Gato

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Já faz uma semana, recebi um aviso. Para ocupar o nicho da deusa rotativa que integra meu altar doméstico – uma imagem do sagrado feminino que troco a cada domingo –  veio Bast, a deusa-gata egípcia. Ela me disse com clareza, ronronando: INDEPENDENTE. Foi preciso desenhar para eu compreender. E quem desenhou foi Carlinhos, meu amado raja, nariz-de-goiabinha, lucinho-pelucinho, Caco, o mais doce, terno, meigo, delicado entre os felinos, meu bebê-gato de 10 anos. Estava muito doente desde o carnaval de 2015, com meio rim funcionando de pura compaixão por nosso apego doentio. Não morreu há três anos, porque nos recusamos a aceitar a brevidade de sua linda vidinha. Internado para tratamento intensivo, Caco se enfureceu, reuniu toda a saúde da alma selvagem que resistia em sua alma felina e atacou os veterinários da UTI com garras e dentes que não sabíamos que ele tinha. Recebeu alta imediata de uma felinóloga de braços ferozmente arranhados e juramos que nunca mais o submeteríamos às torturas da ciência médica. Como bicho, ele contava com essa vantagem sobre nós, humanos. Essa foi a primeira manifestação de uma deusa-gata selvagem no dócil Caco: Sekhmet, a irada cabeça-de-leoa. Faz exatamente três anos. Aconselhados por uma veterinária sábia, ela também adoradora de gatos, adotamos um protocolo de florais e homeopatia, vitaminas e um pozinho branco mágico que a gente comprava na Amazon e amigos piedosos aceitavam trazer na mala, quando viajavam aos EUA. Duas vezes por dia, eu ministrava o ritual que ele suportava estoico (Caco era um estoico da linhagem do grande Marco Aurélio). Outra devota de Bast nos ajudava a cada 15 dias, aplicando uma fluidoterapia incômoda, que o deixava aflito por fazer desaparecer depressa, com lambidas prestimosas, a bolinha de soro que crescia em sua barriga. Bobinho querido, ele vinha quando o chamávamos para tomar os odiados remédios… Os bobinhos vivem mais do que os espertos, dizia a veterinária. No final, porém, o bobinho revelou-se mais esperto que todos nós.

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Passamos dias lindos na praia no derradeiro janeiro de Caco. Ele amava a casa, o gramado, a liberdade usada com sabedoria pelos gatos, de explorar o entorno sem nunca perder o rumo da voz do dono (que imbecil inventou que gatos não amam as pessoas?). Estava feliz, comendo bem, bebendo muita água, subindo nos troncos dos coqueiros, tirando longas sonecas no beliche e em colos cuidadosamente selecionados, suportando o banho, a medicação e a antipatia de sua bully-mor, Zelda, com a mais estoica das elegâncias. Era a despedida e a gente aproveitou-a intensamente, ainda que não soubéssemos que era. E como a gente nunca sabe, melhor é desfrutar o bom e suportar o ruim com o savoir-vivre de um felino, em nome da beleza e da integridade. Foi na quarta-feira de cinzas que ele sumiu, dia ruim de uma semana cheia de más notícias e eventos funestos, portal da quaresma. Caco não entrou pela janela do meu escritório miando, para nos acompanhar no café e ganhar a tirinha de presunto, duvidoso prêmio por tomar os remédios sem cuspir. Na semana anterior, ele tinha começado a vomitar e havíamos incluído mais um comprimido no já extenso repertório. Ele odiou, mas suportou sem se queixar. Não veio mais tarde acompanhar a faxineira na sua faina pela casa e pedir para beber água na torneira do tanque. Não veio quando chamamos, cada um do seu jeito, com assobios e entonações variadas. Não ouvimos o barulho de sua aterrisagem no telhado, não ouvimos seu miado longo e forte, avisando: Estou indo! Choveu, esfriou e ele não veio se enrodilhar no sofá do escritório, nem me fazer companhia, embolado sobre a impressora. Simplesmente não veio. Nem à noite, nem no dia seguinte. Confeccionamos cartazetes com a foto dele, nossos celulares, espalhamos pelos postes da rua… Ele trazia no pescoço uma coleira com sua medalhinha de identificação e meu telefone gravado, então, quem sabe… Choramos, continuamos chamando, mas acentuou-se o vazio da sua linda presença rajada em nossa vida. Até a rainha Zelda inquietou-se, pero no mucho. Hoje de manhã fui trocar a deusa rotativa, para a qual reservo um espaço no meu altar doméstico, entre Kuan-Yin e Notre Dame de Chartres. Tiro-a dentre as cartas de um oráculo do feminino divino que ganhei de uma amiga-irmã. Aos domingos, agradeço à deusa que tirei há uma semana, e sempre observo que a energia dela, a imagem dela, seus atributos me visitaram de algum modo e fizeram diferença. Medito diante dessa imagem todos os dias, uma entre deuses e mortos queridos, cuja presença não literalizo e que me aconselham e inspiram. Foi quando Bast, antes de ser trocada por Ísis, me ronronou ao ouvido : INDEPENDENTE. Irene já tinha me contado que bichos domésticos por vezes se afastam de casa para morrer, porque sua sabedoria selvagem, o instinto que perdemos, lhes orienta a não atrair aves comedoras de carniça para perto do lugar aonde viveram e dos seres que amaram. O mais doméstico dos felinos, meu amado raja Carlinhos, lindo e delicado, foi totalmente selvagem e livre quando escolheu não ser mais incomodado por nossa ansiedade e morrer como um gato de verdade. Sua independência foi puro amor.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Claudia
    fev 18, 2018 @ 12:15:19

    Como os animais nos ensinam…como é bom exercitar sensibilidade para perceber isso.
    Meus sentimentos e minha reverência a esse ser que compartilhou o privilégio da convivência com uma família tão especial.

    Responder

  2. Glaucia
    fev 22, 2018 @ 20:28:23

    Li agora, Carlinhos fez história, até eu, que não sou amiga de bichos, me lembro dele!

    Responder

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