Água

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O cinema é minha igreja, quem me conhece já sabe. Meu jardim também é, e o ateliê onde trabalho também, mas são igrejas diferentes, coisa de politeísta. O cinema é o templo amplo, público, repleto de gente que não conheço e que tanto pode estar em busca de uma visão quanto de um lugar pra tirar uma soneca ou dar uns amassos. É o lugar da escuridão que oculta o cotidiano banal enquanto levanta uma pontinha da cortina do mistério, o suficiente para deixar algum sentido escapar. Claro que o filme que a gente vai ver faz toda a diferença. Afinal homilia é homilia e se o pregador não presta, a gente, se sabe, nem aparece, se não sabe, puxa o carro discretamente, na primeira batatada que escuta. Se o filme é do Guillermo Del Toro,  sei que a homilia vai ser uma maravilha. Tem gente hiperrealista (do tipo que não sai do FB, sabe?) que reclama que o cinema do Del Toro é fantasioso demais. Eu já acho que fantasiosos são o telejornal e a reunião de condomínio. Claro que a fantasia de Del Toro é deslumbrante, ao contrário da lixarada do telejornal e da reunião de condomínio. A imaginação é a praia onde ele surfa com coragem, graça e competência, o lugar onde ele e o oceano do inconsciente coletivo se encontram, para fabular. Além de caprichar na verossimilhança interna, Del Toro reflete (sobre) a realidade com a profundidade de quem domina a metáfora, lindamente produzida e filmada, a mesma que nos dá acesso aos semitons da experiência e assim recusa os engajamentos reducionistas, sejam da natureza que forem. Entendo e lamento que devotos do Realismo racionalista, seja ele socialista ou capitalista, sofram de deficit de imaginação, nada mais natural. Não estão equipados para ver a A Forma da Água. Se você for um deles, aceite essa limitação, vá ler um site de notícias e me deixe em paz agora mesmo, por favor.

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Um mito. Um conto de fadas. Um filmão dos anos 1950, revisitado, desdobrado em camadas, ampliado e aprofundado. Há um deus do rio, raptado, acorrentado e violentado por um monstro pragmático e arrivista. Há também Sally, a Melusina suburbana, uma imagem pinçada direto da lenda medieval (Del To-ro! Del To-ro!Del To-ro!). Foi a música de Alexandre Desplat, bem francesinha e com direito a Madeleyne Peyroux cantando La Javanaise, que me levou direto a Melusina. Há o vizinho artista gay adorável, gateiro, que envelhece contrariado e anda à procura de um amor, nos tempos da cólera. Há a amiga da faxina diária no laboratório, faladeira, pau pra toda obra, protetora, farta do marido inútil. Essa me diz respeito porque seu nome do meio é Dalila, como o meu. E há o agente comunista, um espião-cientista mais cientista que espião, um homem íntegro que terá de fazer uma escolha afinal. Uma “comunidade de destino”, como diria Morin, todo mundo vivendo no porão do navio. Motivados pelo amor, a amizade, a “ciência com consciência”, eles desviarão o curso da narrativa, que passará de mística a heroica sem perder seu delicado equilíbrio. O monstro arrivista e pragmático é ferozmente protestante e iconoclasta. Para ele, o deus é uma abominação. Cabe a ele, Sansão, destruir esse ídolo. Acima dele na cadeia alimentar, há o general, que se orgulha de os EUA exportarem decência porque não têm uso algum para ela. E há sempre a água, turva, escura, misteriosa, insondável, imprevisível: a cápsula, o tanque, a banheira, o banheiro submerso, a chuva, o canal, o oceano, a água em ebulição que cozinha os ovos (a conexão), a do copo que entorna no carpete, a que as duas amigas secam o tempo todo, no chão sempre úmido do laboratório… Sally-Melusina mora em cima de um cinema, o Orpheu, um templo onde está em cartaz um filme bíblico brega, que, no entanto, deixa o deus fascinado. A imaginação é o chão aonde ela pisa, ela e seu vizinho pintor de cartazes de publicidade que ninguém mais quer, porque as fotografias são mais realistas. Como não se apaixonar por um deus do rio, prisioneiro, sendo ela quem é, ainda que não o saiba? Mais do que tudo A Forma da Água fala sobre o cinema, os velhos filmes que Del Toro (e eu também) assistia em preto e branco na TV, menino em Guadalajara. Há um devaneio de Sally-Melusina que se passa, inteiro, num musical de Hollywood. Minha alma de spoiler mal se contém e é melhor eu pará-la por aqui. Se você continuou a ler, vá ao cinema, sim, não espere estrear no Telecine ou no Netflix. Vá ao cinema, por favor. De vez em quando, um filme pede um templo. É esse o caso. Vá por mim.

forma da agua 3

3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Martha
    fev 05, 2018 @ 21:36:13

    Irei sim, minha Linhãna, irei! Por voce lor mim por todas! Bjs!

    Responder

  2. Malu Barreto De Castro Alterthum
    fev 18, 2018 @ 12:57:24

    Eliana QUERIDA , irmã da inspiração, mãe dos mitos, amiga dos mortos, irmã dos felinos.
    Sobre seu querido Carlinhos ainda não me recobrei. Tive Buluxa que tomava café conosco e que me exigiu presença nos dois partos. Tive Maduxa que não me esperou voltar de uma semana de praia e morreu…
    Quanto à Forma da Água, fui assistir exclusivamente por sua insistência.
    Amei e ainda estou sob forte impacto.
    O AMOR PARTICULAR. Aquele que nos faz passar por tontas quando enxergamos Um Deus, onde todos vêem um monstro execrável.
    BEIJOS DA MALU

    Responder

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