Natal

Cansada demais para escrever coisas novas, reitero este post para o Natal de 2016. Continua valendo! Beijos.

Mulher-Esqueleto

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Para as matilhas, com amor.

Tenho horror ao natal. Acho uma festa brega, vazia, redundante, tola, desalmada, superficial, convencional, hipócrita. Para começo de conversa, não vejo graça nenhuma em comemorar o aniversário de Mitra, um deus persa da guerra adorado por soldados e gente belicosa, mais chegada em Marte do que em Vênus, na velha Roma dos césares. Dia 25-12 é o dia dele, do retorno do Sol Invicto, caso o padre da sua paróquia ou o pastor da sua congregação ainda não tenham te contado (na verdade, a maioria deles sequer foi informada disso). Os patriarcas da igreja decidiram surrupiar a data para nela comemorar o nascimento de Jesus só porque Mitra era um cara muito popular e o povo costuma ser pra lá de distraído em questões de pilhagem do imaginário. Desvestir um deus para vestir outro sempre foi moeda corrente na velha Roma dos papas. Fora o fato deveras convincente…

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O Enforcado e Calígula

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Nosso grupo de estudos do tarô mitológico teve de rearranjar a data do encontro mensal, em função de feriados e ausências previamente anunciadas. O arcano maior do mês de novembro é O Enforcado, uma das imagens que mais tememos e rejeitamos no tarô, como se ela não tivesse nada a ver com nossa condição de pendurados pelo pé de cabeça para baixo. Enquanto esperávamos para encarar essa metáfora do desconforto e da precariedade do humano no mundo, o resultado das eleições americanas parecia fragilmente assegurado por nossas superestimadas estratégias de racionalização (do lado dos democratas, é claro). Projeções, pesquisas de intenção, estatísticas, os números aos quais o ego coletivo rende um culto quase insano de tão racional, separavam os dois candidatos por um fio de cabelo. Era empate técnico, mas Hillary aparecia à frente. Há quem a acuse de ter sabotado, por orgulho e teimosia, uma vitória democrata, já que tem grande índice de rejeição devido à história de Benghazi e aos famigerados emails. Eu, de minha parte, acho que o Império prefere ter um louco a ter uma mulher ocupando a Casa Branca. Pode oligofrênico, pode preto, mas mulher não pode. A folha corrida de Hillary, que nunca foi santa (e se até Madre Tereza teve seus podres…), não pode de modo algum ser pior que a de Calígula, certo?

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Errado. Calígula venceu porque não estamos falando de uma razão lógica que compara folhas corridas. Quando falamos de política, religião e futebol não estamos realmente falando de religião, política e futebol mas de arquétipos, deuses ou forças psíquicas, escolha o seu, cujo poder criativo-destrutivo desconhecemos, muito embora elas rejam, de fora e de dentro, nossas pobres vidinhas microscópicas. Movimentando-se fora da percepção racional do ego, o individual e o coletivo, essas forças transpessoais irracionais o destruirão se forem mantidas inconscientes, tal como fizeram com o ego germânico, entregue ao delírio de poder nazista (nem vou tocar na hybris do ego lulopetista porque ela está demasiado próxima no tempo e no espaço e ainda tem entusiasmados apoiadores). Isso a menos que o ego as reconheça, integre em sua vida consciente e recolha-se, modestamente, a sua insignificância. A vitória de Calígula é, pois, a vitória previsível e o retorno reiteradamente anunciado da Grande Sombra Americana, o chorume pestilento que escorre aos borbotões e fora da vista do lustroso ego heroico instalado no topo, para se aninhar nos desvãos mais baixos e sórdidos da vida psíquica dos cidadãos da maior nação do mundo. Já disse Jung: quanto maior o ego, maior a sombra. Venceram a KKK, o Tea Party, os rednecks, o white trash em grotesco conluio com o establishment wasp? Será essa criatura o fruto mal formado de um casamento, celebrado numa capela cafona de Las Vegas, entre a obesa mórbida loira e desempregada, mãe solteira depressiva e o ruivo aristocrata descendente dos peregrinos do Mayflower, pedófilo e gay enrustido?

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Fato é que foi a sombra do Império que venceu as eleições (e não pela primeira vez), o que deveria mobilizar toneladas de reflexão retardatária por parte dos mocinhos perdedores. Infelizmente, porém, eles já devem andar atolados no charco raso dos debates sobre as causas econômicas, sociopolíticas, étnográficas, demográficas e históricas da derrota. Terão os crentes da América por fim entronizado o Anticristo, a fim de que ele apresse o Armagedon e convoque o apocalipse? Aliás o apocalipse já está aí, ou a “revelação”, que é o que significa a palavra grega. Algo tremendo foi revelado como mais um resultado do longo processo de formação do imaginário americano, processo e imaginário que devem permanecer ignorados e subestimados pela gloriosa America pensante. Fiquemos, pois, e como sempre, com os resultados, adiando o encontro com a sombra e desse modo preparando a chegada de futuros Calígulas, se esse não apertar o botão do fim do mundo. O que nos aflige é tão somente imaginar que mundo ocupará o lugar desse que hoje morreu. Então volto aqui ao nosso arcano de novembro, que previu sem que perguntássemos o tipo de energia que estaria regendo o dia de hoje e que deve reger os próximos dias, meses, quicá anos, se os houver. No tarô mitológico, ele é representado por Prometeu, o titã que presenteou o fogo aos homens e por isso é tido como benemérito protetor da humanidade. Pai dos homens, a modelagem em barro de nossa espécie mal cozida foi encomendada a ele e ao irmão Epimeteu pelo grande Zeus, que não queria sujar as excelsas mãos com porcaria. Num trocadilho óbvio demais, Prometeu é o sujeito que promete. Isso faz dele, na prática, o padroeiro de todas as campanhas políticas. Assim qualquer sujeito arrogante o bastante para vender soluções ao alheio a troco de transferência de poder e usando as fragilidades e inseguranças desse alheio como estratégia para manipulá-lo a seu próprio favor, será um indivíduo prometeico, não importa se de direita ou esquerda, democrata ou republicano, conservador ou progressista, corinthiano ou palmeirense e toda essa baboseira dualista que persistimos utilizando para tentar explicar o que não se explica.

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Etimologicamente Prometeu é aquele que pensa antes, o que não o impede, contudo, de cometer erros titânicos ou até mesmo o leva a cometê-los, por excesso de autoconfiança, orgulho e prepotência. Na carta, ele pende, acorrentado de cabeça para baixo num rochedo, no topo do monte Caúcaso (é bom lembrar que nem todo topo é um pódio). Desafiou Zeus e está sendo punido por seus excessos. A águia olímpica vem devorar seu fígado durante o dia. À noite, o órgão se regenera, na genial intuição metafórica do mito grego. O Enforcado cai como uma luva para o dia de hoje. Serve para Hillary e os democratas, serve para o mundo virado de cabeça para baixo e refém de um demente que terá ao alcance de suas mãozinhas hipotrofiadas o controle da maior máquina de guerra do planeta, serve para o próprio demente, que mal ou bem terá de se haver com a imensidão da sombra que mobilizou para consagrar-se. Tudo o que é titânico pede para ser afundado, disse o junguiano Glen Slater numa palestra linda e profética. Nossas ideologias políticas e religiosas, bem como nossa medicina e tecnologia, são titânicas em sua pretensão ilusionista de construir paraísos artificiais em lugar de ajudar as pessoas a lidarem com o aqui e agora da realidade concreta. Não importa se mal ou bem intencionado, o titanismo nos convence de que é possível erradicar o polo negativo da experiência de viver: a dor, a pobreza, o sofrimento, o desemprego, a velhice, a morte. De uma perspectiva menos lógica e mais mitológica, e ainda de acordo com Slater, quando os titãs estão no comando, eles expulsam os deuses, os portadores do mistério cuja evocação pode aliviar nossas compulsões de perfeição e controle, as figuras de nossa imaginação que contêm a razão, em sua sanha por criar paraísos impossíveis, e a reenviam aos próprios limites. A possessão titânica, por sua vez, expulsa os deuses para presentear o mundo à humanidade na forma de uma idealização inatingível, como se essa dádiva não tivesse uma apavorante contrapartida. “O mundo existe para servi-los, meus filhos, e não o contrário”, eis a afirmação dele que melhor seduz os incautos. Neste momento em que o arquétipo do Pai está gravemente mutilado na psique coletiva, Prometeu vem encarnar uma figura de Pai permissivo e perverso, em sua afirmação irrestrita do desejo dos filhos, não importa o quão perversos eles mesmos sejam, até porque é nele que se espelham. Arrogância, prepotência, radicalismo, excessos, desrespeito à diferença, hybris, priapismo, orgulho, vaidade e paranóia são atributos que podemos odiar em Calígula, mas que seus devotos aprovaram incondicionalmente nas urnas. Prometeu personifica o pai-titã que engole os filhos para que eles se sintam protegidos, ainda que cegos e imobilizados, no interior de sua alentada pança. Assim ele os impede (em prol de seus interesses) de se desenvolver. E nisso Calígula está longe de ser um caso isolado. Mas é certamente o mais visível.

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Fantasmas

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“A colina escarlate”(Crimson Peak, 2015) é meu tema do Dia dos Mortos deste ano e o filme mais recente de Guillermo Del Toro, mexicano que ocupa um lugar de honra no meu panteão de diretores arquetípicos. Um genuíno filme de fantasma, coisa que Del Toro sabe fazer como poucos hoje em dia, com sua fina intuição para o manejo da metáfora. Se você tem medo de fantasma, não assista. Mas se, como eu, os fantasmas ressoam no seu mundo interno, coragem. Você não vai se arrepender. O filme recupera o melhor da tradição literária gótica vitoriana, seja na construção dos personagens, seja na estruturação da narrativa,  seja na ambientação pesada, opressiva: climas, adereços, figurinos e cenários, tudo coopera para espelhar a alma e seus labirintos. Do começo ao fim, permanecemos dependurados de cabeça para baixo, no fio tenso de um bom paradoxo. O Feminino encarna o agente redentor-destruidor do Masculino e, nesse sentido, “A colina” é uma maravilhosa história da parceria e mediação entre opostos-complementares, vivos e mortos, mães e pais, irmãos e irmãs, ego e inconsciente, razão e loucura…

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As fantasias favoritas de Del Toro retomam aqui, com a sensibilidade e a profundidade usuais – e sem maneirismos desnecessários -, o tema do feminino assombrado que inicia uma mulher ingênua nos mistérios do amor e da morte. Um pai superprotetor expõe a filha ao predador, enquanto seu amor por ela igualmente a provê de um animus que, despertado pelas circunstâncias, se revela excepcional. Uma mãe boa e frágil retorna da morte para revelar um importante segredo à filha, segredo que ela mesma acessou ao cruzar o portal, mas que a filha ainda não tem elementos para compreender. Outra mãe, longeva e devorante, investe inadvertidamente numa sucessora ainda mais mortífera. Um homem frágil é assujeitado por uma devastadora anima negativa. Um casamento infernal e outro, celeste, acorrentam os noivos numa tragédia de proporções míticas. Um oftalmogista que acredita no invisível vê o que está posto diante dos olhos, mas que os outros não conseguem enxergar. A natureza se rebela contra a máquina. Aliás a tecnologia aparece como coisa muitíssimo mal assombrada, pura verdade.

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A história fala das fantasias do estilo gótico novecentista como uma reação da imaginação à desolação que a Revolução Industrial impôs à Alma do Mundo, uma reação tão frágil quanto eficaz, porque é na alma que ela se instala. E a alma confronta, com suas fantasias terapêuticas, a sombra da ciência, da indústria e da filosofia positivista. Mais do que tudo, “A colina escarlate” me levou de volta a “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brönte, um dos livros da minha vida, numa viagem de revisão que me esclareceu sobre os motivos do apreço que tenho por fantasmas.  Eles nos assombram e afligem, penso eu, porque são, na essência, mensageiros do inconsciente que assediam o ego para alertá-lo de grandes perigos e ajudá-lo a tomar consciência de algo muito sombrio. O ego, contudo, se defende como pode das coisas que não quer saber.

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A forma fantasmagórica aterroriza o ego, embora não haja nela uma ameaça real, ao contrário. Os fantasmas pretendem revelar um estado de coisas intolerável deslocando o sujeito da zona de conforto, forçando-o a encarar uma realidade que clama por mudança, uma lealdade tóxica, um segredo que apodrece dentro dele. Assim o fantasma de Catarina de “O morro” vem pedir ao Sr. Lockwood tão somente uma escuta para sua história, um pouco de compaixão e ajuda para libertar-se e libertar a vida, ajudando-a a retomar seu curso. “A colina” remete a “O morro” até mesmo nas referências à topografia. Se você subiu numa, pode se arriscar a escalar o outro. Sua alma vai agradecer por mais esse fantasma.

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“Um elogio da traição”

Achei o tema propicio ao momento e reprisei. Beijos!

Mulher-Esqueleto

solve et coagula

Hoje é Sábado de Aleluia. Dia de malhar o Judas, na tradição do cristianismo popular. Para mim, dia de meditar sobre o traidor necessário. Ou ainda sobre os poderes misteriosos e imprevistos da alma imoral, como chamou o rabino Nilton Bonder à libido que confronta o estabelecido para renovar a tradição ressequida e quebradiça, ao ousar traí-la. Malhar o Judas é não só um símbolo muito eloquente de nossa tendência a tentar inutilmente excluir a sombra das cercanias do ego. É também uma evidência do estado crônico de inconsciência desse mesmo ego que, quanto mais bem informado, mais equivocado. Malhamos o Judas fora de nós para não entrarmos em contato com aquela voz que, dentro de nós, sussurra que, sem Judas, não haveria cristianismo, talvez sequer houvesse um Jesus. Aos obsedados por finais felizes e premiações celestes, congelados na expectativa de que um deus ex-machina venha resolver os problemas que nós mesmos criamos, Judas aparece…

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Afrodite Go!


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Ouro, prata, bronze, sangue, suor e lágrimas. Rafaela, Robson, Thiago, Isaquias, Maicon, Rafael, Felipe, Mayra, Poliana, Artur, Diego… Na alquimia dos metais olímpicos, não tem almoço grátis e a meritocracia é o Dharma, a Grande Lei Geral. O espírito olímpico é o contrário do coitadismo bolsista sem contrapartida que assola o país e reinventa o coronelismo, agora mais à esquerda. Nas Olimpíadas, estrelas só mesmo os caras do futebol que ou se rendiam ao zeitgeist ou viravam buracos negros. Acabaram se rendendo. Fui contra essa Olimpíada desde o começo. A Olimpíada que nunca foi do Lula. Nem dele nem da Dilma nem do Temer nem do Paes nem do COI. A Olimpíada foi do Brasil dos campeões que trabalham, pagam imposto, fazem trabalho voluntário e se divertem sempre que podem, do Brasil dos campeões da Lava-Jato e das ONGs bem tocadas por gente honesta e inspirada. A Olimpíada foi a glória justa e tardia dos brasileiros pretos pardos pequenos pobres mas também dos brasileiros brancos amarelos louros morenos de olhos castanhos verdes azuis, todos valorosos disciplinados esforçados irredutíveis apaixonados.

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A Olimpíada foi o discurso incontestável, sem palavras porque nem precisava, dos sem ideologia com propósito. Fui contra a Olimpíada e, no entanto, me rendi à Beleza do Corpo no poder. Me deixei arrebatar e subjugar completamente pela Beleza no poder. Me tornei devota da estética ética da Olimpíada, com aquele cenário absurdo de lindo ao fundo, Rio de Janeiro, como eu gosto de você! Até a mentira dos nadadores americanos virou a nosso favor, que anedota feliz e necessária para belos viralatas como nós, mestiços sem raça que ainda não abarcamos a imensa vantagem genética dessa condição! Os deuses nos sorriram lá do Olimpo, na mesa do banquete em que Zeus e Xangô se rendiam aos encantos de Oxum e Afrodite.

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Penso que as Olimpíadas sempre foram e continuarão a ser um portentoso ritual à verdadeira Beleza, a Beleza que vai muito, mas muito além da casca, do simulacro enganoso da aparência, do fantasma descarnado da perfeição retocada e rasa. A Beleza que fenece e pede para desabrochar em Sabedoria. Quanta variedade, que diversidade, que espantosa ode às diferenças, quantos formatos, cores, padrões, pesos, texturas, alturas, larguras, densidades, humores, estilos!

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E que infinidade de gestos, sorrisos, movimentos, penteados, dancinhas, expressões faciais, esgares, gritos, gemidos, sussurros, saudações, urros, quantas linguagens naturais ou convencionais, que comunicação mais eficaz e livre da tirania do verbo que a do corpo falando com habilidade, graça e vigor, unido no pacto indissolúvel com as almas dos atletas. O corpo-alma preciso, escorreito e ágil mas também errático, ferido e alquebrado. Tudo lindo porque íntegro: o topo e o tombo, a dor e a alegria, a frustração e o contentamento, a derrota e a vitória. E como amar um Corpo isento de contrastes? Impossível, diz Afrodite Dourada, a que banha de paixão todas as medalhas olímpicas, esposa que é de Hefésto, o Divino Ferreiro.

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Não, a escola não ensinará nada que preste enquanto não se deixar arrebatar pela Beleza, que os gregos cultuavam porque sabiam que era ela, e não a superestimada razão, o pilar fundamental da civilização. Não vai prestar essa escola ridícula enquanto não servir, de joelhos, ao Corpo e à Beleza, a que se escora na Justiça e na Bondade para se manifestar em plenitude, a genuína força civilizadora do coração humano, a alma da política que serve para servir à polis, a única vacina contra a barbárie de todos os extremismos e fundamentalismos religiosos e políticos que querem dividir para dominar. Não à toa os guerreiros do EI combatem e destroem a Beleza, ocultam a Beleza, têm pavor da Beleza. Eles estão certos. A Beleza dissolve polarizações sem se perder em debates vazios simplesmente porque ela É. Afrodite bota Ares, o deus da guerra, de quatro. E ainda tem, com ele, uma filha chamada Harmonia.

Por causa da Olimpíada, Afrodite Go virou meu APP da hora, instalado de fábrica na minha cabeça, ativado desde o nascimento, agora em versão totalmente atualizada. Que mané Pokemon, suprema babaquice! Eu quero é rastrear a Beleza no Mundo!

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P.S. para Elke Maravilha, deusa encarnada, formidável Baba Yaga que se cansou desta brincadeira e gritou “Fui!”. Elke foi uma porta-voz do Feminino profundo, naturalmente pouco aproveitada e compreendida pelo feminismo patriarcal unilateral. Azar dele. A sabedoria temperada por um irresistível senso de humor, o amor e a originalidade continuam a ser atributos dessa personalidade singularíssima, que confrontou o mundo tolo e fosco da moda e viveu para ser quem o universo precisava que ela fosse, nada mais, nada menos. Elke não deixou herdeiro/a do mesmo porte neste rincão aonde veio aportar, fugindo de Stalin com sua família. Essa devemos a Stalin. Divirta-se, amor. Aliás nem precisava dizer. Beijos.

elke bruxa

Janaína ou a Consciência Lunar

Iemanjá

Até os mais empedernidos e binários racionalistas reconhecem, ainda que pelo viés do escárnio, que Janaína Paschoal está carregada de energia transpessoal. Eles acertam sem querer, digo, os “inteligentinhos” (salve, Pondé!) , quando dizem que, em sua defesa apaixonada do pedido de impeachment que protocolou em parceria com dois venerandos juristas, Janaína evoca uma mãe-de-santo ou uma pastora evangélica em transe. Mãe-de-santo e pastora, no caso dos memes de Janaína que se tornaram virais na Internet, são termos pejorativos, claro. Os detratores da moça, contudo, não são acusados de preconceito religioso ou coisa parecida pelos militantes da boa consciência. Está tudo bem, já que se trata de um julgamento de valor emitido por aquela ala que pode, impunemente, “xingar” pessoas de mão-de-santo e pastora. Afinal seus representantes são sempre os mocinhos de uma história de versão única, repetida à náusea na tentativa de produzir verdade pela redundância.

Maat

Num nível mais profundo do que o da casca das ideologias, porém, Janaína revela certos atributos arquetípicos que a tornam imprescindível como força de equilibração de um imaginário descompensado, manifestando assim uma energia que Bachof e Jung chamaram de “consciência lunar”. Começa que Janaína assume, sem constrangimento algum, tanto sua emotividade quanto seu fascínio pelo mistério. As feministas a agridem porque ela é feminina e não tem vergonha disso, mas principalmente porque ela se opõe sem temor ao zeitgeist que divide o mundo em dois exércitos inimigos. Em suma, elas preferem defender e praticar o modo de pensar patriarcal. Essa mulherada inadvertidamente a serviço do patriarcado ainda não percebeu que é Janaína, não a presidenta, um símbolo do genuíno feminismo, nestes dias turbulentos que vivemos. É natural que isso ocorra, quando se está congelado em dualismos inultrapassáveis, conquanto também seja uma pena, um equívoco a se lamentar, porque o pensamento unilateral endurece o coração para as variações de ritmo e cega o olhar para as nuances de cor. Aliás já faz tempo que muitas mulheres não reconhecem o feminino quando o veem. Ou talvez seja assim mesmo que tenha de ser. Janaína carrega uma qualidade de loucura sagrada que emana do mesmo arquétipo que, noutro contexto, com carga mais poderosa e consequências mais trágicas, pôs em movimento a formidável Joana D’Arc. Como Joana antes dela, Janaína se predispõe a ser caluniada, enxovalhada, julgada bruxa em defesa de um ideal, podendo mesmo, em nome dele, ser calcinada na fogueira de uma militância puritana e hipócrita. Como se deu com Joana, o valor de Janaína há de ser reconhecido mais adiante, pela revisão de uma Historiografia não aparelhada e aberta à complexidade das forças que nos vivem, coisa rara, mas não impossível de acontecer.

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Interessante que Janaína é o outro nome de Iemanjá, a senhora das águas da mitologia iorubá. Essa ressonância mítica pode ajudar a esclarecer, num nível mais analógico que lógico, mais imaginativo que racional, porque uma xará de tal orixá não se envergonha de exibir emoções e sentimentos em público, até mesmo derramando, em entrevistas, lágrimas que não parecem ser de crocodilo, sem se preocupar com os/as chauvinistas que a qualificam de histérica. Sim, Janaína tem útero, se é isso que eles e elas querem dizer, coisa que, para Freud, era um defeito de fábrica sem direito a recall. Tem útero, cabelos negros longos e desalinhados e um estilo personalíssimo, que pode incomodar mais pela autenticidade do que pela obediência à moda. Sim, ela chora pela mulher que quer “impichar”, com quem travou contato em dias melhores e de quem teve, àquela época, a melhor das primeiras impressões.

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Refletindo mitologicamente, Janaína e sua demanda também me remetem a duas deusas do panteão egípcio: Maat e Seckmet. A primeira é a deusa da Justiça, mas de uma justiça vinculada ao Direito Materno, à Lei do Coração. A segunda, representada com corpo de mulher e cabeça de leoa, encarna a justa indignação e preside a guerra que defende o país contra invasores externos. Quando mobilizada, Janaína arranja e rearranja a cabeleira, o que me faz lembrar de Sekhmet. Quando prende a juba com um grampo, ela me faz lembrar Maat, que usa uma pena de avestruz espetada no cabelo negro e liso. Essa pena não é um enfeite inócuo, mas o símbolo dessa deusa, e serve de contrapeso para a balança em que é disposto o coração do morto, no julgamento derradeiro. Ademais, Janaína também me remete a grega Palas Atena, filha de Zeus (os “pais” e mestres que dividem com ela a demanda), padroeira da polis e de seu cuidado, a política, deusa que cuida para que os crimes sejam julgados e punidos e os miasmas que envenenam a alma coletiva, dissolvidos. Desse modo, Palas Atena protege a democracia ateniense, assim como Janaína se dispõe a defender a democracia brasileira. Sim, os detratores de Janaína temem sua autenticidade, seu destemor e por isso a desdenham. Mais que tudo, porém, intuem inconscientemente a numinosidade que envolve sua causa e transita por sua pessoa. O alinhamento pessoal de Janaína com uma verdade mais profunda ameaça a superficialidade do senso comum que a reduz a fascista, traidora e golpista. Como os gauleses de Asterix, Janaína, porém, é irredutível a estereótipos. No momento, ela está sendo cavalgada por arquétipos e embora talvez não saiba disso, quero crer que ela tem integridade suficiente para aguentar o tranco.

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Um vilão para chamar de seu

“Quando estou com você / quero ser o tipo de herói / que desejava ser / aos 7 anos de idade / um homem perfeito / que mata.” (Leonard Cohen)

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Ele é prático, conveniente, super-aderente, impermeável e fácil, muito fácil de sujar. Na verdade, ele já vem imundo, o que facilita a sua vida. Que sujeito mais útil e funcional! Quanta generosidade perversa! Que serviço inestimável ele presta ao nosso herói favorito, o ego! Todo ego, aliás, tem sua trupe particular de vilões, qual uma companhia mambembe de teatro. Sem vilão, não tem enredo nem catarse, o público não se envolve, impedido que é de se identificar com o mocinho. Nada como um vilão para fazer contraste com aquelas personagens que adoramos ostentar, o santo, o politicamente correto, o idealista que não cresceu, a jovem encruada etc. Acoitado num desvão do nosso bom-mocismo, o vilão é mantido e remunerado por algum recôndito caixa 2 do ego a quem faz falta um bom espelho. Para não ter de lidar com a própria porcaria, tenha sempre um vilão à mão. Receptivo, reflexivo, acolhedor de toda a sujeirada que você não tem a menor intenção de reconhecer como sua e com a qual não tem a mínima vontade de interagir, um vilão pode ser uma tela complacente e leniente, um aterro sanitário na frente do qual sempre se pode estender um lindo cenário pastoril, uma paisagem marinha, até um afresco da Capela Sistina. Sobre o vilão, o herói projeta, sem maior esforço, aqueles pecados inconfessáveis que corroem seu eterno coração de estudante, atributos e incidentes de percurso que não ornam de jeito nenhum com perfis do FB. Lembra do Dorian Gray? Então. O vilão dele é aquele retrato escondido no sótão, que envelhece, se acanalha e apodrece no lugar do modelo (ele mesmo). Fora do sótão, que Dorian mantém trancado, e para a torcida, ele continua a ser o moço lindo, cosmopolita, sempre jovem, o galã elegante e sedutor que faz o que quer e debita as próprias malvadezas na conta do retrato, inacessível ao olhar alheio.  Contudo a maior vantagem que um vilão oferece ao herói é poupá-lo de, de tempos em tempos, morrer e se transformar. O vilão nos protege da consciência que só tomamos por meio da responsabilização por quem somos e pelo que fazemos, ele nos blinda contra as duras revisões da autocrítica que nos possibilitam amadurecer (não falo da autocrítica marxista, que essa só serve se for conivente com a verdade do partido). De braços abertos, com um sorriso malevolente estampado no rosto, o vilão recebe, sem reclamar, todo o chorume que escorre da estátua dourada do herói de espada em riste, adorado por todos, a unanimidade que atrai nosso olhar sempre para o alto, ainda que o fedor do chorume continue a subir do chão. Se for um vilão clássico, inequívoco, histriônico de tão óbvio, será muito, muito melhor. O vilão estereotípico, do Diabo ao Bolsonaro, passando por Judas e Darth Vader, é, mais que um subproduto, uma necessidade do nosso imaginário dualista judaico-cristão-marxista-e-capitalista. Essa herança, uma e a mesma, nos garante que precisamos de heróis ou vilões higienicamente separados, embora ambos sejam faces da mesma moeda. O vilão, porém reconhece, ainda que apenas instintivamente, e muito melhor que o herói, o imenso valor de toda a energia sombria que é desviada das almas dos bons cidadãos diretamente para ele. Falem mal mas falem de mim, é seu lema. Cuspam em mim, por favor, ele suplica, o vilão, mas façam isso em público, se possível diante das câmeras de TV e dos Iphones, para que todos vejam como somos parecidos. Quanto mais simplórios e reativos nos tornamos diante dos vilões, menos nos damos conta de que é assim que reforçamos nossas ligações com eles, ligações essas que nem precisam de grampo telefônico para vir a luz: é só observar as reações-padrão que tanto nos aproximam da vilania. Quando mais maniqueísta nossa reflexão, quanto mais puros nos consideramos, mais o vilão cresce, mais poder ele adquire, mais território ele conquista. Para o vilão, a sombra do outro é força em estado puro. Ele come o lixo que envergonha o herói, e engorda. Destinatário de tantos conteúdos coletivos inconscientes nele projetados, o vilão amealha admiração, ódio e (o que estranhamente ainda nos surpreende), também votos e apoio popular. Hitler, Stalin, Franco, Pol Pot, Pinochet, Fidel, tiranos tão idênticos na essência quanto diferentes na aparência, somente chegaram aonde chegaram graças aos utilíssimos vilões do comunismo totalitário e do capitalismo imperialista, no fundo, a mesma bisca em duas versões igualmente deletérias do mundo e das pessoas. Como também, é claro, dependem do rebaixamento do nível mental da massa que os bancou e ainda banca, mesmo depois que sua volumosa sombra se tornou pública e notória. Começaram heróis e, em tempo, revelaram sua inequívoca inclinação para vilões, embora ainda convençam os pré-púberes psicológicos que se comprazem em acreditar em Papai Noel e na Cegonha.  Essa é a parte mais interessante do vilão. Sua sedução é longeva, assim como a do herói. Não surpreende, já que ambos são arquétipos. Assim como Eros e Tânatos, o Amor e a Morte, eles são gêmeos opostos e complementares. Um sempre puxa outro, é só esperar para ver. “Triste a nação que precisa de heróis”, o clichê de Brecht, bem merece uma versão para este momento: triste mesmo é a nação que precisa de vilões para desviar o olhar dos malfeitos de seus heróis. E dos próprios.

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