Visões

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Nada é, para mim, tão concreto e persistente quanto a memória. Nada é, para mim, tão real  e transformador quanto a imaginação. Nada precede a Beleza e o Amor, Afrodite e Eros, mãe e filho, na ordem da realidade como na do mistério, sendo as duas uma e a mesma. A verdade pode se tornar tirânica. A justiça pode se tornar arbítrio. A bondade pode ser pieguice. Já a Beleza nos põe de joelhos, muito antes que soe uma única vogal. O Amor a segue, qual um cãozinho ao seu dono. Eu sirvo à Beleza porque não tenho escolha. Quanto ao Amor, desconheço outra verdade, outra lei. O resto é vaidade e correr atrás do vento, disse Salomão, o homem que não fazia questão de ser nem melhor nem mais sábio do que os outros. Nada em excesso, e nisso o oráculo de Delfos é o único com licença para soar dogmático. Enquanto a vida prossegue, aprendo que menos é mais e mais é nada.

 

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MÚSICA

Não poderei ver um show ao vivo de Leonard Cohen por enquanto. Mas quando encontrá-lo, vou pedir que ele cante “Famous blue raincoat” ao violão, só para mim, de preferência com sua voz de mocinho. Vamos nos sentar numa esquina decadente da Montreal dos anos 1950, beber bourbon sem receio de ressaca e falar sobre sexo e religião, que também são uma e a mesma coisa. Jesus deve aparecer a qualquer momento, com sua mochila de lona verde. Lá vem ele: acaba de virar a esquina, bem acompanhado, como sempre. A morena agressiva, de lábios grossos, olhos chispantes e coxas de ébano, é Kali, a Negra, e não vai topar sentar com a gente, claro. Deixa ela, diz Jesus, largando a mochila no chão, entre resignação e alívio (“essa mulher é muita areia etc”). A morena se afasta furibunda (“ela é assim mesmo”, ele revira os olhos, como no retrato do Sagrado Coração). Penso que ambos formam o casal perfeito, a união dos opostos, a imagem-síntese das núpcias alquímicas. Jesus se junta a nós e pede “Hallelujah”, o que acho meio manjado da parte dele. Só que faz questão da voz demolida de profeta, pelo menos. A luz da tarde está linda, mescla de violetas e dourados, uma banda do mundo luminosa, a outra, já mergulhando em sombras. Obrigada, fui eu mesmo que fiz esse crepúsculo, diz Jesus, em resposta ao meu pensamento que não teve tempo de sair da cabeça. Isso irrita um pouco em Jesus, mas tudo bem. No resto, ele é ótima companhia. Começa a esfriar. As duas bandas da Terra estão escuras agora. Ainda bem que eu trouxe meu famoso xale azul. Pedimos mais uma rodada e Leonard recomeça.

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LIVROS

Eu e Agatha Christie flanando pelas ruas de Aleppo. Já embarafustamos por um souk ruidoso e colorido de doer nos olhos. Já tomamos café, comemos doces e eu consegui comprar, depois de vinte minutos de intensa barganha, duas cópias de cerâmica de figurinhas da deusa, embrulhadas em papel de seda amarfanhado. Chegamos a Estambul vindas de trem de Calais e depois viajamos até a Síria. Sou voluntária na equipe de Max Mallowan, o marido arqueólogo de Agatha, que vai escavar no vilarejo de Chagar Bazar, à beira do Eufrates, na temporada deste ano. Estamos nos anos 1930. Tenho 16 e pretendo ser arqueóloga. Fui aceita por Max com relutância, imagine se essa menina adoece, se se apaixona, que responsabilidade. Nem sei como meu pai deixou. Agatha intercedeu em meu favor, ela é muito convincente quando quer. Disse que vou ajudá-la com os originais do novo livro e estou que não caibo em mim, de alegria e medo. Eu e ela somos as únicas mulheres do grupo. Ela é a grande khatun e eu, sua ciosa carregadora de cauda. Sou um pouco mais velha que Rosalind, a filha que ela nunca leva nas viagens com Max. Aleppo é antiga e venerável, uma cidade sagrada cheia de sombras de deuses que teimam em continuar a existir, um emaranhado de ruas velhíssimas cruzadas por figuras embuçadas, saídas das histórias de Richard Burton.

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Um homem passa por nós, trajes brancos imaculados, capa multicolorida, tarbush negro emoldurando um rosto ocidental e quase feminino, olhos ardentes de Rodolpho Valentino. Falso como o sheik do livro de Edith Maud Hull que resgatei de uma caixa cheia de livros velhos, um tesouro abandonado na calçada pelos vizinhos de minha tia. Falso mas não menos galante por isso. Andamos Agatha e eu de braços dados e nos cutucamos quando o sheik passa por nós qual uma ventania, as roupas amplas farfalhando. A alvura dele me faz sonhar com a luz cremosa de Palmira, a deusa-cidade florescendo em seu oásis. Haveremos de ver Palmira a caminho para o Eufrates. Quero aprender a ser como Agatha: ao mesmo tempo uma khatun e uma menina que se diverte com tudo, que faz a mágica da reparação de revezes quando escreve. E olhe que ela não escreve sobre almas-gêmeas, nem potes de ouro no fim do arco-íris, nem prestimosos esforços para fugir da depressão em duas semanas. Aliás ninguém foi tão fundo na própria dor quando Agatha. Ela mergulhou e retornou da noite escura com uma braçada de crimes para narrar. Talvez por isso ela seja assim, tão inteira, tão honesta quando mente. Agatha me confessa que sente saudades de Aleppo, de Palmira, de Kamichlie, até mesmo da feiosa Amuda. Ela diz: “Inshallah, eu voltarei algum dia e as coisas que eu amo não terão desaparecido desta terra”. Sim, elas terão, minha querida. Nem a gloriosa Palmira restará, abandonada que foi pela civilização que não merecia o paradoxo de sua beleza. Mas que bom que você me levou lá antes.

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Besteiras de férias (ou 50 tons de ouro sobre azul)

Leitura, Almeida Junior, 1899

“Leitura”, Almeida Junior, 1899

No Estadão, num dia qualquer de janeiro (nunca sei que dia é, quando o mês é janeiro), o escritor Milton Hatoum espinafrou o que chamou de “literatura de férias”, começando por dizer que o tempo vai se incumbir de apagar bem depressa todos os “50 tons de cinza”, bem como a memória de outras obras apócrifas, escritas apenas para encher os bolsos dos editores, acanalhar a indústria literária “séria” e emburrecer os leitores. Que maravilha se houvesse um contingente razoável de pessoas dispostas a emburrecer com a leitura, alguma leitura, nesta nossa pátria mãe gentil! Eu até concordo com Hatoum em termos, mas acho uma viagem na maionese imaginar que todo mundo deva ler os clássicos, num país como o Brasil, onde as maciças fileiras de analfabetos funcionais tradicionais são diariamente engrossadas com a adesão entusiasta dos analfabetos funcionais digitais. Literatura de férias é uma coisa ótima e até os tais 50 tons têm defensores assaz respeitáveis, como a minha amiga Tereza, que me disse que leu e gostou. E esse negócio de criticar o livro porque a protagonista gosta de apanhar do namorado é uma bobagem tão grande que nem merece comentário.  Basta dizer que “Madame Bovary” estimula o adultério e o consumismo, “Lolita” estimula a pedofilia e a Bíblia estimula a violência contra a mulher, a homofobia e o genocídio (neste caso, infelizmente, a sinistra turma dos sem-metáfora acha que é pra valer). Para dizer a verdade, se alguém tivesse carregado os 50 tons de cinza na mala até os 500 tons de ouro e azul do verão de Barequeçaba e ele acabasse misturado ao equipamento de praia, eu certamente teria me arriscado e, quem sabe, até tivesse gostado, como aconteceu com o vetusto português Lobo Antunes, fã confesso da série da escritora sapeca. Eu ainda não tive vontade de conferir os “50 tons de cinza” (título, aliás, bem brochante), mas meu sobrinho me repassou, lá na praia, o livro que acabara de ler, “Morte súbita”, de J.K. Rowling. Adorei. A mais pura literatura de férias, que só existe para a gente se evadir e relaxar, se entupindo de calorias, açucar e corantes, largado na cadeira-rede da varanda ou na cama mesmo, antes de cair naquele soninho contraventor de depois do almoço. Lendo Rowling, me revi no Guarujá aos 14 anos, indo comprar, aflita, uma nova Agatha Christie na livraria que ficava ao lado do cinema, como quem vai comprar um remédio para cólica. Era preciso substituir urgentemente o livro que eu tinha levado comigo para as férias e que tinha acabado em três míseras horas de chuva. “Por que não trouxe outro?”, perguntava minha econômica mãe. Ora, mãe, porque os melhores livros de férias são os que a gente ganha de natal (caso do livro do meu sobrinho) ou compra durante as férias, certo?

"Lesentes Mädchen", Théodore Roussel (1886-6)

“Lesentes Mädchen”, Théodore Roussel (1886-7)

Literatura de férias é assim: não tem nutrientes, mas é uma delícia, como friturinhas de verão. Com a vantagem extra que não engorda nem dá diabetes. A gente devora em tempo recorde, tal e qual uma porção dourada de bolinhos de bacalhau. Na modesta literatura de férias, está, inclusive, liberada (e até mesmo prevista), aquela olhadinha oportunista no final, para ver como a história acaba antes de pegar o ritmo da leitura.  A J.K. Rowling continua contando histórias com muita competência e sem quaisquer veleidades literárias, como fazia, aliás, Agatha, sua conterrânea mais simplória, porém não menos bem sucedida. Indico o novo livro dela, apesar das resenhas de nariz torcido dos metidos em geral, não só porque se trata de um ótimo suspense, muito bem amarrado do começo ao fim, como também porque acaba revelando a sombra de uma Inglaterra que nós adoramos superestimar, macaqueando nossos antepassados lusitanos. Lá no UK de Rowling, a favela se chama Fields e é um miserável conjunto habitacional popular cujo vizinho aristocrático, Yarvil, um encantador vilarejo, quer mais é que suma do mapa. Quem morre logo no início, de um prosaico AVC, é Barry Fairbrother, um filho de Fields que se dá muito bem em Yarvil, a ponto de ser alçado à condição de presidente  do conselho local. Como prova viva de que, sim, dá para virar o jogo, Fairbrother engaja-se na defesa do favelão de concreto, de seus moradores e de uma clínica popular de tratamento para dependentes químicos, feita para atendê-los. Contrariando interesses de alguns dentre os mais respeitáveis cidadãos locais, o falecido manipula a trama como um deus ex-machina e termina até por ganhar um duplo, na figura de um vingador cibernético muito bem urdido. Violência familiar, xenofobia, adolescentes problemáticos, bulllying digital, esposas perfeitas e esposas insatisfeitas, todo tipo de segredo inconfessável, abuso de drogas e outros assuntos candentes entram no excitante coquetel de frutas para o verão preparado pela mãe de Harry Potter, que se reinventou na trilha das damas do crime e, para mim, acertou o rumo de cara. Sobre o rápido esmaecimento dos 50 tons de cinza da literatura de férias e seu destino sem nobreza, é para isso mesmo que ela serve: para ser esquecida. Nossa cabeça precisa esquecer tanto quanto necessita recordar. É uma questão de saúde mental.