Dalila

Samson and Delilah 16

Minha mãe, profetisa incidental que era, resolveu me chamar de Dalila num certo período da minha vida. A intenção era a pior possível: me aproximar, por apóstata que eu era, da gói traiçoeira e malévola que desviou o santinho Sansão do caminho do Senhor, tosou rente sua cabeleira de filhinho da mamãe (ou do Papai, como preferirem) e acabou metendo o sujeito numa enrascada fatal para a escalada heróica que o pessoal lá do templo tinha projetado para ele. Sendo mamãe uma batista empedernida, chamar a filha de Dalila deveria soar a esta como ofensa, mas não. Quando me chamava de Dalila, minha mãe, sem saber, me atribuía uma força que ela mesma não possuía, contudo tenho certeza de que, inconscientemente, pretendia que eu encontrasse dentro de mim. Nunca me senti constrangida ou ameaçada por essa comparação, nunca mesmo, apesar de ter sido educada pelo mesmo imaginário no qual ela mesma havia sido educada. Talvez porque eu intuísse que “ser Dalila” tinha um significado mais profundo que aparentava o discurso lógico. Hoje compreendo que Dalila é uma metáfora e metáforas podem nos tirar da frigideira quente dos eventos e da dimensão pessoal e nos deslocar a um lugar mais arejado, com mais, digamos, perspectiva. Seria como me xingar de “filha de Eva” se ela fosse uma católica carola, fato aliás do qual muito me orgulho. Afinal nossa tão caluniada mãe mitológica, depois de ter sido talhada para a submissão e a inferioridade, ousou perverter a regra do jogo e dar início à História humana, libertando a si mesma, a Adão e a toda a criação dos limites estreitos jardim zoo-antropológico do Éden e lançando-os no campo do tempo e do espaço, para que a narrativa pudesse, enfim, começar. Como Eva, Dalila foi a iniciadora do masculino no campo da experiência, da qual Sansão, superprotegido e enquadrado demais na tradição, estava alijado, por interesses alheios a sua vontade. Isso sem levar em conta que ela estava defendendo seu povo, sua cultura e sua religião quando seduziu aquele homem feito que ainda ostentava os cachinhos da infância como símbolo de uma força que não provinha de dentro dele, mas era-lhe dada de fora, sob condições estritas. Quando eu era menina e, na igreja, me contavam a história de Sansão e Dalila, era de um ponto de vista literal, maniqueísta e tendencioso, que naturalmente fazia todo o mal recair sobre Dalila. Então eu odiava Dalila por ela ter “feito mal” a Sansão (olhem só a invertida do modelo!). Contudo, e como escreveu o apóstolo, quando eu era menina, pensava como menina. Agora que sou adulta, deixei de pensar como menina e de me deixar aprisionar por discursos dualistas, pendam eles para o lado que penderem. Depois de Jung, Hillman, Pedrazza e Thomas Moore, Dalila se tornou uma das minhas imagens favoritas de Anima. O ritual que ela protagoniza, da tosquia dos cabelos da criança que ainda persistem na cabeça de um macho adulto, é uma das cenas mitológicas mais lindas e significativas da relação homem-mulher, uma cena de iniciação do masculino pelo feminino, manipulada, adulterada e pervertida, ao longo dos milênios, pelos exegetas (quase todos homens) que se pelam de medo de feminino. A história infantil (a qual, porque não pode ser mito, fica retida no âmbito de versão oficial e literal) estilhaçou-se em milhares de caquinhos e eu pude compreender, enfim, porque ser chamada de Dalila por minha mãe nunca me ofendeu nem sensibilizou. Para dizer a verdade, eu adorava. E hoje descobri a razão.

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Pequenina odisséia de 2017

“Sabemos qual é o problema: ele (Odisseu) veio de um mundo que rejeitou e negou o princípio feminino, tentando dominá-lo ou substituí-lo por um sistema patriarcal. Agora terá de encarar a força crua do feminino e submeter-se a ela”. (Joseph Campbell)

“Um deus é uma metáfora transparente à transcendência.” (Joseph Campbell)

Ontem, dia 2 de dezembro, Maria Callas teria completado 94 anos. Maria, a garotinha rejeitada e vulnerável, e La Callas, a deusa magnificente e incomparável, ambas  – e todas as personagens que as duas, em parceria, encarnaram no palco – foram reunidas no paradoxo de uma vida arrebatada pelo poder ambivalente do arquétipo. Comemorei a data em clima de sincronicidade, ouvindo uma palestra sobre Callas, marcada sem nenhuma intenção prévia de homenagem. Na verdade, nem mesmo o palestrante se dera conta do fato, lapso quase imperdoável para um devoto, ele também paradoxal. A história mais ou menos inteira é assim: estivemos lendo, nas matilhas, ao longo de 2017, dois livros bastante problemáticos. Callas era uma das figuras abordadas num desses livros, que fala do poder da loucura no Feminino, da sanha destrutivo-criativa de Anima. Não engatavam as leituras, os livros eram cheio de defeitos, pareciam mal traduzidos, um deles era racional e didático demais, o outro, panfletário e clichê. Em suma: nenhuma das duas leituras fluía. Mais de uma vez pensei em interrompê-las para começar outras. Os dois livros falavam, de perspectivas diferentes, da influência lunar, fascinante e dissolvente de Anima, de sua força para convocar confusão e névoa, para pôr a perder a eficiência lógica e discursiva do ego… Um foi escrito por um homem. O outro, por uma mulher arremedando um homem. Só ontem, graças a Maria Callas, consegui vislumbrar um pouco do que aconteceu, pelo menos comigo. Na iminência de desistir das leituras e estimulada por algumas amigas, resolvi mudar de método, numa derradeira tentativa de não fugir da raia antes pedir algum esclarecimento à Alma. Não que eu soubesse o que estava fazendo, longe disso. Estava perdidaça. Parece que deu certo. A Alma se moveu. Os livros foram estripados, espremidos, chacoalhados e a leitura ganhou fôlego. Fomos acolhendo os defeitos, aprofundando a retórica com nossas experiências, transformando enjoamentos em desafios, pulando trechos, enfatizando outros e parece que conseguimos afinal transpor as rochas que se entrechocam, as mesmas que emergem naquela leitura que está na iminência de gorar. Vamos terminando os dois livros, com níveis variáveis de envolvimento, mas, penso eu, também com ganhos para quase todas nós, que acreditamos na jornada compartilhada da matilha. Foi uma experiência e tanto, para mim, pelo menos. Foi minha experiência em particular de estar nas matilhas em 2017, a que mais me desconstruiu e, portanto, me ensinou, numa dimensão difícil de acessar e expressar com as ferramentas expressivas do ego. Me perdi nos labirintos de Anima enquanto eu lia e conversava sobre e com ela, enquanto ela me confundia e desorganizava. Permaneci semanas, meses mergulhada na neblina que Ela costuma liberar para se ocultar das racionalizações, para escorregar para longe das reduções e assim se manter viva, mutável, misteriosa e inacessível, disponível apenas por meio das imagens. Fui até reler “O morro dos ventos uivantes” e pedir ajuda à louca da Catarina, que sempre me vale nessas horas. À parte isso, honro a resistência do meu ego racional, que aguentou o tranco, não surtou de insegurança e aceitou mais essa iniciação humilhante e amplificadora. Agradeço de coração a esse Odisseu medroso e magricela, porém resiliente, por ele ter agarrado na borda com firmeza e evitado mergulhar nas bocas triturantes de Scila e Caribdis, não ainda, não desta vez. Obrigada também a Callas, e a Medeia e Norma e Carmen e Mimi e Butterfly e Tosca… Ao acolher e reverberar tantas faces de Anima em sua transparência, você abriu mão da dimensão opaca e normal que eu posso viver, para esclarecer e enriquecer a consciência coletiva, para alumbrar minha “pequena alma vaga e flutuante, hóspede e companheira do meu corpo” (Adriano Imp.). Ontem você foi a senha para o insight. Que bom que era seu aniversário, porque certamente sua magia estava mais potente e você roçou em mim por um momento que agora guardo, no relicário do meu coração.

 

 

De novo, Oaxaca

Mulher-Esqueleto

Dançarinas na Guelaguetsa

Na iminência da chegada do dias dos mortos, espero a hora de retornar a Oaxaca. A colorida e fervilhante. A misteriosa e solene. A universal e singular. Oaxaca para onde volto de modo a me certificar de que ela existe. Ou continuar duvidando. Minha primeira noite nela, faz mais de mais de dez anos: caminhando pela rua em meio à Guelaguetsa, festival na melhor tradição mexicana, com o catolicismo hispânico, cruel, brutal e avassalador das diferenças sendo devorado por uma centena de micro-religiões, qual uma barata comida por formigas. Cada cultura, uma etnia. Cada etnia, uma língua. E um artesanato particularíssimo, divindades singulares, tradição culinária singular… Oaxaca dos deuses surdos e indiferentes substituídos pelos mortos familiares e atenciosos. Sempre que me lembro dela, é a cidade numa tela de Rodolfo Morales, com cachorrinhos pelados e alados que flutuam no céu, anjos guardiões e guias para o submundo…

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Esqueleto-Maravilha (Parte 2)

catrina

Então fui ver o filme e achei ruim. Fora esse fato incontornável (afinal gosto é gosto), se você acredita que “Mulher-Maravilha”, o filme, tem alguma remota relação com empoderamento feminino, mitologia grega, relações internacionais, moda e decoração no início do século 20, história das armas químicas e dos conflitos mundiais, tenho um único comentário a fazer: Santa Ingenuidade, Batgirl! “Mulher-Maravilha” é um blockbuster de super-herói da franquia DC que, numa jogada de marketing genialmente oportunista, manipulou o imaginário corrente para: (a) encher de dinheiro os rabos de estúdio e produtores e (b) entusiasmar incautes (atentem para o uso linguisticamente correto do sufixo de gênero neutro) que acham que feminismo é copiar o masculino e colar em cima uma etiqueta com duas bolinhas e um triângulo preto estampados (e encher de dinheiro etc). Amazonas que adoram Zeus? Oi? O galanteador-sedutor-eventualmente-estuprador que estaria hoje, no Brasil, dividindo cela com o doutor Abdelmassih, caso tivesse sido suficientemente temerário para abordar, com seu estilo, digamos, criativo explícito, alguma mortal no século 21?  Bom, temos aqui mesmo, na terrinha, alguns deuses machistas igualmente incensados por feministas, então nada de se estranhar. Entretanto é melhor não confundir fato com mito, muito menos pastiche com narrativa mitológica. As amazonas originais, as legítimas, adorariam sim é capar Zeus, caso tivessem alguma chance. Ártemis, a deusa que justificou minha existência naquela pífia entrevista, mesmo sendo uma das filhas favoritas de Zeus, não ia gostar nada nada nada de se ver, mais do que preterida, ignorada pelas moças belicosas que deveriam prestar-lhe culto. Her heart belongs to Daddy, mas cada qual com seu eleitorado, certo? Tá bom que deram o nome latino de Ártemis à mocinha, mas em Diana morreu a referência. Mais ainda porque essa Diana não é princess: é Prince, ou seja, macho pacas. Por falar em pai e filha, como se reproduzem as amazonas do filme? Por partenogênese? Quero também deixar registrada minha denúncia: não vi nenhuma amazona asiática, o que denota clara discriminação étnica por parte do pessoal do casting.

Em suma, o imaginário da Mulher-Maravilha é tão heroico quanto o de Thor, Superman, Batman, Capitão América e outros paladinos malhados e descompensados, cujas sagas-clichê abarrotam de ouro as guaiacas dos magnatas-alfa de Hollywood. Na cartilha deles, lucrativo é agradar aos habitantes da curva. Então distribuam-se porradas, explosões e golpes, aumente-se exponencialmente o volume, tudo isso com fundo de pastelão histórico-mitológico. A curva haverá de pagar ingresso, comprar pipoca e corcovear de gozo. Duas honrosas exceções recentes: (a) “Batman-Lego”, o melhor filme de super-herói dos últimos tempos, e (b) “Doutor Estranho”, que tem na personagem hierática e impenetrável de Tilda Swinton uma figura de mentora de heróis à altura de Palas Atena. Fora o Benedict Cumberbarch (confessa a “cumberbitch” aqui), encarnando o médico fodão que vai da hybris à miséria, reenviado aos próprios limites, e precisa se reinventar por completo. Em “Batman-Lego”, a fragilidade do protagonista sociopata, imaturo, mascarado e blindado fica ainda mais evidente na presença da fofa Barbara Gordon, uma mulher competente, resiliente, corajosa e sensível, engajada na proteção da polis. Querem ver filmes feministas de super-herói? Vão assistir Batman-Lego e Dr. Estranho, que falam de parceria entre os opostos e não de sectarismo idiota. Quanto à Diana Prince a mocinha vivida na tela pela linda Gal Gadot,  ela é eclipsada sempre que entra em cena a deliciosa sufragete Etta Candy, secretária do bonitón. Aliás, me lembrei da Barbara Gordon do Batman-Lego quando vi a Etta. Para mim, a Mulher-Maravilha da hora não passa de mais uma campeã do patriarcado, como tantas que abundam nos dias de hoje no mundo, guerreiras armadas com a espada luminosa da razão, um falo alentado e cortante que se compraz em fragmentar o mundo numa miríade de campos de batalha. Com seus traços perfeitos, seu romance meloso com o irresistível “capitão Kirk” e sua vistosa blindagem azul e vermelha, quase fundida ao corpo escultural, Diana Prince só empodera estúdio e franquia. E diverte, claro, aos fãs do gênero. Nada além disso.

Esqueleto-Maravilha (Parte 1)


Semana passada, me ligaram de uma emissora de TV, pedindo uma entrevista sobre a Mulher-Maravilha, que anda bombando nas bilheterias. Eu disse que não tinha visto o filme e, se me quisessem, tinha de ser com meu background vintage: os gibis dela, que meus primos mais velhos me repassavam, orelhudos e gastos (eu preferia Cripta, mas OK, a cavalo dado não se olham os dentes) e o seriado da TV nos anos 1970, com a mulherona Lynda Carter vestida de bandeira dos EUA. A pessoa do outro lado da linha topou, talvez por falta de opção melhor. Pesquisei por alto o filme no Google e vi o trailer: um começo paradisíaco – corta – seguido de porradas, efeitos especiais, voos, saltos ornamentais, golpes de espada, pancadaria, explosão, enfim, mais do mesmo. Na manhã seguinte, bem cedo, um trio educado e eficiente baixou na minha casa. Sugeri uma pauta à repórter, que ela aparentemente topou: será mesmo motivo de comemoração para as mulheres que uma mulher seja aceita no clube do Bolinha um tanto constrangedor dos super-heróis, para fazer tudo exatamente do jeito que eles fazem? Bem que podia ser a Edna Moda de “Os Incríveis”, para renovar aqueles figurinos ridículos, pensei mas não falei. Conversamos eu e a repórter sobre minhas impressões, retocadas com pinceladas de mitologia, ligeiras menções à teoria dos arquétipos de Jung, saltos de patins sobre a jornada do herói de Campbell… Então despachei o povo e saí para trabalhar. Pouco depois do meio-dia, uma amiga me mandava uma filmagem caseira, feita da tela da TV. O tom comemorativo da reportagem era evidente. A Mulher-Maravilha celebrada como campeã do empoderamento feminino!!! Poderosaaaa!!!! Guerreiraaaa!!!! Gostosaaaa (ooops… foi mau)… Enfim RÁ-TIM-BUM! Entra minha parte: um miserável farrapo de quinze segundos, se tanto, em que eu explico que Diana era o nome latino de Ártemis, deusa grega da natureza selvagem, solteira, independente, avessa ao masculino. Corta rápido a velhota que fala de coisas velhas! Seguem-se imagens das HQ, alternadas a duas generosas aparições da jovem e descolada especialista em Mulher-Maravilha, sentada entre almofadas de Mulher-Maravilha, cercada de memorabilia da Mulher-Maravilha. Entendi tudo. Complexidade não rima com grande mídia, esse Tifão que fala ao mesmo tempo duzentas línguas em vozes tonitruantes e assim ameaça dissolver o cosmos no caos. Um cara mais aflitivo que informativo esse Tifão, e nada nada nada formativo, convenhamos. Me perguntei: o que de bom eu esperava de uma coisa feita entre oito da manhã e meio-dia? Perdi meu tempo, pensou meu ego-fodinha. Ganhei um tema, repensou a Mulher-Esqueleto, o oposto complementar da Maravilha e a mentora sombria do meu ego-fodinha. Foi então que decidi contar minha versão, pelo buraco escuro da boca da Mulher-Esqueleto. Vou assim tentar acalmar os amigos revoltados com o mesquinho quinhão que me destinaram as Moiras da Grande Mídia. Continua depois de eu ver o filme…

 

 

 

 

Emily e Paterson: dois poetas e um mistério

Duas idas ao cinema num único fim de semana. Luxo. Fora dois filmes legais na Netflix, “Bem vindos a Marli-Gomon” e “Uma viagem interior”, despretensiosos, tocantes, profundos. No cinema, a poesia, seu eros, sua pulsão de morte. “A Quiet Passion”, de Terence Davies, um recorte da vida da poeta Emily Dickinson, que trocou a intolerável incompletude da realidade (até mesmo a do seu pobre corpo) pela perfeição imperiosa da poesia. “Paterson”, de Jim Jarmush, uma semana na vida de Paterson, poeta e motorista de ônibus, homônimo de uma cidade feia. E também repleta de uma beleza fugidia, esquiva que, para ser vista, precisa de olhos atentos, cada vez mais raros num mundo de cegos virtuais. Nos limites estreitos de seu cotidiano, Paterson  bebe direto na fonte da poesia. Já Emily mora nela, em sua voragem, em seu fulgor. Costura caderninhos como uma adolescente e abandona até mesmo os passeios no jardim, para punir a vida de não ser impecável como sua obra. Para Emily, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Paterson tem um caderno só, e corre o risco. Para Paterson, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Os dois me lembram Pessoa, cada qual do seu jeito. Emily escreve no meio da noite, na mesa da sala, à luz de um lampião, com autorização paterna. Paterson escreve em cima do volante e no porão, mas principalmente na cabeça. Escreve não menos confinado que Emily, embora livre para transitar. Escrava de uma poesia perfeita e de um mundo puritano e claustrofóbico, Emily não consegue se abrir para o amor exógeno, a não ser como fantasia. Exigente, rígida, reclusa no universo circunscrito pelas paredes da casa familiar, ela exclui o mundo exterior de sua experiência. No entanto, esse mundo ressurge, glorificado, nos poemas dela. Paterson é todo amor e encantamento para com as miudezas que refletem o brilho de seu garimpo interno. Ele ama tudo, as fábricas desmanteladas, as ruas tomadas de mato, os passageiros banais e suas conversas, o percurso diariamente repetido, a pé até a garagem e depois, rodando pela cidade em seu ônibus, os recortes na parede do bar aonde toma a cervejinha de todas as noites… Paterson só não ama o buldogue Marvin, com quem tem de dividir a atenção de Laura, sua deusa volúvel e distraída. Paterson circula, risca cruzamentos, pula de um polo a outro, sente compaixão do pobre Donny, sempre à mercê dos azares da existência, encontra poetas incomuns como ele. Na vida, Emily estagna feito sua Rã, só que sem as palmas da Lama, que ficam para a inatingível posteridade. De cada um, a poesia exige um sacrifício igualmente incomensurável. O de Paterson, a vida abranda, até porque ele se volta para ela em busca de consolo. Para Emily, resta o holocausto. A poesia devora sua vida por completo.

PS – Nota zero para Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar, que ignoraram essas duas pequenas maravilhas não engajadas em militâncias raivosas. Não honrar, com uma menção que seja, o trabalho primoroso de Cynthia Nixon (Emily) e Adam Driver (Paterson) é, no mínimo, melancólico.

A rainha de todos os bullies

Um jovem amigo me indicou uma série da Netflix, chamada “13 razões”, sobre uma garota de high school que se suicida e deixa 13 fitas gravadas, destinadas a um grupo de colegas, sobre os motivos de sua demissão sumária desta vida. Larguei a história no quarto episódio, antes mesmo da quinta razão. Não porque o seriado seja forte demais, ou por causa do tema espinhoso. Raramente desisto de um bom enrêdo por motivo de desconforto simbólico. Desisti das “13 razões” porque a protagonista e seu corolário de adolescentes babacas e adultos adolescentes babacas me irritaram até o limite da razão. Quase morri de tédio de ter de testemunhar seus infindáveis mimimis, sua fragilidade auto-induzida, sua agressividade fashion e suas neuroses enjoativas. Que mala sem alça de rodinhas quebradas e zíper enguiçado, a tal suicida com treze razões que não somam uma! Não tenho nada contra o suicídio, ao contrário, acho que pode ser uma saída digna e legítima de uma vida que insiste em embotar ao invés de desabrochar. Agora se matar para botar a culpa nos outros de não saber o que fazer com a própria vida me parece um negócio pra lá de idiota, além de muitíssimo perverso. Perversa, aliás, é um adjetivo que cabe como uma luva na protagonista. Manipuladora, paranoica, mimada e histérica para citar cinco qualidades que me assomam à mente sem nenhum esforço. Poderia haver alguma nobreza na saga de Hannah, algum busca interior relevante, alguma razão minimamente substanciosa para seu ato extremo, como por exemplo, uma sensibilidade agredida e violada pelo coletivo, ou mesmo uma desilusão, como a do jovem Wether de Goethe ou da Ana Karenina de Tolstoi. Mas, acredite, não há nada que conceda um mínimo de peso trágico à decisão da garota, ainda que para torná-la verossímil. Hannah, tão esperta, cínica e articulada, tão sobeja de high-tech e recursos, é também incapaz de se defender, de identificar a empatia ao seu redor e de encontrar força e escuta num grupo de aliados. Fato é que, antes de decidir-se pela opção radical, ela não experimenta nenhuma alternativa intermediária. Assim Hannah profana a dor de um verdadeiro suicida com suas razões que são, na verdade, meras racionalizações tingidas de sentimentalismo com sabor artificial de morango. Onde, aliás, a razão se excede, o instinto se ausenta. Seu suicídio é uma abstração calculada para incomodar o alheio e por isso mesmo, não me comove em nada. Essa é a parte verdadeiramente trágica de seu caso. Não consegui ver o seriado inteiro, mas posso testemunhar um desfilar interminável de chororô superficial, um déficit crônico e generalizado de resiliência, um egoísmo feroz associado ao descaso absoluto com o outro, praticados tanto pela protagonista vitimada quanto por seus supostos algozes, todos eles transformados em vítimas pela grande bully onipotente que Hannah se torna depois de morrer. Parece, aliás, que ela só se suicida para poder praticar bully impunemente. Os bullies sempre existiram, desde Caim, e sempre representaram algumas das muitas provações pelas quais temos de passar para nos tornarmos mais fortes. Eles não desaparecerão do mundo por força de nossos esforços prestimosos para nos tornarmos criaturas de pura luz índigo. O que não mata fortalece, na versão de Nietzsche, e engorda, na de minha mãe. Abatida pela fragilidade extremada das crianças de cristal que caracterizam o espírito de nossa época, Hannah não encontra força para viver. Contudo a morte a torna poderosa. Ainda não atinamos para o fato de que os bullies vicejam, em nossas famílias, escolas e empresas, porque nossa cultura ama a agressividade, a independência, o poder, porque cultuamos heróis e guerreiros, os supremos bullies, aqueles que não desistem nunca, que impõem seu desejo ao outro e são amplamente admirados por isso, que justificam, na violência do outro, sua própria violência. Guerreiro é elogio e bullying é proibido, entenderam a contradição? Também sempre existiram e continuarão a existir as vítimas crônicas, que fantasiam as estações de seu calvário privado e disso tiram prazer e sentido para suas vidas, prontas a responsabilizar outras pessoas por seus perrengues. Masoquistas podem se tornar, e frequentemente se tornam, competentes sádicos. Um forte sadismo percorre a lenga-lenga da ex-masoquista Hannah nas fitas. Suas confissões, prescrições e julgamentos são ditados com voz fria, clara e objetiva, num tom distanciado, irônico, assustador quando se pensa no contexto. Não, Hannah não soa abalada com a execução gradual de seu “projeto”. Ela recusa a tecnologia digital “malévola”, marca de sua geração, elegendo um gadget inofensivo como mídia “ingênua” para transmitir seu testamento. Ela é criativa. Ao microfone, ela dita instruções precisas aos que ousaram fazer-lhe “mal”, voluntária ou inadvertidamente, não importa. Todos vão pagar. O poder está em suas mãos agora. Nas fitas, Hannah premedita a própria morte com gélido autocontrole, como forma de vingança infantil, irreparável. Assim ela se torna a rainha de todos os bullies. Em “13 razões”, o sentimentalismo corrói os sentimentos verdadeiros e a comunicação se confunde com o discurso ágil e ácido dos defensivos crônicos, que saem correndo assim que a iminência de um diálogo verdadeiro se desenha no horizonte. Os adultos da série são de um ridículo que, infelizmente suspeito, espelhe em muito a atual realidade. Dá pra imaginar uma mulher de 40 e tantos anos e um diretor escandalizados com as coisas escritas na parede do banheiro de uma escola de ensino médio? Oi? Onde vocês estudaram? Em Marte? Uma história ruim, e pior que isso, equivocada, travestida de intenções solenes, que já vejo sendo considerada “uma sensível reflexão” etc. Temo, aliás, que nossa cultura, tão ciente de si quanto inconsciente de si, ache que a história meia-boca da chatíssima Hannah acrescenta alguma coisa ao já indigente debate sobre bullying. O que Hannah vive na escola bem poderia ser experimentado como uma educação sentimental, em épocas menos esquizofrênicas, com a mocinha aprendendo a amar e sofrer e se tornando mulher adulta no percurso. Nada disso. Ninguém pode sofrer hoje sem dia. Sofrer é politicamente incorreto. É violação dos direitos humanos e, se Deus bobear, vai ser eleito o Bully Supremo e denunciado nas redes sociais. Um elogio do individualismo pueril, do sentimentalismo barato, da auto-vitimização como valor a ser cultivado, “13 razões” é uma grande, cara e superestimada porcaria. E Hannah, uma Hello Kitty zumbi.

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