em Nina um desejo, tão incipiente quanto excruciante, de deixar emergir a emoção, seu cisne negro, na medida em que a incumbe de viver os dois cisnes no palco: o puro e virginal, o sensual e malicioso. Nina, porém, teme abandonar a blindagem da disciplina férrea da identidade para experimentar-se, ainda que metaforicamente, na aventura da alteridade. Distante e sedutor, por sua vez, Thomas não se oferece para mediar a passagem de Nina, ainda que seja no papel de seu amante. Em Lily, a colega de companhia que lhe oferece uma possibilidade de interação criativa, Nina somente enxerga antagonismo e ameaça, impedida que está de estabelecer com a competidora uma dinâmica de complementaridade e compensação. E assim, enquanto ela permanece isolada e perdida no labirinto de suas emoções e fantasias, Bertie encontra um logos afetuoso, ousado e competente, que o ajuda a elaborar suas emoções e fantasias em direção ao significado: o Sr. Logue, o portador da palavra que organiza o mundo. Daí Bertie transformar sua deficiência em resiliência, o que o capacita a assumir um trono que não era para ser seu, na iminência da eclosão de uma guerra mundial. Em Bertie, a imperfeição é redentora e ele chega a desenvolver um estilo discursivo que a prevê e até mesmo se vale dela. Já em Nina, a perfeição exclui a integridade por completo. Branco ou negro, o cisne não tem como alçar vôo ostentando transgressivas asas malhadas. Como se sabe, a perfeição não permite contaminações. Para libertar Nina, a doce menina da mamãe, a revanche da sombra adquire proporções míticas. Heroína sem mácula, ela deve despencar das alturas para cair em si. Sem um limiar de negociação entre a identidade e a sombra, sem um xamã para guiá-la no labirinto de sua alma ferida, não resta a Nina outra transformação que não a morte.