EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO 1: DONA COISA E OUTRAS HISTÓRIAS ESTRANHAS

saci

Para entender e amar Monteiro Lobato é preciso primeiro ler Monteiro Lobato. Se possível, na infância, quando a gente ainda tem a moleira bem aberta para o simbólico e uma inteligência integral  e integrada, que não foi fragmentada pela escola nem violada pelos sonhos de grandeza, sucesso e neurose com que os pais sufocam as crianças cada vez mais cedo, acreditando tragicamente que se trata de expressar algum tipo de amor doentio e deformante. Se você não leu e não gostou de ML, cale a boca, por favor. Você não está remotamente autorizado a fazer qualquer tipo de julgamento preconceituoso e decontextualizado dessa figura única na cultura brasileira, um homem do seu tempo, autêntico, temerário na sua coragem e no seu inegociável amor pelo Brasil, visionário, maluco, frágil, paradoxal, complexo, honesto, brilhante, ousado, honrado e sei lá o que mais. Como vocês puderam perceber pelo ruído de rasgar de sedas precedente, eu amo ML como a um pai, o que ele foi de fato para mim. Meu pai de verdade me deu de presente meu pai Monteiro Lobato, encarnado numa coleção verde que foi a coisa mais linda e importante que ganhei em toda a minha vida passada, presente e futura. Por esse motivo não vou permitir que nenhum(a) desavisado(a) mal informado(a) (estou parecendo a Loretta da “Vida de Brian”) fale mal dele impunemente, ah, não senhor, não vou mesmo. Quem quiser caluniar ML vai ter de se haver com a minha Emília pessoal, que aprendeu tudo o que sabe com a Emilia primeira e única: desaforada como ela, eu boto a língua bem botada para todo o cara-de-coruja-seca que se meter a criticar um autor que não conhece, baseando-se no cretinismo e cabotinismo (palavras do dicionário lobatiano) da correção política vigente, esse vírus maldito e altamente contagioso que espalha uma epidemia de unilateralidade, reducionismo, conflito dispensável e burrice, a se alastrar pelo país feito fogo pelo mato seco. Uma certa dona Coisa cujo nome fiz questão de esquecer, recentemente consagrada cavaleira do reino, andou falando por aí que ia tirar a obra de ML das listas de livros didáticos porque, de acordo com o questionável julgamento dela, trata-se de um autor racista. Para essa senhora, pessoa, aliás, assaz desinformada, eu explico que sua atitude de censura explícita vem prestar um imenso favor à obra desse autor original e transgressivo, um daimon que, faz décadas, fecunda e alimenta a alma das crianças brasileiras, as amarelas, as rosadas, as negras e também as verdes, laranjas e azuis. Já não era sem tempo, dona Coisa! A obra de ML não merece continuar a ser desvitalizada, quiçá destruída, pela porcaria de trabalho que a escola formal faz com a literatura de modo geral, tirando dela todo o sumo e a transformando numa coisa seca, quebradiça, insípida e inodora, deserotizada, a serviço dos protocolos burocráticos broxantes da educação conteudista e sem libido que só enxerga o vestibular na frente e tem como finalidade última transformar seres humanos ricos, imaginativos, inquietos e afetuosos em reprodutores-consumistas-depressivos-e-babacas. Obrigada obrigada obrigada, dona Coisa!!!! Doravante as crianças brasileiras poderão ler ML livremente, sem ter de ler ML obrigadas pela escola para fazer provinhas sem pé nem cabeça e trabalhinhos bizarros que não mais entupirão as lixeiras das salas dos professores!!! Elas poderão ler ML escondido, que maravilha!!!, porque ele será… censurado pela escola!!!! Um golpe de gênio inoportuno esse seu, hein, dona Coisa? Agora as crianças vão se arriscar para roubar os livros de ML dos monturos onde eles serão empilhados, na iminência de virar cinza nos autos-de-fé da cultura do neopositivismo mequetrefe que assola o país. Vão fazer com os livros de ML o que fazia aquele pessoal doido pra ler em “Farenheit 451″( o filme do Truffaut, baseado no romance de Ray Bradbury, está no Youtube, vão lá ver antes que alguma senhora da mesma liga da dona Coisa mande tirar!). Elas vão arriscar a vida por Emília, o Visconde, Narizinho, Pedrinho e o saci! E Deus sabe o quanto eles merecem que as crianças corram esse risco… Que tesão, dona Coisa! Proibindo ML de ser lido na escola, a senhora presta um grande favor à cultura brasileira em geral e à obra de ML em particular. As crianças ficarão doidinhas para ler esse autor proibido, maldito, misterioso, acusado de dizer coisas medonhas e, portanto, excitante e interessante. Que maravilhosa estratégia! Torço muito para que ela dê certo, antes que o cérebro das crianças brasileiras vire mingau, exposto sem reservas como tem sido a diversos tipos de lixo de altíssima toxicidade, com o qual a senhora aparentemente não se preocupa nem um pouco. De minha parte, prometo me esforçar para ajudar na sua cruzada antilobatiana. Isso é o tipo de coisa que ML aprovaria.

Inesquecível tia Nastácia

Inesquecível tia Nastácia

 

 

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Denise Molino
    nov 02, 2015 @ 07:29:58

    Excelente artigo. Sem dúvida a dimensão simbólica de Lobato tem a qualidade do livre pensar,do acesso à fantasia pela boca de sua Emília,figura teicksteriana,mensageira do inconsciente,faladora das verdades. Como veículo do novo e do estrangeiro assusta mesmo as mentes endurecidas ou temerosas da dúvida curiosa? Porque? A saudavel postura de quem está sp pondo as fuças nas coisas. Grande dobradinha Lobato-Jung que acolhe os opostos,ousa perguntar,amplia e renova.renova . Lobato para crianças e adultos.adultos . pensar direito é o que interessa.

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  2. Fabiana
    nov 02, 2015 @ 23:02:09

    Sou cria de Lobato também. Meu sonho é ser Emília. Tenho uma vida toda para chegar lá e a Mulher–Esqueleto pra me auxiliar na jornada. Obrigada, querida! Lavou minha alma, como sempre!!

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  3. Lourdinha Heredia
    nov 04, 2015 @ 18:19:46

    Porretas e endiabrados os dois textos, Eli. Você vingou a nós todos, amantes de Monteiro Lobato. Eu o conheci tarde, aos vinte, e acho que passei um ano lendo e comendo com farinha tudo dele que me passava pelas mãos. Beijos mil!

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  4. Lourdinha Heredia
    nov 04, 2015 @ 18:21:43

    Porreta e endiabrado! Bela vingança contra d. Coisa! Monteiro Lobato é de se ler e comer com farinha, não de se proibir! Apesar de que, proibido, fica mais gostoso mesmo! Você tem razão!

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