Machista

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O taxista me contou do amigo dele, uma besta de carga que dobra o expediente para bancar o cartão de crédito da mulher que dorme até o meio dia, a faculdade particular da filha, os games e o mais recente IPhone do filho pré-adolescente. Não troca de carro há cinco anos, está gordo, deprimido e chapado por estresse e falta de sono. Não se encontra mais com os amigos do ponto para beber uma cervejinha e relaxar na noite de sábado ou para jogar uma partida de futebol domingueira. Vergastado pela demanda alheia, cumpre à risca sua sina de macho provedor condenado a mover a roda morro acima diariamente, sem direito a refresco e unicamente em favor dos outros, até morrer de exaustão. Em suma: um machista. À filha adulta e universitária em regime de dedicação exclusiva, ele dá 20 reais toda vez que ela sai de casa, ato que não parece ofender a sensiblidade ideológica da moça que, segundo o narrador, é de esquerda. Recentemente ele abriu, sem querer, uma correspondência de banco que não era sua e descobriu que a marxista da família tem uma polpuda conta de poupança, provavelmente alimentada com os tais 20 reais diários. Já ele não consegue economizar o suficiente para comprar um carro melhor para trabalhar. Um rematado chauvinista, que impede o desenvolvimento de todos a quem provê indiscriminadamente, sem meritocracia, por dever e um tipo de amor que não ousa dizer o seu nome. Ainda não li no jornal (contudo ouvi de fonte limpa) a história do cara que bateu na mulher porque ela, inconformada com a separação, não quis deixar o ex levar consigo o próprio cachorro, no ato do abandono do lar. Não que ela gostasse do bicho, ao contrário. Obsedada por limpeza, ela o odiava. Tanto que matou o cão em seguida, razão pela qual levou uns tapas do sujeito.  No rescaldo, ele foi denunciado por violência doméstica e enquadrado na Lei Maria da Penha. Condenado, frequenta um grupo de terapia. Ela posa de vítima, já que parece que ninguém escutou a história completa e matar animais não é crime. Se você teve um ímpeto parecido com o dele ao ler este caso, cuidado. Pode acabar sendo obrigado a participar de um grupo de terapia para pessoas que consideram mais de uma versão da mesma história.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Joana Mascarenhas
    mar 16, 2016 @ 15:19:41

    Sensacional.

    Responder

  2. Ana Maria Bacchi Ribeiro de Oliveira
    mar 16, 2016 @ 15:33:37

    Excelente!!!!!!

    Responder

  3. Cristiane Marino
    mar 16, 2016 @ 20:35:59

    Eli, que absurdos!!!
    O machista provedor é doente, mas aceito pelo “senso-comum”…
    Agora no caso do cachorro, eu não ia só bater na mulher não…
    Criminosa tem que ir prá cadeia!
    Bjs

    Responder

  4. Claudia
    mar 20, 2016 @ 12:44:52

    Nossa…
    O pior quando leio história assim, é pensar que tem gente que não vê “nada demais”. Assustador e real.

    Responder

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