Novo

Ano novo só mesmo na nossa cabeça que se imagina um caderno de papel milimetrado encapado em plástico azul e dotado de imensas orelhas. De verdade, um ano eterno sem começo nem fim, sem regulamento nem agenda, Aion de Urano, tempo circular da serpente cósmica a engolir o próprio rabo enquanto sibila o mantra sem fim nem começo: Dissolve e coagula! Tempo que não se deixa engaiolar por calendários, contem eles a partir da inauguração jardim do Éden ou do dia e hora do nascimento de Jesus, que nem de Jesus era (dizem que ele nasceu em março e era de Peixes, o que acho bem mais plausível do que ele ser de Sagitário, muito maníaco). No tempo cósmico, que é o que vale para tudo e para todos, 1957 nunca terminou, assim como 1968, muito menos 1975, 1986, 1992, 2001, 2012, 2015. Todos esses fragmentos de tempo maravilhosos-horríveis continuam sendo vividos por mim, não do mesmo jeito, mas de jeitos variados, continuam evolvendo dentro de mim, com seus eventos catastróficos e estupendos (e uso E não para separar os opostos em mescla permanente). O tempo se move para frente e para trás, em círculos, em espirais progressivas e regressivas, em volutas, em redemoinhos,  e nós vamos junto, arrastados feitos folhas secas. Nesse vendaval que despedaça calendários, os acontecimentos íntimos e coletivos, os fatos externos pelos quais somos vividos retornam. Eles nos pedem para ser retomados, elaborados, processados na alma (não na razão, não no intelecto), revistos e ampliados, reparados e sucateados, re-imaginados e remodelados à luz das coisas que aprendemos, se é que aprendemos alguma coisa entre eles e o agora. No presente absoluto da experiência quase sempre faltam recursos para apreender o que vivemos na chapa quente, pura e simplesmente. No depois, o presente contínuo, eles acabam chegando, os recursos, nunca com a presteza escandalosa do carro de bombeiros, nem como o brinde na caixa de Omo, muito menos pelo correio, num envelope do Sedex com nosso nome escrito em letras de forma. Temos de procurar e procurar, revirar lixo, revolver metros cúbicos de terra, sonhar e viajar na maionese, estripar gavetas, delirar, raciocinar, virar do avesso, ler poesia, invocar espíritos, adoecer, tatear, rezar, descascar, maldizer, desenhar esquemas, cavar, queimar pestanas, cantar mantras, pintar e apagar mandalas, fuçar arquivos vivos e mortos, tecer e destecer, reverenciar mestres, renegar mestres…  O diamante que se oculta na merda, a craca que se esconde na maravilha são dádivas da repetição, da rememoração, da insistência, da persistência, do eterno retorno, com a imaginação, o sentimento, a memória, ao mesmo lugar aonde estivemos mil vezes antes, só que com outros olhos, olhos de bobo, de criança, de cachorro, de detetive distraído, de catador de conchas. Nunca com olhos astutos. Meus olhos astutos enxergam o conceito, o nexo, os motivos, a linha teórica, a abordagem, as intenções e enquanto isso perdem o fiapo de brilho em que cintilam grãos de poeira suspensa, o rastro furta-cor da lesma, o caprichoso montículo de areia, a mensagem cifrada, entalhada pela água na parede por um deus da umidade e da decadência. Meus olhos astutos explicam ao mesmo tempo em que perdem o sentido, os múltiplos sentidos. Por exemplo, qual é o sentido da história do Evangelho em que a mulher que tem um fluxo de sangue contínuo toca a roupa de Jesus em meio à multidão que o espreme e ele pergunta, surpreso: quem me tocou? Penso e repenso nessa história desde que menstruei, aos 13 anos. Volto a ela e torno a voltar e cada vez que volto, ela se abre para revelar um compartimento imprevisto, oculto no mistério. Só escutei merda dos exegetas de olhos astutos ou nem tanto sobre essa história, todos uns ímpios no sentido grego do termo, uns babacas no sentido cristão. Cada vez que volto a ela, sou uma parte diferente dela: a mulher, a multidão, Jesus, a roupa tocada, o fluxo de sangue que não quer ser estancado. Cada vez que saio dela, mudamos um pouco, eu e ela. Nem sei porque falei dela aqui. Vai ver que era ela que queria ser rememorada. Vai ver que nossa relação demonstra de algum modo como o tempo atua em nós, quando compreendemos seu circuito e o internalizamos. Meu nascimento e os dos meus filhos continuam a me espantar, hoje muito mais do que no tempo das efemérides. As mortes, todas as que morri por amor a quem partia, continuam a me remeter ao Hades, de onde sempre emerjo enlameada, às vezes com um ramo de narcisos, outras com uma bela romã madura para fazer caipirinha. Minha infância é um presente que revivo todos os dias, e a luz que ela emite é ambígua, ilumina e ensombrece minha maturidade, me guia para a velhice com mãozinhas mornas e pequenas. Meus poucos amores, volto a eles sempre, sonho com eles, eles me despertam para renovar meu pacto com Afrodite, meu desejo sempre jovem de relação e vínculo. Minha brigas? Meus fracassos? Volto a eles constantemente, contudo não com a emoção que me consumiu naquele momento em que a ruptura me acenava com o fim de tudo. Retorno com o sentimento da distância que provê perspectiva e com a percepção do tempo que passa como um rio que apaga brasas dormidas e oferece seixos rolados para a gente jogar de volta na água. Ano novo? Nada de novo sobre a face da Terra, disse o sábio. E para que o novo se nem o que é velho de milênios a gente conseguiu aprender?

 

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