Unhas

Para Isabela

2-horizonte-perdido-

Eu tinha 16 anos e era 1973. Queria assistir Horizonte Perdido, um musical xarope, com trilha sonora de Burt Bacharach. Minha mãe também queria e fomos juntas. O cinema era o finado Comodoro Cinerama, na avenida São João, som sensurround, película 70 mm, tela gigante. Era junho e fazia um frio da porra. Eu já disse que tinha 16? Classe média baixa, evangélica, estudando numa escola estadual de bairro e morando num conjunto habitacional popular que, para nós, era a glória? Fui com minha jaqueta de carneiro falso, uma ceroula de algodão embaixo da calça jeans e as unhas pintadas de preto. Essa informação é capital. Fazia alguns meses que minha mãe, desanimada com minha compulsão por roer unhas, tinha me autorizado a fazê-las. Nossa manicure, a Judite, de quem eu gostava muito, era uma mocinha paraguaia, pouco mais velha do que eu, cuja madrasta, dona de salão de beleza, obrigava a trabalhar o dia inteiro na rua, nos dias de semana. Ela atendia a gente em domicílio e me lembro muito bem do rosto dela, do sorriso largo, dos cabelos de índia que ela tingia de mil cores e cortava de mil jeitos, porque era, além de manicure, cobaia e mostruário da madrasta-patroa. Nos anos 1970, os esmaltes de cores fúnebres estavam na crista da onda, Hematoma, Sangue Pisado, Degenerescência, todos com nomes eufêmicos. Eu amava o negro (Petróleo Bruto?), porque me ajudava mais do que os outros a interromper a trajetória da mão em direção à boca, permitindo assim que minhas unhas crescessem até quase virar garras pontudas. Eu tinha 16 anos, mas confesso que, ainda hoje, aos 60, sou dada a puxar cutículas com os dentes, quando a tensão aumenta. Chegamos cedo para comprar balinhas Sonksen de cevada na bombonière (as da latinha bordô) e, assim equipadas, muito animadas, rumamos para a sala de projeção. Sentamos e logo todas as cadeiras ao nosso redor são ocupadas. Me desculpem se a memória remota é obscena de tão precisa, mas puxei minha mãe nesse quesito. Lembro da roupa, do clima, dos detalhes… Há muito já aceitei o que não posso mudar. Também gosto de narrar no presente, me ajuda a ver melhor o passado. A xaropada começa. E eu, a mais xarope de todas, canto, num inglês ultra-macarrônico, as canções aprendidas de orelhada com o LP da trilha sonora, tocado e retocado à náusea na minha vitrola portátil. A certa altura, a professora Liv Ullman (que devia estar precisando muito de dinheiro na época) dança e canta em estilo Broadway, tendo seus aluninhos tibetanos como chorus line e, como cenário, uma escola localizada num vale fértil, encravado entre os Himalaias. Tudo é de uma bizarria sem precedentes. Porém uma sensação ainda mais bizarra me assalta. Percebo que o cara sentado do meu lado esquerdo está com a mão colada na minha coxa. E já deve fazer algum tempo, porque esse calor que sinto no local aonde a mão do tarado repousa, confiante, não começou agora. Fico aflita. Afinal não quero estragar o programa de minha mãe, que quase nunca pode ir ao cinema. Fico aflita também porque não quero perder o filme. Fico aflita principalmente porque um escândalo vai interromper o transe da torcida para que Olivia Hussey não fuja de fake Xangrilá com Michael York. Afinal a gente sabe que vai dar merda. Aguento mais um pouco, enquanto procuro solução. Logo ela vem. Cravo as unhas da mão esquerda na mão do folgado e o faço com tal força que quebro três delas, na carne a do dedo médio. O oportunista geme, se levanta e vai saindo de fininho da fileira, pisando em pés, empurrando encostos. Eu não digo nada. Meu coração bate forte, três unhas estão destruídas, mas sei que tornarão a crescer. Relaxo. Não estrago o filme, que já nasceu ruim demais, não dava pra piorar. À saída, vejo que tenho sangue no dedos e corro ao banheiro, onde constato que o sangue não é meu. Sinto um certo orgulho de pensar que arranquei sangue de um babaca (naquela época era babaca mesmo, não essa coisa chique de assediador). A caminho do ponto de ônibus, conto a história a minha mãe, que não dá muita importância e me diz que fiz o certo. Me conta também que, quando mocinha, ela só andava de ônibus com um alfinete de fraldas preso na roupa, para espetar o saco dos tarados de ocasião. Gosto de pensar que, aos 16, embora não fosse nada empoderada, eu já era forte, tinha unhas e sabia usá-las.

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Ana Maria Bacchi
    fev 01, 2018 @ 18:30:38

    Que demais, Eli!!! Assediadores sempre existiram, mas éramos bem menos histéricas e sabíamos lidar com eles!!!! Engraçado como o cenário preferido deles era o cinema, preferencialmente nas matinees onde abundavam menininhas inocentes, mas valentes!!! Adorei a atitude de sua mãe !!! Sem dramas! Por isso que os tarados desistiam: não achavam eco… beijo!!

    Responder

  2. Fabiana
    fev 03, 2018 @ 22:44:26

    Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel!!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: