Brio

brio

O brio é uma qualidade humana que, para o mal de nossos pecados, saiu de moda faz tempo. Prova disso é a tradução tosca do título do filme “Le Brio”, de Yvan Attal, que acabou virando “O orgulho”. O fulano que trocou brio por orgulho não entendeu rien de rien, como canta Edith Piaf. O “brio” tem uma complexidade e uma sofisticação de que o “orgulho” carece, mais aderido que é aos chiliques do ego do que às sutilezas da alma. O orgulho ostenta e o brio revela. E é sobre revelação esse filme simples, sem pretensões estéticas nem narrativas estroboscópicas, só uma historia demasiado humana, com começo, meio e fim. Se fosse um filme americano, suspeito que a gente receberia de “brinde” um maço em preto e branco de lições politicamente corretas. Como é um filme francês, podemos nos deleitar à vontade nas nuances. Se tem um ator que eu persigo, é Daniel Auteil. Faz trinta que sou fã de seu narigão gaulês e de seu talento. A primeira vez que o vi atuando foi em “Jean de Florette”, mocinho como eu, ao lado do grande Yves Montand (ele, não eu). Desde então, vou ver tudo o que ele faz, mesmo porque ele costuma ser maior do que a maioria de seus filmes. Nem ligo para o diretor, a crítica (essa então, eu passo reto), os prêmios… “O Brio” é um tour-de-force entre ele e uma jovem atriz maravilhosa, Camélia Jordana, que merecidamente ganhou o César 2017 de revelação pelo papel. Jordana e Auteil dão vida a Neila Salah e Pierre Mazard, aluna caloura e professor decano de Direito na Universidade Paris 6. Opostas e complementares, as personagens são, de saída, enredadas numa armadilha típica deste nosso espírito de época. Neyla, moradora da periferia de Paris, neta de imigrantes árabes, já chega atrasada à primeira aula de Retórica e na vibe certa para encarnar o tipo passivo-agressivo de vítima do sistema. O professor Mazard, por sua vez, cínico, desencantado, prepotente e vulnerável, é o algoz sob medida para ela. E os dois se entrechocam, a côncava e o convexo. Um incidente desagradável irá promover um encaixe e impedir que ambos se dissolvam no caldo ralo do maniqueísmo reinante. O que salva a ambos é justamente o brio. O brio que Neyla vai descobrir e que dá a ela resistência e auto-estima, impedindo-a de mergulhar no complexo cultural que está logo ali, de goela aberta, pronto para mastigá-la. O brio que o professor Mazard vai redescobrir e que lhe permitirá renovar seu compromisso com o papel de professor, revigorar-se como pessoa e salvar seu emprego. O roteiro pisa em ovos mas não resvala nos estereótipos, ao contrário: é o arquétipo do mestre-aprendiz que fala, com aluna e professor envolvidos num embate retórico e existencial que os reconecta, cada qual, com seu destino. Pensando sobre a perda do significado de brio em nossa língua, creio que compreendi porque a palavra caiu em desuso, a ponto de ser substituída pelo que não quer dizer. Num mundo em que é muito importante ter pena de si mesmo e, se possível, fazê-lo à luz das redes sociais, ao som e à fúria das narrativas midiático-digitais, o brio não é bem vindo simplesmente porque é o oposto da auto-piedade.  Para recuperar seu sentido, recorro ao bom e velho Aurélio: “Brio, do celta ‘brigos’, força, coragem. Sentimento da própria dignidade. Ânimo, valentia. Galhardia , garbo. Vibração, entusiasmo, fogo. Meter em brios: estimular alguém da melhor maneira possível”. Notaram como trocar brio por orgulho é um grave equívoco?

3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. duboc9
    ago 12, 2018 @ 19:03:34

    Parando de ler a mediocridade desse supostos falsos críticoscinematográficos que pululam em busca da cultura perdida que nunca encontram, vendo filme, não vendo cinema, com olho no editor pra agradar.

    O pobrema de falar sobre cinema é que é preciso falar de tudo, pensar e sentir tudo, da literatura à todos os ismos.

    Belo artigo, Feiticeira. Luz no meio da mediocridade midiática que ainda não descobre o abismo entre filme e cinema. Belo artigo, Feiticeira.

    Beijo

    Luiz Duboc

    ________________________________

    Responder

  2. Cristiane Marino
    ago 13, 2018 @ 08:23:47

    Eli, como sempre arrasando!
    Eu gosto demais da palavra brio e lamento que hoje não tenha quase espaço e valor na nossa cultura…
    Também adoro o Daniel Auteil e logo que vi o trailer já coloquei na lista para assistir.
    Bjs

    Responder

  3. Maria Cecília Sanchez Teixeira
    ago 13, 2018 @ 17:29:34

    Também adoro o Daniel Auteil. O melhor Henrique IV que já vi. Estou ansiosa para ver Lê Brio. Eli, você fez uma análise primorosa do filme e do título. Sim, lamentavelmente, brio ficou demodé.

    Grande Henrique de Navarra!!!!

    Responder

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