“Um elogio da traição”

solve et coagula

Hoje é Sábado de Aleluia. Dia de malhar o Judas, na tradição do cristianismo popular. Para mim, dia de meditar sobre o traidor necessário. Ou ainda sobre os poderes misteriosos e imprevistos da alma imoral, como chamou o rabino Nilton Bonder à libido que confronta o estabelecido para renovar a tradição ressequida e quebradiça, ao ousar traí-la. Malhar o Judas é não só um símbolo muito eloquente de nossa tendência a tentar inutilmente excluir a sombra das cercanias do ego. É também uma evidência do estado crônico de inconsciência desse mesmo ego que, quanto mais bem informado, mais equivocado. Malhamos o Judas fora de nós para não entrarmos em contato com aquela voz que, dentro de nós, sussurra que, sem Judas, não haveria cristianismo, talvez sequer houvesse um Jesus. Aos obsedados por finais felizes e premiações celestes, congelados na expectativa de que um deus ex-machina venha resolver os problemas que nós mesmos criamos, Judas aparece como supremo vilão, o assassino do Cristo… A idiotia é tal que a nacionalidade de Judas, no âmbito do aparato “2 neurônio” que equipa homens e mulheres “sapiens” de todas as épocas, lugares e QIs, justifica uma animosidade contra os judeus a qual deveria, pela lógica de crianças de até 3 anos de idade, se estender naturalmente a Jesus. O terceiro neurônio, ou Tertium Datum, como querem alguns filósofos, justo aquele que tornaria muitos de nós capazes de estabelecer tal correlação menos que simplória entre o Salvador e o Traidor, se recusa a funcionar quando os temas são religião, política e futebol. A conexão Salvador-Traidor, contudo, é arquetípica e, por esse motivo, apela à urgente conscientização. Esse par de opostos ainda não foi devidamente examinado, sequer tende a ser cogitado, num estado de coisas em que o primado da razão técnica está longe de nos proteger dos fundamentalismos. Chico, que continua sendo meu compositor mais querido, escreveu, nos anos 1970, uma peça chamada “Calabar, o Elogio da Traição”. Na trama, passada no Recife dos tempos da agonia do Brasil holandês, um brasileiro mestiço, Domingos Calabar, alia-se aos “invasores” contra os portugueses não menos “invasores”, mas que chegaram antes. Escolhe o lado errado: é preso, condenado e executado por traição, isto é, por ter sido naïve o suficiente para sonhar com um Brasil flamengo, governado por um déspota esclarecido à Maurício de Nassau. Se a gente não soubesse da merda que deu lá na África do Sul, acreditaria que todos os “invasores” holandeses eram tolerantes mecenas das artes e das ciências, bancados por alguma ONG odara e não pela implacável Companhia das Índias Ocidentais.

judas

Pegando carona na reflexão de Chico sobre o elogio do traidor ou a integração da sombra, creio que posso afirmar que: (a) “nem toda feiticeira é corcunda”, (b) “nem toda brasileira é bunda”, (c) nem todo membro da classe média é (ou tem) escroto, (d) nem toda “mosquita” está infectada com o vírus da zika, (e) nem todo representante da elite porta cruéis olhos azuis e (f) nem todo traidor é um golpista nefasto. Como dizia o brilhante reacionário Nelson Rodrigues, a única generalização plausível é que toda unanimidade é burra. O que, porém, me parece, mais que tudo, enfurecer o traído, do fundo de sua percepção obnubilada pelas energias do coletivo, é que o traidor, ou o moto da traição que sofremos da parte de quem amamos, geralmente guarda uma incômoda semelhança com alguma forma que o próprio traído já exibiu um dia e perdeu, seja por força da passagem do tempo, da adaptação e acomodação inevitáveis, do acanalhamento evitável etc. Ou seja, todo(a) traído(a) já foi uma esposinha interessante e gostosa, um namorado apaixonado e criativo, um político idealista e inegociável, um jovem profissional capaz de tudo para subir na empresa… Talvez venha daí o ódio despido de autocrítica contra o pobre Judas, o grande Judas, o mais ousado e corajoso dos discípulos, o que mais radicalmente acreditou na divindade de Cristo, o único que se viu incapaz de sobreviver à morte do mestre… Judas, o traidor necessário, a peça-chave do projeto de redenção que Cristo encarna e que denuncia nossa piedosa covardia. Talvez esse ódio, miseravelmente elaborado em mais de 2000 anos de deturpação da mensagem de Jesus, se mantenha ativo apenas porque os editores de sua mensagem, e não Judas, tenham sido os traidores da boa nova radical que ele pregou. O Papa Francisco trai a dogma engessado na tentativa de arejar os corredores sombrios da hierarquia católica e nisso ela recupera muitos dos valores originais da mensagem do Cristo. A Operação Lava Jato recupera e aplica valores que o próprio PT, quando na oposição, defendia ferozmente e jurava implantar quando se tornasse governo… E por aí prossegue o meu raciocínio herege, na tentativa pretensiosa de ativar reflexões um pouco menos cliché. Os traidores vêm nos salvar dos salvadores que elegemos para nos liberar de fazer a nossa parte. Desse modo os traidores nos obrigam, contra a vontade, a rever nossa perversa lealdade a messias e doutrinas que nos retêm numa infância defensiva de ovo gorado. Mais que isso: o traidor vem salvar o próprio salvador de seus excessos, de sua polarização no modo +, de sua luminosidade desmedida, que cega mais do que dá a ver. Hoje passei o dia relendo e postando no FB alguns trechos do maravilhoso romance “Judas”, de Amos Oz, outro traidor contumaz que aprecio muito, pela obra que me encanta e esclarece como pela capacidade de auto-questionamento, a integridade e a coragem de enfrentar e denunciar o governo israelense e os fanatismos, em suas variadas manifestações. Separei este trecho, na página 286: “Os que estão dispostos a mudar, os que têm a força para mudar, sempre serão vistos como traidores pelos que não são capazes de qualquer mudança, que têm um medo mortal de mudanças, não entendem o que é mudança e abominam toda mudança.” Um homem admirável, esse Oz, que não teme mudar de opinião em face às mudanças do mundo. Muito diferente do Chico. Infelizmente.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. elianaatihe
    set 01, 2016 @ 08:36:29

    Republicou isso em Mulher-Esqueletoe comentado:

    Achei o tema propicio ao momento e reprisei. Beijos!

    Responder

  2. Marina
    set 01, 2016 @ 13:40:45

    Muito bom!

    Responder

  3. Luiz Duboc
    set 04, 2016 @ 07:43:08

    Propício para o momento, indica a autora. Fico pelo particular do egoísmo: pra mim, a ressureição de um injustiçado, sem analogias ou metáforas circunstanciais, judeu injustiçado, inventado pelo cristianismo para nos esquecermos que dona Maria, bela figura, e seu filho cabeludo eram judeus. Pedro, que devia ser chatíssimo e reaça, nega o mestre 3 vezes (ainda bem que o galo cantou, se acordasse tarde Pedrão continuaria tirando da seringa), nega, trai e vira santo. Judas vira traidor e nunca negou nada, negociou ou não se tem só a versão hollywoodiana primária antissemita, com beijo.
    Tenho uma boa, desculpe: Frei Leovigildo, inventor do ar condicionado para a missa das 6, nas minhas sessões de catequismo-caticismo, dizia que Pedrão nunca negou, mas já velho, era surdo, por isso não entendeu o centurião, e disse não para qualquer coisa. Isso é genial! A Bíblia, o Novo Testamento, Novinho: Pedrão era surdo!

    Responder

  4. fabianaprando
    set 06, 2016 @ 08:22:16

    Post maravilhoso! “Os traidores vêm nos salvar dos salvadores que elegemos para nos liberar de fazer a nossa parte.” Muito obrigada, Mulher-Esqueleto!

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