Naum, meu profeta menor

naum 1Hoje morreu Naum, xará de um dos chamados profetas menores do Velho Testamento, que conheci faz exatos dez anos, durante a produção de uma festa em que eu estava envolvida. A arte na escola era o tema do evento. Quando me pediram sugestões sobre o que apresentar, me veio na cabeça, feito um raio, a cena da prova de artes da peça “A aurora da minha vida”, seu maior sucesso de público e crítica e minha favorita de sua obra, por muitos motivos. A Mônica, que naquela época era uma amiga recém-adquirida, saiu no rastro dele e o encontrou posto em sossego na sua casa em Pinheiros, entre gatos e outras coisas bonitas que ele sabia amar, fazer e reunir. Quando cheguei para uma reunião da tal festa, ele já estava lá, sentado na mesa com aquele sorriso de Monalisa estampado na cara. Quase tive um siricotico. Fiquei olhando para ele e sorrindo de volta, do outro lado da mesa, feito uma palerma. Por sorte, ele adorava palermas. Ficamos amigos. Fizemos o roteiro da tal festa juntos. Fui à casa dele uma ou duas vezes e a gente mais falava bobagem, ria e comia salgadinho japonês do que trabalhava. Naum era uma metralhadora de comentários hilariantes que sempre roçavam o catastrófico, o que os tornava ainda mais hilariantes. Tinha um repertório de tipos maravilhosos, que iam de piedosas velhotas perversas a fervorosos pastores gays, uma imaginação incontrolável e um vocabulário bíblico estupendo, fora os hinos estapafúrdios (e também os bonitos), os corinhos dementes, as citações descontextualizadas que, virava e mexia, ele sacava da cartucheira. Naum era de uma incorreção política escandalosa, não haveria de sobreviver muito tempo à estupidez totalitária das minorias militantes. Era uma espécie de irmão mais novo, mais desbocado e muito paulista de Nelson Rodrigues. Só quando o conheci e conversamos um pouco mais foi que descobri que tinha sido ele o trickster que, na aurora dos anos 1980, plantou na minha alma uma semente de heresia que só haveria de medrar bem mais tarde, sob condições atmosféricas muito tempestuosas. Na verdade, conheci Naum muito antes, em 1981, quando fui ver pela primeira de quatro vezes “A aurora da minha vida”, num festival de teatro que rolou no Municipal, com as melhores peças do ano a preço de banana passada. Um luxo impensável para nós, durangos kids. Naum e Maria Adelaide Amaral puxavam o cordão de ouro, ela com “Ossos do Ofício” e ele com “A aurora”. Acho que era o Pessoal do Vitor que encenava a peça dele, porque me lembro do Paulo Betti e da Eliane Giardini bem mocinhos, fazendo o Doido e a Adiantada, entre outros personagens que salvaram a minha alma do limbo do grupo escolar da ditadura aonde ela ainda penava de vez em quando. Aquilo foi pura catarse aristotélica, um milagre de Dioniso. Ri, ri, ri de ficar doente, de doer o peito, de perder o fôlego e também de chorar. OK, todo mundo ria, mas eu ria mais do que todo mundo e até das coisas que pareciam não ter tanta graça assim. Naum, o profeta menor, estava me curando com seu teatro. Depois vieram “No Natal a gente vem de buscar”, com o grupo Pod Minoga, e “Um beijo, um abraço, um aperto de mão”, com o JC Violla e a Cristina Mutarelli, e a magnífica montagem carioca de “Suburbano coração”, com Fernanda Montenegro e Otávio Augusto, peça musicada por Chico Buarque com canções pra lá de inesquecíveis. Eu pensava em como alguém podia ser tão irreverente e tão reverente, tão livre daquele mundo pegajoso e o  mesmo tempo tão acorrentado às suas imagens e recordações. Naum rasurava e demolia sua própria tradição religiosa para reenviá-la ao sagrado, que há muito andava distante dela. Segundo o profeta menor Naum Alves de Souza, o riso era o único caminho para se chegar a Deus. A beleza também, mas quando se tratava dele, riso e beleza eram companheiros inseparáveis. Artista plástico completo, inventivo, original, multimidia, sou a sortuda possuidora de um deslumbrante casaco de shantung vermelho, dourado e laranja todo desenhado (literalmente) por ele, a roupa mais linda do meu armário, comprada por meu marido num bazar de natal que Naum inventou com duas amigas. Da última vez em que estive com ele, numa exposição no espaço de dança do JC Violla, ri, ri, ri de chorar e perder o fôlego, enquanto desfilavam diante de mim seus desenhos deliciosos, bizarros, provocativos, acompanhados de textos engraçadíssimos, absurdos e também canônicos. Sagrado e vulgar, doutrina e loucura, pureza e perversão, todos os opostos se misturam sem nenhuma decência mas com toda compostura, na obra de Naum, histriônico e escatológico como terão sido os verdadeiros profetas, já que sua missão era sacudir os alicerces do estabelecido e convocar o novo, nem que fosse a golpes de malho. Obrigada, querido, pela sua coragem, talento e senso de humor. Obrigado por ter me ajudado a reciclar e ressignificar minha herança protestante. O Brasil atual, das figuras reptilianas que se arrastam muito abaixo da linha da mediocridade, ficou hoje ainda mais babaca. Com tanto estafermo que bem podia bater as botas, vai logo o Naum, logo ele. Uma merda. Vai entender. Parece bem coisa dele.

P.S. – Ontem me lembrei de que o Naum me chamava de menina-pastora, pura gozação baseada numa garota de uns 12 anos que pregava o evangelho no youtube do jeito mais, digamos, heterodoxo.  naum 3

Anúncios

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Monica Kondziolková
    abr 11, 2016 @ 11:51:01

    Eli, sou leitora silenciosa dos teus textos. Textos tão vivos e cheios da tua essência que é impossível não ouvir a tua voz, declamando-os. Textos que falam diretamente à alma, de quem se arrisca. Apimentada e sempre criativa! Amo-te por isso! Tão bom ler sobre os momentos vividos e compartilhados com Naum! Obrigada por existir neste mundo… Isso sim eu chamo de resistência!

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: