Conduzindo Preciosa

Chá no paraíso, colagem do meu caderno

Chá no paraíso, colagem do meu caderno

Não importa o mundo lá fora. Caos, gente louca se deslocando em carros semi-desgovernados, motoqueiros destrambelhados, carretas que cruzam o farol vermelho. No meu carro, não sou invadida por boletins econômicos obsessivo-compulsivos ou reportagens policiais escatológicas. Tampouco sou irritada até a fúria por publicidade  cretina. Ou interrompida pela hugochavista Hora do Brasil. Não testemunho, perplexa, um trilha sonora em que Caetano é substituído por Michel Teló. Tampouco sou torturada pelos pianinhos dodecafônicos de algum programador cult. Nunca mais, nunca mais, never more, como dizia o Corvo. Essa alforria dos ouvidos eu comprei, usada, por 3 dólares mais frete, com meu primeiro audio-livro da Agência N0 1 de Mulheres Detetives. Já tenho oito caixas, todas arrematadas na bacia das almas da Amazon. Ouço, empresto, me esqueço das histórias e torno a escutá-las, como se fossem novinhas em folha. Já arrebanhei muitos fregueses para a agência e continuo, eu mesma, cliente fiel dessa empresa que, graças a Deus, não é citada nas colunas corporativas fofas, cujas platitudes e bom mocismo posado me dão vontade de vomitar sobre o volante. Com sede em Gaborone, capital de Botswana, a Agência N0 1 de Mulheres Detetives não tem filiais. Minto. Tem sim. Inúmeras. Uma delas está localizada no CD player do meu carro. Outra, eu soube por um documentário que vi na GNT sobre vítimas do 11 de setembro, fica no DVD player de uma senhora japonesa que sofreu severas queimaduras durante o ataque e teve de passar por inúmeras cirurgias nos braços derretidos. No depoimento, ela contava que tinha dias em que perdia completamente a esperança de voltar a ter braços e caia em depressão mais do que justificada. Então assistia aos filmes da única temporada da série, produzida pela HBO, dirigida pelo Anthony Minghela e baseada nos livros do escritor Alexander Mc Call Smith, um amigo querido que nunca vi mais gordo.

Cartaz da série para TV. produzida pela HBO

Cartaz da série para TV. produzida pela HBO

As histórias de Mma (pronome de tratamento tradicional, que significa senhora) Preciosa Ramotswe  tinham o poder de levantar o astral da senhora japonesa de braços derretidos. Nada mal. O Alex (sentiram a intimidade?), criador desse mundo deliciosamente ingênuo, mas nada tolo, muito cioso de seus valores tradicionais, tão engraçado quanto profundo na sua reflexão sobre as coisas da vida, é um senhorzinho de seus setenta e tantos anos, nascido no Zimbabwe, gordinho, olhos azuis, sorriso fácil e gravata borboleta. Médico, ele vive na Escócia, porém ama a África de todo coração e a mostra através do filtro desse amor, o que desorganiza nossos clichês sobre o berço da humanidade, onde vivem os espíritos de nossos mais antigos avós. Botswana é o país que ele escolheu como cenário para as histórias da agência. Além dessa série, ele escreveu outras, em que mistura filosofia, linguística e investigações policiais nada convencionais. Eu até li dois livros de uma detetive-filósofa que ele inventou, mas sou tiete mesmo de Mma Ramotswe e sua turma: a pentelha secretária Mma Makutsi, com seus 97% de aproveitamento na Escola de Secretárias de Botswana; o bovino marido mecânico, sr. J.L.B. Matekoni (que é sempre chamado pelo nome completo, inclusive as iniciais); os garotos aprendizes da oficina, incorrigíveis e adoráveis malandros; os filhos adotivos, um casal de irmãos bosquímanos, a menina deficiente física e doida por motores (ela se chama Motoleli); a enxerida Mma Potokwani, matrona que dirige a fazenda dos órfãos… E mais a trupe de clientes da agência, com seus micro-problemas para resolver, e que contratam essa senhora sábia, afável, conciliadora, com sua compleição tradicional (uma “traditionally built lady” é, em suma, uma gorda, tipo físico muito apreciado em Botswana). Nos audio-livros, a narração é feita por uma atriz sul-africana simplesmente fabulosa, Lisette Lekat, que não apenas lê as histórias, mas as dramatiza, fazendo vozes, sotaques, viajando na melopeia. Com Lisette na narração, as personagens de Alex ganham ainda mais vida e humanidade, o que torna a leitura dos livros especialmente deliciosa. Sem pretensões nem culteranismos, ele fala de relações humanas delicadas, tecidas num mundo ainda meio encantado, parecido com o de Mia Couto: empoeirado e belo, apaixonado por seu gado manso e regido por valores que garantem que a comunidade continue a ser o lugar onde sabemos quem somos e para onde podemos retornar, quando é preciso. Mma Ramotswe é uma dessas personagens portadoras de que fala o Dennis: mais do que a detetive gorda e bonachã, às voltas com seus casos aparentemente irrelevantes, dotada de uma imensa capacidade de empatia e acolhimento, é uma imagem do feminino que resolve. Docemente. Sem dar porrada, fazer ameaças, berrar, dar carteirada, humilhar. Simplesmente chega e resolve. Muitas vezes, só na conversa, frequentemente regada com bules de chá de rooibos, que também é o meu favorito. Com seu red bush tea e sua conversinha macia, Mma Ramotswe umedece e suaviza as encrencas mais cascudas de sua engraçadíssima clientela. E há ainda esses pronomes de tratamento adoráveis: Mma, para as mulheres, e Rra, para os homens, que de vez em quando usamos aqui em casa. Antes do ano terminar, eu precisava falar dela, minha amiga que me faz companhia no trânsito e torna agradáveis os meus outrora estressantes deslocamentos pelos labirintos engarrafados de Sampa. E, de quebra, ainda me ajuda a apurar os ouvidos para a língua inglesa. Posso não entender nada do que dizem os escoceses, mas lá em Botswana, eu entendo tudo. Lá sou amiga da rainha.

P.S. – A Companhia das Letras tem alguns livros de Mc Call Smith publicados, a maioria da Agência No 1 de Detetives Mulheres. Com traduções muito bem feitas, vale a pena começar pelo livro homônimo, e daí pegar “As lágrimas da girafa” ou “Moralidade para garotas bonitas”, ambos ótimos.

Em Lima como em Gaborone

Esperas de aeroporto costumavam me deixar doente. Eu disse “costumavam”. Até o dia em que fiquei presa no aeroporto do Recife, em pleno apagão aéreo de 2006. Tudo de ruim acontecendo ao mesmo tempo, em escala nunca vista. Vôos mais que atrasados: sem perspectiva alguma de decolar. Levas de almas perdidas vagando pelas alas, à mercê do arbítrio dos mais podres poderes. Lixo se acumulando sinistramente sobre e em torno das mesas dos cafés (sim, o Diogo Mainardi tem toda a razão ao dizer que brasileiro é muito porcalhão). Sinal de celular ruim. Marido e filho ansiosos, escutados a duras penas no oco de um orelhão ensebado. Na iminência de surtar, fui rezar na livraria, fui procurar refúgio naquela aparência de ordem e normalidade que as livrarias costumam ostentar, livres que estão do risco de depredação e pilhagem que correm os supermercados. Na livraria, Mario Vargas Llosa teve pena de mim e me valeu. Sua menina má me fez companhia e me devolveu ao centro, naquela tarde de limbo no aeroporto do Recife. Me aboletei numa cadeira desconfortável, com uma garrafa de água mineral na mão e as travessuras dela diante dos olhos. Devagarinho o caos objetivo foi saindo de foco e uma névoa delicada e protetora começou a baixar sobre meu espírito inquieto. Distraído, ele começou então a seguir a menina má e seu servo sentimental pelas ruas de Lima, de Londres, de Paris… Ancorado pela alma que a menina má encarnava, meu espírito descobriu que tinha coisas muito mais importantes a fazer do que ficar zanzando por labirintos de pensamentos obsessivos, impregnados pela energia ruim daquele limiar tenebroso.  Fui agindo automaticamente por fora e, quando vi, já estava na fila de embarque. Eu lia a penúltima página quando o comandante anunciou, com voz cansada, que estávamos descendo em São Paulo. Imaginem vocês que eu torcia para conseguir terminar a leitura antes do avião descer. Haviam sido exatas quatorze horas, entre minha chegada ao aeroporto do Recife e o pouso em Cumbica, quando era em Congonhas que eu deveria chegar. Mas tudo bem. Minhas preocupações eram de outra natureza agora. Minha alma tinha vencido a parada, para felicidade do meu espírito apaziguado. Cheguei em casa com o dia amanhecendo, ainda pensando na menina má e em seu escravo-amante. Foi lindo. Foi medonho. Foi inteiro. Semana passada, submetida à mesma lógica perversa dos aeroportos, cheguei ao JFK em Nova York a fim de embarcar para Sampa. Cheguei e, escaldada (ou melhor, iniciada), fui direto para a livraria. Eu até tinha um livro, até dois, para ler. Acontece que, para essa uma experiência ser completa, ela deve começar com a aquisição de um livro DE aeroporto NO aeroporto, vocês me entendem? Trata-se de uma espécie de ritual fetichista. Fui de pronto abençoada: logo no display da frente da loja, fui abordada por Alexander Mc Call Smith, um autor afro-escocês que está entre os meus atuais favoritos. Minha companheira de viagem seria então Mma Ramotswe, a gorda e pachorrenta proprietária da “Primeira Agência de Detetives Mulheres” de Botswana! Que felicidade! Que sorte! Mma Ramotswe, com seu físico tradicional, sua lógica matriarcal para desvendar casos enigmáticos, sua aplicada secretária Mma Makutsi, sua pequena van branca! Melhor ainda: Mma Ramostwe já casada com o Sr. J.L.P. Matekoni, dono da Tlokweng Road Speedy Motors, a melhor oficina mecânica de toda Botswana!  Eu ia viajar de Nova York a Sampa via Gaborone. E foi uma viagem magnífica. É claro que o fato de eu ter conseguido duas poltronas na Classe Econômica ajudou bastante, mas prefiro pensar que meu pequeno ritual mobilizou toda essa boa energia a meu favor.  Afinal a vida em Botswana é muito mais tranquila.