Páscoa

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Quem me conhece bem, sabe que, de todo o calendário canônico, a Páscoa é minha data favorita. Amo a Páscoa tanto quanto detesto o Natal, e por muitas e diferentes razões. Creio, porém, que o que mais me agrada na Páscoa é seu sincretismo, a recusa dessa festa a ser reduzida a uma única tradição e a um sentido de mão única. Nenhuma festa cristã é mais acolhedora das tradições pagãs, nenhuma é tão tolerante a imagens originárias de outras mitologias, nenhuma (fora as queridas festas juninas, recentemente demonizadas pelo protestantismo evangélico) é tão aberta e permeável ao folclore popular. Infelizmente, porém, aqui no Brasil, pelo menos, há muito tempo as crianças já não escutam de seus avós e pais as histórias que iluminam a Páscoa e a retiram da agenda do mercado para devolvê-la à da imaginação, que fertiliza a tradição, renovando seus significados e encantando com eles a vida cotidiana. Eu poderia ter interrompido antes do fim essa minha afirmação: há muito tempo as crianças não escutam de seus avós e pais as histórias… Tragicamente e sem nenhum remorso, vimos condenando as almas de nossas crianças ao vazio da racionalidade escolar, do materialismo individualista e consumista, das ideologias rasas e dualistas, da vulgaridade massificada que ocupa, com trastes inúteis e tóxicos, um espaço interno que deveria ser preenchido por valores éticos e estéticos estruturantes e duradouros. Não provemos mais as almas de nossas crianças com símbolos, metáforas, narrativas que as nutram e assim as ajudem a construir mundos internos criativos e críticos. Mesmo assim nos surpreendemos quando um jovem que vive uma vida de aparente conforto e estabilidade foge para se juntar às hostes do Estado Islâmico. Sem mundo interno, dotado de uma subjetividade frágil e suscetível, sem símbolos que o conectem em profundidade com sua cultura e sua comunidade, essa adesão me afigura como uma jornada desesperada do ego em formação, em busca dos valores genuínos que lhe foram recusados por sua família e nação. Carentes de metáforas, corremos o sério risco de nos tornarmos literais nas escolhas que fazemos.

pessanka

A Páscoa, contudo, está repleta de metáforas fortes e belas, que remetem ao ciclo da vida-morte-renascimento, à eclosão dos brotos e das ninhadas, à perenidade da alma em meio à constante ameaça de seu desaparecimento. O coelho é o símbolo pagão da fecundidade irreprimível da natureza. O ovo remete às origens da vida e é um elemento presente em muitas cosmogonias em que o próprio universo eclode de dentro de um ovo, botado por uma deusa ou um deus. A própria tradição ucraniana da Pessanka, a encantadora arte da pintura de ovos, viveu recentemente um renascimento digno de uma história de Páscoa. Erradicada nos tempos da Cortina de Ferro, a técnica foi esquecida. Mais tarde, contudo, foi recuperada graças ao seu cultivo no exílio, por imigrantes que se instalaram no sul do Brasil e continuaram a praticá-la. Depois da Glasnost, alguns desses artesãos retornaram à terra natal para ensinar sua arte aos jovens. Adoro esse caminho de volta da imaginação, que vence todos os totalitarismos e reafirma os valores da alma imoral e transgressora.

peixe seco

Para nós, que descendemos dos portugueses e temos raízes arquetípicas firmemente fincadas no solo da velha Europa, a tradicional bacalhoada de Páscoa reúne os ingredientes remanescentes na despensa do hemisfério norte, ao final de um inverno rigoroso: as batatas e o peixe seco salgado. Para a cultura judaica, que também nos influencia via cristianismo, Páscoa é Passagem, a saída do Egito rumo à peregrinação que se encerra com a tomada da terra prometida pelo povo hebreu. Para os cristãos, a Páscoa reitera o mitologema antiquíssimo do deus que morre e renasce para salvar a humanidade, a qual corre o risco de morrer juntamente com na natureza, durante o inverno. Átis, Tamuz, Dumuzi, Adônis, Dioniso, Cristo… O túmulo vazio no jardim, a estada no Hades, a deusa que pranteia o filho morto, Inana e Afrodite, o urobóro que se abre na Pietá e se fecha em Madalena… Como é lindo poder amplificar essas imagens, como faz bem ao coração imaginativo!

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Nestes tempos de patriarcado agonizante, de polarizações e conflitos em todas as instâncias, em que, juntamente com o legado das histórias, temos rejeitado a dádiva da civilização que é o diálogo entre os diferentes, estamos muito precisados dos significados profundos da Páscoa. Não só do descanso do feriado prolongado, mas também da reflexão que ele pode motivar, se a gente se dispuser a vivê-lo num certo estado de passividade receptiva, de abertura para o mistério da existência, meditando sobre o velho que precisa se encerrar para que o novo nasça, sobre nosso vínculo com a natureza e seus potenciais destrutivo-criativos, sobre o deuses que honramos e os que deixamos de honrar e que, por esse motivo, se transformam em sintomas literais de nossa falta de imaginação.

Tempos difíceis, dança de Shiva. Que o que estiver inteiro sobreviva e viceje. Boa Páscoa. De verdade.

túmulo vazio

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Ana Maria Bacchi Ribeiro de Oliveira
    mar 23, 2016 @ 16:39:15

    SENSACIONAL, ELI, MINHA DEUSA!!!

    >

    Responder

  2. Cristiane Marino
    mar 23, 2016 @ 18:16:55

    Prá você também !
    Bjs

    Responder

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