Mentira-ostentação

Hidra de Lerna

Mentir sempre foi moda. No Brasil de hoje então, mentir é um terninho Chanel preto debruado de branco: clássico. Agora, na vibe ostentação, mentir é pra lá de fashion: é sublime e necessário. Você merece. Você está podendo. Mentir para si mesmo até virou auto-engano, uma coisa finíssima, praticada com pose entre intelectuais e artistas que se autoproclamam de esquerda. Por sinal, não deixe de experimentar o estilo afirmativo da nova esquerda auto-enganada, nesta temporada de esqui na lama. Para fazer parte da “verdadeira esquerda”, caro leitor, você terá de acreditar que o termo “de esquerda” é monopólio semântico de um certo grupo de iniciados donos da verdade, mas sem escritura, por favor. Se você não fechar com o verbete segundo eles, pode esquecer: você é “de direita”,fascista, nazista e a mentira é toda sua. Se, por outro lado, você não tem essas veleidades ideológicas e é um aspirante a ou mesmo um membro da famigerada e cada vez mais evanescente “classe média escrota”, pode experimentar mentir no Facebook, pelo menos. Por imagens e palavras é divertido, melhora a auto-estima (ainda que fugazmente), alivia a depressão por falta de reflexão e emprego, reforça as projeções e, melhor de tudo: não engorda. Muito melhor: mentir é politicamente correto. Minta com humildade ou arrogância, minta com prepotência ou heroísmo, minta com ar de vítima e afirme o seu martírio, minta para destruir tudo menos o seu ego. Se e quando ameaçado de desmascaramento, prepare-se para dar a carteirada final, para sacar da guaiaca um discurso desconexo que ecoe em ouvidos igualmente desconexos, para gritar “você sabe com quem está falando?” e outras tiradas que sempre impressionam a congregação dos devotos. Prepare-se para matar os mensageiros, essa gente que se recusa a tecer loas a sua divina pessoa. Tem gente que está acima e abaixo de todas as regras, nisso concordamos. Não se pode impor valores humanos a entidades sobrenaturais. Nesta temporada de pantanal simbólico e literal, quanto maior a mentira, mais simpatia ela mobilizará, mais admiradores aderirão à sua causa, mais chances você terá de escapar ileso e, ainda por cima, ser homenageado. No rebote, a mentira reafirmada sem pejo pode vai transformá-lo em mártir, em herói, em presidente da República dos Mentirosos, nessa ordem. Pode haver um interlúdio em que a mentira reiterada à náusea recebe como prêmio um ministério, como disse certa vez um líder popular, há muito falecido. Um deus você já é, não duvide. Quanto mais auto-confiança tiver o mentiroso, quanto mais alto for seu ideal, quanto mais gente passiva e crente ele defraudar, quanto mais messiânico for seu modus operandi, quanto mais gente ele convencer de que está sendo perseguido, mais chance ele terá de prosseguir em sua escalada épica rumo ao Olimpo, onde também se mente muito. O mentiroso é sobretudo um forte, quando não um pusilânime que corre para debaixo da saia da mamãe. Experimente sua própria força mentindo. A coisa vicia mais que crack, acreditem. E é, afinal, de mentira em mentira que se chega à verdade, a do mentiroso pelo menos. A direita mente porque é direita, e escrota, a esquerda mente porque quer ser igual à direita, quicá até mais escrota, porém de um jeito diferente. Mentem os poderosos para dar exemplo aos insignificantes, que por sua vez mentem porque querem exercer um tico de poder e fascínio sobre os outros, coisa que a mentira lhes franqueia. Mentem os tiranos dizendo que são democratas. Mentem os democratas dizendo que são honestos. Mentir é tudo de bom: você não estava lá, se estava, não tinha nada a ver com a coisa, se tinha, não viu, não ouviu, não foi consultado a respeito, não é nada do que o outro está pensando, esse dinheiro não é seu, esse apartamento é do seu compadre. E para mentir comme il faut, negue. Negue a evidência, com a contundência lisa que faz a verdade se esconder de vergonha: o cara não era seu amigo, se era, não te consultou antes, não é você na foto, não era você quem decidia, essa assinatura não é sua, se é, você tinha misturado Lexotan com vodka e não estava em seu juízo perfeito, você chegou depois, você saiu antes. Em caso de expressão de dúvida por parte do receptor, seja eloquente, seja loquaz, afirme a barbaridade como se fosse o décimo-primeiro mandamento, aponte o dedo para quem expuser seu malfeito, vire o jogo a seu favor. Todo mundo vai se curvar à evidência que é sua majestosa pessoa, blindada pela numinosidade do complexo coletivo que lhe possui. Aposte na lógica do escorregadio, adote outras terminologias: o impeachment do outro era legítimo, o deste é golpe; furo virou vazamento; outra versão que não a sua já nasce falsa; somos nós contra eles etc. Assim até hoje funcionam a Bíblia, o Alcorão e a Torá, para citar apenas três exemplos irrefutáveis de histórias de versão única, O Capital incluído. Todo mundo vai acreditar porque o que interessa não é o QUÊ, é o COMO. Intelectuais mentem baseando-se em Greimas: o enunciado importa menos do que a enunciação. Para quem não sabe aplicar Greimas, o cérebro reptiliano funciona melhor, mais solto, sem grandes atrapalhações éticas por parte do córtex pré-frontal. Assista “House of Cards” como se fosse um filme tutorial, afinal a ficção também é mentira e todo mundo adora. Relaxe: esse castelo de cartas também não tem escritura. Minta invocando um deus, qualquer deus. Pode ser, como eu disse, você mesmo. Pode ser o Monstro do Espaguete Gigante daquela religião neozelandesa, que não é mais maluca do que as que excluem e matam, mentindo em nome da fé, seja ela política ou religiosa, o que dá no mesmo, como comprova o EI. De uma forma ou de outra, você vai sair dessa. Acredite no poder incomensurável do inconsciente coletivo, no rebaixamento do nível de consciência que bota todo mundo de quatro nessas horas, até os mais doutos intelectos (e, ao que parece, estes em especial). Quem não acreditar vai preferir fingir que acredita ou fazer ouvidos moucos ou vai reclamar com o espelho, que nunca mente. Por aqui, a gente brinca disso há 500 anos. Mentira é o tema do nosso eterno samba-enredo.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Ana Maria Bacchi Ribeiro de Oliveira
    mar 16, 2016 @ 14:52:30

    Eli, querida,

    Adorei seu texto, como sempre!! Estamos precisando de todos os deuses! Essa visão titânica dos lulapetês está acabando conosco! Socorro!!!!! Beijo, querida! Continue nos presenteando com sua inteligência e wit. Ana >

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  2. Cristiane Marino
    mar 16, 2016 @ 20:39:50

    Eli, depois dos fatos e escândalos de hoje….seu post foi providencial!
    Bjs

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  3. Claudia
    mar 20, 2016 @ 12:55:59

    Caramba loba mestra…

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  4. Fabiana
    mar 20, 2016 @ 17:25:57

    Essencial! Que bom encontrar consciência e bom senso em meio a tanta negação e ideologia vencida… Obrigada, querida!!

    Resposta

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