Gato

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Já faz uma semana, recebi um aviso. Para ocupar o nicho da deusa rotativa que integra meu altar doméstico – uma imagem do sagrado feminino que troco a cada domingo –  veio Bast, a deusa-gata egípcia. Ela me disse com clareza, ronronando: INDEPENDENTE. Foi preciso desenhar para eu compreender. E quem desenhou foi Carlinhos, meu amado raja, nariz-de-goiabinha, lucinho-pelucinho, Caco, o mais doce, terno, meigo, delicado entre os felinos, meu bebê-gato de 10 anos. Estava muito doente desde o carnaval de 2015, com meio rim funcionando de pura compaixão por nosso apego doentio. Não morreu há três anos porque nos recusamos a aceitar a brevidade de sua linda vidinha. Internado para tratamento intensivo, Caco se enfureceu, reuniu toda a saúde da alma selvagem que nele resistia, e atacou os veterinários da UTI com garras e dentes que não sabíamos que ele tinha. Recebeu alta imediata de uma felinóloga de braços ferozmente arranhados e juramos que nunca mais o submeteríamos às torturas da ciência médica. Como bicho, ele contava com essa vantagem sobre nós, humanos. Essa foi a primeira manifestação de Bast em Caco. Faz exatamente três anos. Aconselhados por uma veterinária sábia, ela também adoradora de gatos, adotamos um protocolo de florais e homeopatias, vitaminas e um pozinho branco mágico que a gente comprava na Amazon e amigos piedosos aceitavam trazer na mala, quando viajavam aos EUA. Duas vezes por dia, eu ministrava o ritual que ele suportava estoico (Caco era um estoico da linhagem do grande Marco Aurélio). Outra devota de Bast nos ajudava a cada 15 dias, aplicando uma fluidoterapia incômoda, que o deixava aflito por fazer desaparecer depressa, com lambidas prestimosas, a bolinha de soro que crescia em sua barriga. Bobinho querido, ele vinha quando o chamávamos para tomar os odiados remédios… Os bobinhos vivem mais do que os espertos, dizia a veterinária. No final, porém, o bobinho revelou-se mais esperto que todos nós.

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Passamos dias lindos na praia no derradeiro janeiro de Caco. Ele amava a casa, o gramado, a liberdade usada com sabedoria pelos gatos, de explorar o entorno sem nunca perder o rumo da voz do dono (que imbecil inventou que gatos não amam as pessoas?). Estava feliz, comendo bem, bebendo muita água, subindo nos troncos dos coqueiros, tirando longas sonecas no beliche e em colos cuidadosamente selecionados, suportando o banho, a medicação e a antipatia de sua bully-mor, Zelda, com a mais estoica das elegâncias. Era a despedida e a gente aproveitou-a intensamente, ainda que não soubéssemos que era. E como a gente nunca sabe, melhor é desfrutar o bom e suportar o ruim com o savoir-vivre de um felino, em nome da beleza e da integridade. Foi na quarta-feira de cinzas que ele sumiu, dia ruim de uma semana cheia de más notícias e eventos funestos. Não veio para nos acompanhar no café e ganhar a tirinha de presunto, duvidoso prêmio por tomar os remédios sem cuspir. Na semana anterior, tinha começado a vomitar e havíamos incluído mais um comprimido no já extenso repertório. Ele odiou, mas suportou sem se queixar. Não veio mais tarde, acompanhar a faxineira pela casa e pedir para beber água na torneira do tanque. Não veio quando chamamos, cada um do seu jeito, com assobios e entonações variadas. Não ouvimos o barulho de sua aterrisagem no telhado, não ouvimos seu miado longo e forte, avisando: Estou indo! Choveu, esfriou e ele não veio se enrodilhar no sofá do escritório, nem me fazer companhia, embolado sobre a impressora. Simplesmente não veio. Nem à noite, nem no dia seguinte. Confeccionamos cartazetes com a foto dele, nossos celulares, espalhamos pelos postes da rua… Ele trazia no pescoço uma coleira com sua medalhinha de identificação e meu telefone gravado, então, quem sabe… Choramos, continuamos chamando, mas acentuou-se o vazio da sua linda presença rajada em nossa vida. Até a rainha Zelda inquietou-se, mas não muito. Hoje de manhã fui trocar a deusa rotativa, para a qual reservo um espaço no meu altar doméstico, entre Kuan-Yin e Notre Dame de Chartres. São cartas de um oráculo do feminino divino que ganhei de uma amiga-irmã que a vida me deu de presente. Aos domingos, agradeço à que tirei há uma semana, e sempre observo que a energia dela, a imagem dela, seus atributos me visitaram de algum modo e fizeram diferença. Medito diante dessa imagem todos os dias, uma entre deuses e mortos queridos, cuja presença não literalizo e que me aconselham e inspiram. Foi quando Bast, antes de ser trocada por Ísis, me ronronou ao ouvido : INDEPENDENTE. Irene já tinha me contado que bichos domésticos por vezes se afastam de casa para morrer, porque sua sabedoria selvagem, o instinto que perdemos, lhes orienta a não atrair aves comedoras de carniça para perto do lugar aonde viveram e das pessoas que amaram. O mais doméstico dos felinos, meu amado raja Carlinhos, foi selvagem e livre quando escolheu não ser mais incomodado por nossa ansiedade e morrer como um gato de verdade. Sua independência foi puro amor.

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Água

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O cinema é minha igreja, quem me conhece já sabe. Meu jardim também é, e o ateliê onde trabalho também, mas são igrejas diferentes, coisa de politeísta. O cinema é o templo amplo, público, repleto de gente que não conheço e que tanto pode estar em busca de uma visão quanto de um lugar pra tirar uma soneca ou dar uns amassos. É o lugar da escuridão que oculta o cotidiano banal enquanto levanta uma pontinha da cortina do mistério, o suficiente para deixar algum sentido escapar. Claro que o filme que a gente vai ver faz toda a diferença. Afinal homilia é homilia e se o pregador não presta, a gente, se sabe, nem aparece, se não sabe, puxa o carro discretamente, na primeira batatada que escuta. Se o filme é do Guillermo Del Toro,  sei que a homilia vai ser uma maravilha. Tem gente hiperrealista (do tipo que não sai do FB, sabe?) que reclama que o cinema do Del Toro é fantasioso demais. Eu já acho que fantasiosos são o telejornal e a reunião de condomínio. Claro que a fantasia de Del Toro é deslumbrante, ao contrário da lixarada do telejornal e da reunião de condomínio. A imaginação é a praia onde ele surfa com coragem, graça e competência, o lugar onde ele e o oceano do inconsciente coletivo se encontram, para fabular. Além de caprichar na verossimilhança interna, Del Toro reflete (sobre) a realidade com a profundidade de quem domina a metáfora, lindamente produzida e filmada, a mesma que nos dá acesso aos semitons da experiência e assim recusa os engajamentos reducionistas, sejam da natureza que forem. Entendo e lamento que devotos do Realismo racionalista, seja ele socialista ou capitalista, sofram de deficit de imaginação, nada mais natural. Não estão equipados para ver a A Forma da Água. Se você for um deles, aceite essa limitação, vá ler um site de notícias e me deixe em paz agora mesmo, por favor.

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Um mito. Um conto de fadas. Um filmão dos anos 1950, revisitado, desdobrado em camadas, ampliado e aprofundado. Há um deus do rio, raptado, acorrentado e violentado por um monstro pragmático e arrivista. Há também Sally, a Melusina suburbana, uma imagem pinçada direto da lenda medieval (Del To-ro! Del To-ro!Del To-ro!). Foi a música de Alexandre Desplat, bem francesinha e com direito a Madeleyne Peyroux cantando La Javanaise, que me levou direto a Melusina. Há o vizinho artista gay adorável, gateiro, que envelhece contrariado e anda à procura de um amor, nos tempos da cólera. Há a amiga da faxina diária no laboratório, faladeira, pau pra toda obra, protetora, farta do marido inútil. Essa me diz respeito porque seu nome do meio é Dalila, como o meu. E há o agente comunista, um espião-cientista mais cientista que espião, um homem íntegro que terá de fazer uma escolha afinal. Uma “comunidade de destino”, como diria Morin, todo mundo vivendo no porão do navio. Motivados pelo amor, a amizade, a “ciência com consciência”, eles desviarão o curso da narrativa, que passará de mística a heroica sem perder seu delicado equilíbrio. O monstro arrivista e pragmático é ferozmente protestante e iconoclasta. Para ele, o deus é uma abominação. Cabe a ele, Sansão, destruir esse ídolo. Acima dele na cadeia alimentar, há o general, que se orgulha de os EUA exportarem decência porque não têm uso algum para ela. E há sempre a água, turva, escura, misteriosa, insondável, imprevisível: a cápsula, o tanque, a banheira, o banheiro submerso, a chuva, o canal, o oceano, a água em ebulição que cozinha os ovos (a conexão), a do copo que entorna no carpete, a que as duas amigas secam o tempo todo, no chão sempre úmido do laboratório… Sally-Melusina mora em cima de um cinema, o Orpheu, um templo onde está em cartaz um filme bíblico brega, que, no entanto, deixa o deus fascinado. A imaginação é o chão aonde ela pisa, ela e seu vizinho pintor de cartazes de publicidade que ninguém mais quer, porque as fotografias são mais realistas. Como não se apaixonar por um deus do rio, prisioneiro, sendo ela quem é, ainda que não o saiba? Mais do que tudo A Forma da Água fala sobre o cinema, os velhos filmes que Del Toro (e eu também) assistia em preto e branco na TV, menino em Guadalajara. Há um devaneio de Sally-Melusina que se passa, inteiro, num musical de Hollywood. Minha alma de spoiler mal se contém e é melhor eu pará-la por aqui. Se você continuou a ler, vá ao cinema, sim, não espere estrear no Telecine ou no Netflix. Vá ao cinema, por favor. De vez em quando, um filme pede um templo. É esse o caso. Vá por mim.

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QUE VIVA VIVA!

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A Pixar de Wall-e e Nemo andou me decepcionando, depois que se juntou com a Disney. Sua animação mais recente, porém, Viva (Coco), junto com A Forma da Água, do sempre ótimo (e mexicaníssimo) GuillermoDel Toro, são os filmes mais engajados de 2017-18. Engajados com a imaginação e o sentimento, quero dizer, não com baboseiras militantes, discurseira vazia e palavras de ordem clichê, gritadas por representantes de lateralidades mutuamente excludentes, cegas de um olho e, por isso mesmo, interditadas de visão do conjunto. Viva é uma espécie de campanha de vacinação do imaginário contra a neoxenofobia do Império, como também de outras patologias ideológicas. Duvido que uma criança americana branca protestante (para não dizer um adulto que ainda porte consigo algum resquício de alma) saia do cinema sustentando teorias paranoicas sobre latinos psicopatas. Quando nos falta a consciência de nossa sombra, psicopata é o outro, norma que se aplica à perfeição àquele reizinho pançudo, de penteado ridículo e que tem um gêmeo idêntico, de quem foi separado no berço, mandando lá na Coréia do Norte do jeito que ele mesmo gostaria de mandar nos EUA. Viva inocula seu vírus atenuado diretamente no imaginário da cultura. E é na profundeza do imaginário que as coisas começam a mudar de verdade. Os recursos que Viva usa para sabotar uma ideologia escrota, em avançado estado de decomposição, são o encantamento, a memória, a fantasia, a comunidade e as conexões (de verdade), tudo carreado por um trabalho estupendo com as imagens. O México é tudo aquilo e muito mais, diz a mulher que é fã de carteirinha. E nem precisa ninguém gritar Fora Trump! para fazer aquela politiquinha mequetrefe, tão inócua quanto ao gosto de nosso mundo esquizofrênico. O poder de transmutar a única realidade passível de alguma transmutação – nossa subjetividade – está nas imagens, não as da tela rasa dos gadgets que nos guiam, mas as da alma que, ativadas pelo cinema, a arte, a literatura, a cultura, enfim, se engajam, nos engajam com o cultivo da alma no mundo, num maravilhoso circuito que se retroalimenta e nos abre para a vida. Porém é preciso saber que são imagens e que imagens devem permanecer, porque a péssima ideia de literalizá-las é o sustentáculo de todos os fanatismos. Viva é um daqueles filmes que trafica imagens de cura num imaginário de guerra, imagens de diálogo num imaginário de confronto, imagens de parceria num imaginário de aniquilação da diferença, imagens de morte num imaginário heroico negador de nossa finitude. E se imagens criativas não nos chegam, já na primeira infância, imagens deletérias as substituirão, para fazer a fortuna dos narcos  e dos gurus das redes sociais. Que Viva Viva então, e encontre frestas (e festas) por onde se infiltrar na Alma americana ( coisa que a nossa também é), subvertendo a pseudo política que a praga do populismo instituiu por lá, como fez e continua fazendo aqui, abaixo da linha do Equador. Só a alma nos livra dela.

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Unhas

Para Isabela

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Eu tinha 16 anos e era 1973. Queria assistir Horizonte Perdido, um musical xarope, com trilha sonora de Burt Bacharach. Minha mãe também queria e fomos juntas. O cinema era o finado Comodoro Cinerama, na avenida São João, som sensurround, película 70 mm, tela gigante. Era junho e fazia um frio da porra. Eu já disse que tinha 16? Classe média baixa, evangélica, estudando numa escola estadual de bairro e morando num conjunto habitacional popular que, para nós, era a glória? Fui com minha jaqueta de carneiro falso, uma ceroula de algodão embaixo da calça jeans e as unhas pintadas de preto. Essa informação é capital. Fazia alguns meses que minha mãe, desanimada com minha compulsão por roer unhas, tinha me autorizado a fazê-las. Nossa manicure, a Judite, de quem eu gostava muito, era uma mocinha paraguaia, pouco mais velha do que eu, cuja madrasta, dona de salão de beleza, obrigava a trabalhar o dia inteiro na rua, nos dias de semana. Ela atendia a gente em domicílio e me lembro muito bem do rosto dela, do sorriso largo, dos cabelos de índia que ela tingia de mil cores e cortava de mil jeitos, porque era, além de manicure, cobaia e mostruário da madrasta-patroa. Nos anos 1970, os esmaltes de cores fúnebres estavam na crista da onda, Hematoma, Sangue Pisado, Degenerescência, todos com nomes eufêmicos. Eu amava o negro (Petróleo Bruto?), porque me ajudava mais do que os outros a interromper a trajetória da mão em direção à boca, permitindo assim que minhas unhas crescessem até quase virar garras pontudas. Eu tinha 16 anos, mas confesso que, ainda hoje, aos 60, sou dada a puxar cutículas com os dentes, quando a tensão aumenta. Chegamos cedo para comprar balinhas Sonksen de cevada na bombonière (as da latinha bordô) e, assim equipadas, muito animadas, rumamos para a sala de projeção. Sentamos e logo todas as cadeiras ao nosso redor são ocupadas. Me desculpem se a memória remota é obscena de tão precisa, mas puxei minha mãe nesse quesito. Lembro da roupa, do clima, dos detalhes… Há muito já aceitei o que não posso mudar. Também gosto de narrar no presente, me ajuda a ver melhor o passado. A xaropada começa. E eu, a mais xarope de todas, canto, num inglês ultra-macarrônico, as canções aprendidas de orelhada com o LP da trilha sonora, tocado e retocado à náusea na minha vitrola portátil. A certa altura, a professora Liv Ullman (que devia estar precisando muito de dinheiro na época) dança e canta em estilo Broadway, tendo seus aluninhos tibetanos como chorus line e, como cenário, uma escola localizada num vale fértil, encravado entre os Himalaias. Tudo é de uma bizarria sem precedentes. Porém uma sensação ainda mais bizarra me assalta. Percebo que o cara sentado do meu lado esquerdo está com a mão colada na minha coxa. E já deve fazer algum tempo, porque esse calor que sinto no local aonde a mão do tarado repousa, confiante, não começou agora. Fico aflita. Afinal não quero estragar o programa de minha mãe, que quase nunca pode ir ao cinema. Fico aflita também porque não quero perder o filme. Fico aflita principalmente porque um escândalo vai interromper o transe da torcida para que Olivia Hussey não fuja de fake Xangrilá com Michael York. Afinal a gente sabe que vai dar merda. Aguento mais um pouco, enquanto procuro solução. Logo ela vem. Cravo as unhas da mão esquerda na mão do folgado e o faço com tal força que quebro três delas, na carne a do dedo médio. O oportunista geme, se levanta e vai saindo de fininho da fileira, pisando em pés, empurrando encostos. Eu não digo nada. Meu coração bate forte, três unhas estão destruídas, mas sei que tornarão a crescer. Relaxo. Não estrago o filme, que já nasceu ruim demais, não dava pra piorar. À saída, vejo que tenho sangue no dedos e corro ao banheiro, onde constato que o sangue não é meu. Sinto um certo orgulho de pensar que arranquei sangue de um babaca (naquela época era babaca mesmo, não essa coisa chique de assediador). A caminho do ponto de ônibus, conto a história a minha mãe, que não dá muita importância e me diz que fiz o certo. Me conta também que, quando mocinha, ela só andava de ônibus com um alfinete de fraldas preso na roupa, para espetar o saco dos tarados de ocasião. Gosto de pensar que, aos 16, embora não fosse nada empoderada, eu já era forte, tinha unhas e sabia usá-las.

Dalila

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Minha mãe, profetisa incidental que era, resolveu me chamar de Dalila num certo período da minha vida. A intenção era a pior possível: me aproximar, por apóstata que eu era, da gói traiçoeira e malévola que desviou o santinho Sansão do caminho do Senhor, tosou rente sua cabeleira de filhinho da mamãe (ou do Papai, como preferirem) e acabou metendo o sujeito numa enrascada fatal para a escalada heróica que o pessoal lá do templo tinha projetado para ele. Sendo mamãe uma batista empedernida, chamar a filha de Dalila deveria soar a esta como ofensa, mas não. Quando me chamava de Dalila, minha mãe, sem saber, me atribuía uma força que ela mesma não possuía, contudo tenho certeza de que, inconscientemente, pretendia que eu encontrasse dentro de mim. Nunca me senti constrangida ou ameaçada por essa comparação, nunca mesmo, apesar de ter sido educada pelo mesmo imaginário no qual ela mesma havia sido educada. Talvez porque eu intuísse que “ser Dalila” tinha um significado mais profundo que aparentava o discurso lógico. Hoje compreendo que Dalila é uma metáfora e metáforas podem nos tirar da frigideira quente dos eventos e da dimensão pessoal e nos deslocar a um lugar mais arejado, com mais, digamos, perspectiva. Seria como me xingar de “filha de Eva” se ela fosse uma católica carola, fato aliás do qual muito me orgulho. Afinal nossa tão caluniada mãe mitológica, depois de ter sido talhada para a submissão e a inferioridade, ousou perverter a regra do jogo e dar início à História humana, libertando a si mesma, a Adão e a toda a criação dos limites estreitos jardim zoo-antropológico do Éden e lançando-os no campo do tempo e do espaço, para que a narrativa pudesse, enfim, começar. Como Eva, Dalila foi a iniciadora do masculino no campo da experiência, da qual Sansão, superprotegido e enquadrado demais na tradição, estava alijado, por interesses alheios a sua vontade. Isso sem levar em conta que ela estava defendendo seu povo, sua cultura e sua religião quando seduziu aquele homem feito que ainda ostentava os cachinhos da infância como símbolo de uma força que não provinha de dentro dele, mas era-lhe dada de fora, sob condições estritas. Quando eu era menina e, na igreja, me contavam a história de Sansão e Dalila, era de um ponto de vista literal, maniqueísta e tendencioso, que naturalmente fazia todo o mal recair sobre Dalila. Então eu odiava Dalila por ela ter “feito mal” a Sansão (olhem só a invertida do modelo!). Contudo, e como escreveu o apóstolo, quando eu era menina, pensava como menina. Agora que sou adulta, deixei de pensar como menina e de me deixar aprisionar por discursos dualistas, pendam eles para o lado que penderem. Depois de Jung, Hillman, Pedrazza e Thomas Moore, Dalila se tornou uma das minhas imagens favoritas de Anima. O ritual que ela protagoniza, da tosquia dos cabelos da criança que ainda persistem na cabeça de um macho adulto, é uma das cenas mitológicas mais lindas e significativas da relação homem-mulher, uma cena de iniciação do masculino pelo feminino, manipulada, adulterada e pervertida, ao longo dos milênios, pelos exegetas (quase todos homens) que se pelam de medo de feminino. A história infantil (a qual, porque não pode ser mito, fica retida no âmbito de versão oficial e literal) estilhaçou-se em milhares de caquinhos e eu pude compreender, enfim, porque ser chamada de Dalila por minha mãe nunca me ofendeu nem sensibilizou. Para dizer a verdade, eu adorava. E hoje descobri a razão.

Pequenina odisséia de 2017

“Sabemos qual é o problema: ele (Odisseu) veio de um mundo que rejeitou e negou o princípio feminino, tentando dominá-lo ou substituí-lo por um sistema patriarcal. Agora terá de encarar a força crua do feminino e submeter-se a ela”. (Joseph Campbell)

“Um deus é uma metáfora transparente à transcendência.” (Joseph Campbell)

Ontem, dia 2 de dezembro, Maria Callas teria completado 94 anos. Maria, a garotinha rejeitada e vulnerável, e La Callas, a deusa magnificente e incomparável, ambas  – e todas as personagens que as duas, em parceria, encarnaram no palco – foram reunidas no paradoxo de uma vida arrebatada pelo poder ambivalente do arquétipo. Comemorei a data em clima de sincronicidade, ouvindo uma palestra sobre Callas, marcada sem nenhuma intenção prévia de homenagem. Na verdade, nem mesmo o palestrante se dera conta do fato, lapso quase imperdoável para um devoto, ele também paradoxal. A história mais ou menos inteira é assim: estivemos lendo, nas matilhas, ao longo de 2017, dois livros bastante problemáticos. Callas era uma das figuras abordadas num desses livros, que fala do poder da loucura no Feminino, da sanha destrutivo-criativa de Anima. Não engatavam as leituras, os livros eram cheio de defeitos, pareciam mal traduzidos, um deles era racional e didático demais, o outro, panfletário e clichê. Em suma: nenhuma das duas leituras fluía. Mais de uma vez pensei em interrompê-las para começar outras. Os dois livros falavam, de perspectivas diferentes, da influência lunar, fascinante e dissolvente de Anima, de sua força para convocar confusão e névoa, para pôr a perder a eficiência lógica e discursiva do ego… Um foi escrito por um homem. O outro, por uma mulher arremedando um homem. Só ontem, graças a Maria Callas, consegui vislumbrar um pouco do que aconteceu, pelo menos comigo. Na iminência de desistir das leituras e estimulada por algumas amigas, resolvi mudar de método, numa derradeira tentativa de não fugir da raia antes pedir algum esclarecimento à Alma. Não que eu soubesse o que estava fazendo, longe disso. Estava perdidaça. Parece que deu certo. A Alma se moveu. Os livros foram estripados, espremidos, chacoalhados e a leitura ganhou fôlego. Fomos acolhendo os defeitos, aprofundando a retórica com nossas experiências, transformando enjoamentos em desafios, pulando trechos, enfatizando outros e parece que conseguimos afinal transpor as rochas que se entrechocam, as mesmas que emergem naquela leitura que está na iminência de gorar. Vamos terminando os dois livros, com níveis variáveis de envolvimento, mas, penso eu, também com ganhos para quase todas nós, que acreditamos na jornada compartilhada da matilha. Foi uma experiência e tanto, para mim, pelo menos. Foi minha experiência em particular de estar nas matilhas em 2017, a que mais me desconstruiu e, portanto, me ensinou, numa dimensão difícil de acessar e expressar com as ferramentas expressivas do ego. Me perdi nos labirintos de Anima enquanto eu lia e conversava sobre e com ela, enquanto ela me confundia e desorganizava. Permaneci semanas, meses mergulhada na neblina que Ela costuma liberar para se ocultar das racionalizações, para escorregar para longe das reduções e assim se manter viva, mutável, misteriosa e inacessível, disponível apenas por meio das imagens. Fui até reler “O morro dos ventos uivantes” e pedir ajuda à louca da Catarina, que sempre me vale nessas horas. À parte isso, honro a resistência do meu ego racional, que aguentou o tranco, não surtou de insegurança e aceitou mais essa iniciação humilhante e amplificadora. Agradeço de coração a esse Odisseu medroso e magricela, porém resiliente, por ele ter agarrado na borda com firmeza e evitado mergulhar nas bocas triturantes de Scila e Caribdis, não ainda, não desta vez. Obrigada também a Callas, e a Medeia e Norma e Carmen e Mimi e Butterfly e Tosca… Ao acolher e reverberar tantas faces de Anima em sua transparência, você abriu mão da dimensão opaca e normal que eu posso viver, para esclarecer e enriquecer a consciência coletiva, para alumbrar minha “pequena alma vaga e flutuante, hóspede e companheira do meu corpo” (Adriano Imp.). Ontem você foi a senha para o insight. Que bom que era seu aniversário, porque certamente sua magia estava mais potente e você roçou em mim por um momento que agora guardo, no relicário do meu coração.

 

 

De novo, Oaxaca

Mulher-Esqueleto

Dançarinas na Guelaguetsa

Na iminência da chegada do dias dos mortos, espero a hora de retornar a Oaxaca. A colorida e fervilhante. A misteriosa e solene. A universal e singular. Oaxaca para onde volto de modo a me certificar de que ela existe. Ou continuar duvidando. Minha primeira noite nela, faz mais de mais de dez anos: caminhando pela rua em meio à Guelaguetsa, festival na melhor tradição mexicana, com o catolicismo hispânico, cruel, brutal e avassalador das diferenças sendo devorado por uma centena de micro-religiões, qual uma barata comida por formigas. Cada cultura, uma etnia. Cada etnia, uma língua. E um artesanato particularíssimo, divindades singulares, tradição culinária singular… Oaxaca dos deuses surdos e indiferentes substituídos pelos mortos familiares e atenciosos. Sempre que me lembro dela, é a cidade numa tela de Rodolfo Morales, com cachorrinhos pelados e alados que flutuam no céu, anjos guardiões e guias para o submundo…

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