QUE VIVA VIVA!

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A Pixar de Wall-e e Nemo andou me decepcionando, depois que se juntou com a Disney. Sua animação mais recente, porém, Viva (Coco), junto com A Forma da Água, do sempre ótimo (e mexicaníssimo) GuillermoDel Toro, são os filmes mais engajados de 2017-18. Engajados com a imaginação e o sentimento, quero dizer, não com baboseiras militantes, discurseira vazia e palavras de ordem clichê, gritadas por representantes de lateralidades mutuamente excludentes, cegas de um olho e, por isso mesmo, interditadas de visão do conjunto. Viva é uma espécie de campanha de vacinação do imaginário contra a neoxenofobia do Império, como também de outras patologias ideológicas. Duvido que uma criança americana branca protestante (para não dizer um adulto que ainda porte consigo algum resquício de alma) saia do cinema sustentando teorias paranoicas sobre latinos psicopatas. Quando nos falta a consciência de nossa sombra, psicopata é o outro, norma que se aplica à perfeição àquele reizinho pançudo, de penteado ridículo e que tem um gêmeo idêntico, de quem foi separado no berço, mandando lá na Coréia do Norte do jeito que ele mesmo gostaria de mandar nos EUA. Viva inocula seu vírus atenuado diretamente no imaginário da cultura. E é na profundeza do imaginário que as coisas começam a mudar de verdade. Os recursos que Viva usa para sabotar uma ideologia escrota, em avançado estado de decomposição, são o encantamento, a memória, a fantasia, a comunidade e as conexões (de verdade), tudo carreado por um trabalho estupendo com as imagens. O México é tudo aquilo e muito mais, diz a mulher que é fã de carteirinha. E nem precisa ninguém gritar Fora Trump! para fazer aquela politiquinha mequetrefe, tão inócua quanto ao gosto de nosso mundo esquizofrênico. O poder de transmutar a única realidade passível de alguma transmutação – nossa subjetividade – está nas imagens, não as da tela rasa dos gadgets que nos guiam, mas as da alma que, ativadas pelo cinema, a arte, a literatura, a cultura, enfim, se engajam, nos engajam com o cultivo da alma no mundo, num maravilhoso circuito que se retroalimenta e nos abre para a vida. Porém é preciso saber que são imagens e que imagens devem permanecer, porque a péssima ideia de literalizá-las é o sustentáculo de todos os fanatismos. Viva é um daqueles filmes que trafica imagens de cura num imaginário de guerra, imagens de diálogo num imaginário de confronto, imagens de parceria num imaginário de aniquilação da diferença, imagens de morte num imaginário heroico negador de nossa finitude. E se imagens criativas não nos chegam, já na primeira infância, imagens deletérias as substituirão, para fazer a fortuna dos narcos  e dos gurus das redes sociais. Que Viva Viva então, e encontre frestas (e festas) por onde se infiltrar na Alma americana ( coisa que a nossa também é), subvertendo a pseudo política que a praga do populismo instituiu por lá, como fez e continua fazendo aqui, abaixo da linha do Equador. Só a alma nos livra dela.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Fabiana
    fev 05, 2018 @ 10:59:25

    Viva, Muher-Esqueleto!! O filme é lindo e o seu post o honrou belamente. Viva!! Viva!! Viva!!!

    Responder

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