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Conteúdo da carteira do vovo

Passei anos cantando errado um verso de Puccini, achando que ele falava de um “bambino caro”, um menino querido. Hoje finalmente descobri, não sem tempo, que a ária se destina a um “babbino caro”, um papaizinho querido. Faz exatamente uma semana que meu pai se foi. Descobrir isso no dia em que decido escrever um pouco sobre ele e sua recente passagem me parece uma ressonância do tipo a que Jung chamou sincronicidade. Mais uma entre muitas que vivi, que temos vivido, nestes dias que se seguiram à partida do Pietro: Pedro para a família dele e os amigos do trabalho, Pedrinho para a família de minha mãe, vô Pedrinho para os netos, os próprios e os emprestados, seu Pedro para os condôminos do edifício Arpoador e da lojinha da Kopenhagen, das padarias Moema, Santa Marcelina e Manhattan, do ponto de taxi da esquina, da farmácia, do banco Itaú, da feira de sábado, do mercado Hirota… Foi esse o minúsculo circuito final, cumprido dia após dia nos últimos anos pelo nosso herói familiar, o pequeno deus tutelar que se foi às pressas, do jeito que ele gostava de ir, convocado afinal pela dama que roubou seu coração e se despediu há quase 4 anos, deixando-o partido ao meio, sem céu nem chão. A ária de Puccini é de um descabelamento digno do meu pai. Fala de um filho (deve ser uma filha, porque quem canta é uma mulher) que quer comprar um anel para dar de presente ao pai e, caso o pai não aceite o presente, o/a filho/a, irá se atirar no rio Arno. Isso é a cara do meu pai, ameaçar de se atirar no rio Arno, mas só ameaçar, porque ele não tinha perfil de suicida. Era simplesmente uma alma calabresa destemperada por natureza, encharcada de um amor selvagem, denso e fermentado qual massa de pão italiano. Era também uma mamma nutridora disfarçada de pai provedor, um aquariano típico que entendia a individualidade como doença grave, um birrento querido por quase todos, um generoso que frequentemente escorregava para o perdularismo, um homem de fé nada religioso e que detestava proselitismo, um cara com quem se podia contar, mesmo porque, se você não aceitasse a ajuda dele, ele ameaçava se atirar no rio Arno. Fui eu a encontrá-lo em casa há uma semana, deitadinho no chão do quarto de TV, tranquilo como a bela adormecida, isso depois de ter cumprido todos os seus ritos matinais, ajeitar o lençol, separar a roupa para vestir depois do banho, arrumar os remédios sobre o criado-mudo, abrir as janelas dos quartos. Tudo aconteceu exatamente como meu pai gostaria: ele saindo na carreira e eu sendo a primeira a descobrir. Esses rituais minuciosos e um pouco tirânicos que ele entretinha conseguiram garantir alguns fiapos de sentido à sua vida e o mantiveram funcionando pelos poucos anos que separaram a dolorosa e longa despedida de minha mãe da saída à francesa dele próprio. Há algumas semanas, segundo a Tânia que trabalhava na casa dele, nosso pai havia parado de dar corda no velhíssimo relógio de caixa que trouxe de sua amada Pharmácia Mesquita. Já o relógio instalado no peito dele, velho de 88 anos, parou de repente dentro de sua caixa frágil. Minha mãe deu alguma carteirada do lado de lá e Átropos, a Fatal Cortadeira, resolveu enfim mover sua tesoura implacável. Zapt! Lá se foi o velho fio esgarçado da vida do nosso papai querido. Sem hospitalizações torturantes, ainda retendo ferozmente os restos de sua autonomia e de sua condição de senhor do castelo arruinado. Dois meses atrás, ele foi ao geriatra e fez todos os exames de rotina, com resultados excelentes. A ciência médica ignora que a alma decide essas coisas e não sabe disso porque sequer acredita na alma, a pobre demiurga equivocada. Há uma semana, meu pai cruzou a ponte sobre o rio Arno ao invés de se jogar nele. Um homem de sorte, apesar das oportunidades magníficas que ele sempre se queixava de ter deixado escapar na vida, das perdas imaginárias e muito, muito reais, das decepções com pessoas que ele amava (algumas bem recentes e ainda doloridas), da solidão e do luto a que ele se entregou depois de perder a companheira de quase 70 anos, entre namoro e viuvez. Papai foi paradoxal, quando não radicalmente contraditório. Na morte, ele manteve essa complexidade. Gregário, ele era extremamente reservado. Ressentido, ele era de uma lealdade inegociável que, na hora de necessidade do outro que o ferira ou ofendera, se elevava (resolvido o problema, ele ficava de mal novamente). Muitas vezes frágil e amedrontado, ele soava firme e seguro de si, com sua linda voz de barítono. Falava o que queria na frente de qualquer um, mas conseguia guardar grandes segredos que lhe eram confiados. Por alguns anos, ele promoveu férias coletivas na praia para um bando de gente, temporadas inesquecíveis nas quais ele pagava tudo e trabalhava sem parar. Era assim que ele gostava de viver. Era assim que ele se divertia, por mais estranho que possa parecer. Meu pai era a comensalidade. Seu tipo sanguíneo era O negativo, o doador universal. A mesa era seu trono. Nos almoços de domingo, qualquer um que chegasse de surpresa na casa dele, além dos 15 convidados habituais, seria recebido com alegria e teria um lugar cavado às custas do conforto de todos (ele detestava refeições à americana, todos tinham de caber em volta da mesa). Ele odiava mudanças em geral e lutava bravamente contra elas. Perdia sempre. Ameaçava se jogar no rio Arno, mas se recuperava. O AVI que ele teve em 2010 foi um desafio hercúleo, mas ele era hercúleo, excessivo, titânico. Que não o tomem por santo, por favor, ele tinha seus demônios e não era nada básico lidar com eles. Na véspera da sua partida, nos falamos por celular e ele me encomendou algumas coisas para o dia seguinte. Eu lhe dei boa noite, mas ele sempre ligava de novo, mais tarde, para deixar uma mensagem com sua linda voz de mocinho. Só fui ouvir sua derradeira mensagem de voz na tarde do dia seguinte, depois do sepultamento. Eu havia segurado o choro até então, dando conta dos deveres, como ele mesmo fazia. Ouvir a voz dele, tão bonita e clara, com sua saudação habitual “É o papai!”, seguida de algumas palavrinhas banais e queridas, me nocauteou completamente. Me acabei de tanto chorar. No dia seguinte, sem querer, apaguei a mensagem quando estava tentando escutá-la de novo. Na hora, deu muita raiva. Depois entendi que a voz dele precisa ressoar dentro e não fora de nós, suas filhas, seus netos, seus amigos, vizinhos e sobrinhos. Seu legado, para nós que o amamos, um legado feito de lições a aprender e a não aprender, faz dele um sujeito imprescindível, cuja vida e morte marcaram profundamente aqueles que o conheceram.

 

P.S. – Na lista de links, procure “Amira, de 9 anos, canta “Ó mio babbino caro”. Puxe a falação dos chatos dos jurados e vá direto para a voz do anjo. Obrigada, Marthinha!

 

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11 Comentários (+adicionar seu?)

  1. claudia
    out 21, 2015 @ 20:31:01

    Que lindo Eli…
    Que privilégio ter essa família tão bem guardada aqui dentro de mim.

    Responder

  2. martha tavares guedes
    out 21, 2015 @ 22:32:52

    me acabei de tanto chorar… também.

    Responder

  3. Claudia Sanchotene
    out 22, 2015 @ 09:26:51

    Adoraria ter conhecido seu pai Eli! Também sou uma doadora universal : )

    Responder

  4. Ciça
    out 22, 2015 @ 13:10:58

    Que mensagem linda e emocionante Eli! Uma bela e tocante homenagem da filha madura e da menininha apaixonada pelo pai. Um amor que ultrapassa as barreiras do espaço e do tempo. Ele deve ter ficado emocionado e, talvez, discordado um pouco…

    Responder

  5. juci guedes
    out 22, 2015 @ 17:34:29

    Eli, quanta emoção. Eu que convivi com ele, sei o quanto era bom estar por perto dele. Você o descreveu muitíssimo bem. Ele realmente vai fazer muita falta, assim como a sua mãe, pessoa que eu aprendi a respeitar e amar. Obrigada por compartilhar essa preciosidade comigo. bjs

    Responder

  6. Cristiane Marino
    out 22, 2015 @ 22:21:49

    Oi Eli, puxa, depois de 11 meses de semi-vida estou começando a voltar a ser eu mesma e quis te fazer uma visita e descubro essa perda tão dolorida que você está vivendo.
    Seu texto é tocante, e tendo conhecido seu pai mesmo que brevemente, sei que faz jus à sua pessoa.
    Fico aliviada apenas por sua partida ter sido assim à francesa, sem sofrimento.
    Também já perdi meu pai e sei que elaborar esse luto não é fácil.
    Sinta-se abraçada com muito carinho.

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  7. Lourdinha Heredia
    out 23, 2015 @ 11:42:27

    Tocante, mas zero piegas! Gostoso de ler! E que homem lindo, tenho que dizer de novo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Responder

  8. Ana Luísa Lacombe
    out 28, 2015 @ 12:28:13

    Muito lindo, Eli! Sabe que ando guardando as mensagens que minha avó deixa na minha secretária eletrônica… Beijo

    Responder

  9. glaucia redondo
    nov 01, 2015 @ 00:12:06

    Vovô Pedrinho marcou a minha vida e da minha família, tive a alegria de conviver com ele por décadas, mais de três, curtindo a presença dele e da vovó Noiá nos grandes momentos e nos duros também. Quantos baurus, quantas macarronadas aos domingos, quantas temporadas na praia, avós postiços queridos das minhas filhas, quantas lembranças deliciosas de seu babbino caro.

    Responder

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