Efeitos de Mercury retrógrado

Quando eu era pequena, a TV Record tinha um programinha xarope, embora sem efeitos colaterais afora os decorrentes da ingestão de carboidratos e açúcar. Chamava-se Pullman Junior e passava no final da tarde, depois que a gente voltava de brincar na rua, fazia lição e tomava banho, esperando a hora do jantar. Era uma espécie de ritalina televisiva que servia para baixar nossa “excitação”, como dizia meu pai, e nos enquadrar no modo descanso. Apresentado por um arremedo de padeiro chatíssimo e inverossímil, o roteiro era basicamente esse mestre de cerimônias botar o microfone na frente da boca cheia de bolo das criancinhas presentes (todas engalanadas com coroinhas de papel crepom) e perguntar para quem elas queriam mandar beijos. Como o tempo, apareceram algumas entrevistadoras, mocinhas ainda mais tontas do que o padeiro, se é que isso era possível. As crianças respondiam e saiam coisas ininteligíveis, em meio a uma chuva ansiosa de bolo mastigado que emporcalhava o microfone. Decerto um programa ao qual certas mães perfeitas de hoje em dia jamais levariam seus rebentos, temendo de atos de pedofilia a graves contaminações por via oral. A parte entorpecente do programa servia para nos deixar meio aturdidos, enquanto tentávamos identificar, nem sempre com sucesso, a quem se destinava a burocrática homenagem que chafurdava num lamaçal de massa de bolo misturada com saliva. Alguns entrevistados se atrapalhavam, zelosos de citar todas as tias, padrinhos, avós e agregados que – eles sabiam – estavam, naquele momento, vegetando diante da tela em preto e branco, ansiosos por uma migalha de deferência com bolo Pullman. No interlúdio desse ritual modorrento, vinham os cartoons, que era o que nos interessava… nem sempre tão anestésicos quanto nossos pais gostariam. Para dar uma ideia, conheci os super-heróis da Marvel no Pullman Júnior, em desenhos semi-animados, cheios de imagens paradas com locução de fundo: Homem de Ferro, Namor, Capitão América, Hulk… Ainda sei a musiquinha de abertura dos desenhos, caso interesse (“… tem um viking imortal com um martelo infernal / e o galante lançador do escudo voador…”). Lembrei disso agora nem sei porque. Pode ser porque eu esteja vivendo mais uma temporada de Mercúrio retrógrado. Ou porque ontem vi o primeiro capítulo da série A Amiga Genial, da HBO, baseada nos livros da Elena Ferrante, e me lembrei como minha vida de menina era, ao mesmo tempo, muito limitada e muito interessante. Ou porque ando achando esta contemporaneidade digital, moralista e histérica um saco absoluto. Enfim, se você ainda está vivo e se lembra do Pullman Junior, por favor, poste um comentário!

4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Cristiane Marino
    nov 26, 2018 @ 16:08:07

    Eli, não assisti ao Pullman Júnior porque TV só apareceu na minha vida bem depois, passei minha infância na copa das árvores do quintal…mas concordo com você…essa geração do politicamente correto… tanta repressão leva a surtos inexplicáveis de violência que fazem tanto mal…

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    • elianaatihe
      nov 26, 2018 @ 16:20:47

      Repressão criativa é o que maus falta. Aquela pressão da vida real que nos concede forma e nos contém. Mais uma palavra cujo sentido duplo não captamos. E o resultado, vc tem toda razão, é o pânico de quem não estabeleceu direito as fronteiras e teme que ele seja aniquilado pelo Grande Todo… Beijo!

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  2. Isa Guara
    nov 27, 2018 @ 17:35:51

    Eu nem assistia televisão nesta época. Dos 11 aos 14 estava em Colégio Interno e a disciplina era bem pior que assistir TV e ficar quietinha. A gente tinha um recreio de uma hora em que contavamos histórias umas para as outras, andávamos pelo pátio ou cantávamos. Depois, de volta à sala de estudo, ouvíamos uma leitura e depois íamos dormir.kkkk. Desenho animado só vi aos 15 anos quando mudamos pra S.Jose dos Campos e papai comprou uma televisão..

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  3. Mariana Menezes Motta
    mar 22, 2019 @ 09:50:57

    Inimaginável um programa desses hoje em dia,
    Mas eu ,que nunca assisti, sinto que esse programa faz parte da minha memória tb.
    Vc escreve e nos transporta para o momento.
    A nossa Elena Ferrante com certeza!

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