Um vilão para chamar de seu

“Quando estou com você / quero ser o tipo de herói / que desejava ser / aos 7 anos de idade / um homem perfeito / que mata.” (Leonard Cohen)

darth-vader

Ele é prático, conveniente, super-aderente, impermeável e fácil, muito fácil de sujar. Na verdade, ele já vem imundo, o que facilita a sua vida. Que sujeito mais útil e funcional! Quanta generosidade perversa! Que serviço inestimável ele presta ao nosso herói favorito, o ego! Todo ego, aliás, tem sua trupe particular de vilões, qual uma companhia mambembe de teatro. Sem vilão, não tem enredo nem catarse, o público não se envolve, impedido que é de se identificar com o mocinho. Nada como um vilão para fazer contraste com aquelas personagens que adoramos ostentar, o santo, o politicamente correto, o idealista que não cresceu, a jovem encruada etc. Acoitado num desvão do nosso bom-mocismo, o vilão é mantido e remunerado por algum recôndito caixa 2 do ego a quem faz falta um bom espelho. Para não ter de lidar com a própria porcaria, tenha sempre um vilão à mão. Receptivo, reflexivo, acolhedor de toda a sujeirada que você não tem a menor intenção de reconhecer como sua e com a qual não tem a mínima vontade de interagir, um vilão pode ser uma tela complacente e leniente, um aterro sanitário na frente do qual sempre se pode estender um lindo cenário pastoril, uma paisagem marinha, até um afresco da Capela Sistina. Sobre o vilão, o herói projeta, sem maior esforço, aqueles pecados inconfessáveis que corroem seu eterno coração de estudante, atributos e incidentes de percurso que não ornam de jeito nenhum com perfis do FB. Lembra do Dorian Gray? Então. O vilão dele é aquele retrato escondido no sótão, que envelhece, se acanalha e apodrece no lugar do modelo (ele mesmo). Fora do sótão, que Dorian mantém trancado, e para a torcida, ele continua a ser o moço lindo, cosmopolita, sempre jovem, o galã elegante e sedutor que faz o que quer e debita as próprias malvadezas na conta do retrato, inacessível ao olhar alheio.  Contudo a maior vantagem que um vilão oferece ao herói é poupá-lo de, de tempos em tempos, morrer e se transformar. O vilão nos protege da consciência que só tomamos por meio da responsabilização por quem somos e pelo que fazemos, ele nos blinda contra as duras revisões da autocrítica que nos possibilitam amadurecer (não falo da autocrítica marxista, que essa só serve se for conivente com a verdade do partido). De braços abertos, com um sorriso malevolente estampado no rosto, o vilão recebe, sem reclamar, todo o chorume que escorre da estátua dourada do herói de espada em riste, adorado por todos, a unanimidade que atrai nosso olhar sempre para o alto, ainda que o fedor do chorume continue a subir do chão. Se for um vilão clássico, inequívoco, histriônico de tão óbvio, será muito, muito melhor. O vilão estereotípico, do Diabo ao Bolsonaro, passando por Judas e Darth Vader, é, mais que um subproduto, uma necessidade do nosso imaginário dualista judaico-cristão-marxista-e-capitalista. Essa herança, uma e a mesma, nos garante que precisamos de heróis ou vilões higienicamente separados, embora ambos sejam faces da mesma moeda. O vilão, porém reconhece, ainda que apenas instintivamente, e muito melhor que o herói, o imenso valor de toda a energia sombria que é desviada das almas dos bons cidadãos diretamente para ele. Falem mal mas falem de mim, é seu lema. Cuspam em mim, por favor, ele suplica, o vilão, mas façam isso em público, se possível diante das câmeras de TV e dos Iphones, para que todos vejam como somos parecidos. Quanto mais simplórios e reativos nos tornamos diante dos vilões, menos nos damos conta de que é assim que reforçamos nossas ligações com eles, ligações essas que nem precisam de grampo telefônico para vir a luz: é só observar as reações-padrão que tanto nos aproximam da vilania. Quando mais maniqueísta nossa reflexão, quanto mais puros nos consideramos, mais o vilão cresce, mais poder ele adquire, mais território ele conquista. Para o vilão, a sombra do outro é força em estado puro. Ele come o lixo que envergonha o herói, e engorda. Destinatário de tantos conteúdos coletivos inconscientes nele projetados, o vilão amealha admiração, ódio e (o que estranhamente ainda nos surpreende), também votos e apoio popular. Hitler, Stalin, Franco, Pol Pot, Pinochet, Fidel, tiranos tão idênticos na essência quanto diferentes na aparência, somente chegaram aonde chegaram graças aos utilíssimos vilões do comunismo totalitário e do capitalismo imperialista, no fundo, a mesma bisca em duas versões igualmente deletérias do mundo e das pessoas. Como também, é claro, dependem do rebaixamento do nível mental da massa que os bancou e ainda banca, mesmo depois que sua volumosa sombra se tornou pública e notória. Começaram heróis e, em tempo, revelaram sua inequívoca inclinação para vilões, embora ainda convençam os pré-púberes psicológicos que se comprazem em acreditar em Papai Noel e na Cegonha.  Essa é a parte mais interessante do vilão. Sua sedução é longeva, assim como a do herói. Não surpreende, já que ambos são arquétipos. Assim como Eros e Tânatos, o Amor e a Morte, eles são gêmeos opostos e complementares. Um sempre puxa outro, é só esperar para ver. “Triste a nação que precisa de heróis”, o clichê de Brecht, bem merece uma versão para este momento: triste mesmo é a nação que precisa de vilões para desviar o olhar dos malfeitos de seus heróis. E dos próprios.

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