O sonho acabou

A democracia é um tipo de governo que opera pela vontade da maioria. O PT, de tanto mirar o próprio umbigo e se confundir com a democracia, impediu-se de apreender a essência dessa máxima incontornável. Para o partido do governo, democracia é só quando a maioria está a seu favor. Se estiver contra é golpe, fascismo, vai ter guerra e outros lugares comuns igualmente deletérios da reflexão crítica. Uma visão pueril, calcada em qualquer ideologia que funcione pela redução do mundo a dois campos de batalha mutuamente excludentes. Qualquer mesmo. Lamento que tenhamos chegado a esse ponto, levados pela insensatez da presidente e por sua incapacidade de antever os problemas e pedir ajuda em tempo hábil para encaminhá-los de modo razoável. Agora ela melancolicamente afirma que, se sobreviver, proporá um pacto. Agora? Carente de sabedoria e de outras qualidades femininas positivas, como a capacidade de reunir ao invés de dissociar, a presidente amarga as consequências de sua teimosia, arrogância e procrastinação. Nada mais anti-democrático que a ânsia de se perpetuar indefinidamente no poder e a qualquer preço, de qualquer jeito, fazendo qualquer coisa. O PT e seus mentores ainda têm muito o que aprender sobre a sombra que um ego dessa envergadura projeta e que termina por se voltar contra ele. Prova disso é a Lava-Jato, que refundou o PT e aqueles seus valores antes inegociáveis. O vasto ego petista, em nada melhor do que aqueles que o precederam no poder, não apreende metáforas, por excesso de materialismo sem imaginação. Mesmo assim, desconsiderando o mito e suas lições, atuando o mito ao invés de aprender com ele, o governo está sendo reenviado aos próprios limites, depois de uma hybris avassaladora. Pode aprender com a experiência ou se tornar ainda mais defensivo, reducionista e impermeável do que nunca, heróico que é. Pode recolher-se e revisar humildemente seu projeto ou pode botar suas hostes na rua, para matar ou morrer, por não ser capaz de aceitar o funcionamento democrático de uma sociedade pluralista. É espantosa a semelhança entre coronéis de direita e messias de esquerda. Eles são a cobra que engole o rabo. Todavia o sonho acabou e a vida desperta dá muito mais trabalho, ainda mais em meio à crise geral. Para os que ainda não perceberam a extensão dessa calamidade, o impeachment de um presidente é a humilhação generalizada e compartilhada por todos, seus eleitores ou não. Nada a comemorar portanto. O Brasil está de luto mais uma vez, por seu sebastianismo infanto-juventil que, aliás, já vai tarde.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Ana Maria Bacchi Ribeiro de Oliveira
    abr 19, 2016 @ 15:42:19

    👏👏

    Resposta

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