Apolo, Dafne e eu

Mulher-Esqueleto

Meu loureiro tem quinze anos de idade, trinta centímetros de diâmetro e mais ou menos seis metros de altura. Como a ninfa Dafne, cujo nome, em grego, quer dizer “loureiro”, ele lança seus dois lindos braços na direção do céu, um pouco suplicante, um pouco desafiador. Lutei anos contra as pragas que engruvinhavam suas folhas perfumadas. Até que um dia, meu jardineiro seu Aparecido me disse que não lutasse, que deixasse que o loureiro pegasse as pragas no meu lugar. Eu entendi, então, que ele era uma espécie de Cristo de quintal, vegetal e pagão. Depois das podas da última primavera, meu loureiro renovou-se e se encheu de brotos. Há uma semana, porém, suas folhas estropiadas secaram repentinamente e seu lindo tronco começou a rachar. Consultei o jardineiro (que não é mais o seu Aparecido), um agrônomo e a Ruth Toledo, minha mestra dos florais. O jardineiro embatucou. O agrônomo ecoou a Clarissa Pinkola Estés ao dizer que todos os seres vivos…

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. elianaatihe
    out 02, 2015 @ 19:33:46

    Comentário da Denise, que não consegue postar e me pediu pra fazer isso:
    Faltou o Bigode para salvar seu pé de louro. Ou a minha mãe, que tem o dedo verde… Esse texto e o do “Onde os deuses vêm repousar”, me lembraram este livro. O meu está depencando de velho e de lido… Beijos, querida Eli. E obrigada por tanta gentileza cósmica-textual. Dê.

    […]

    O jardineiro Bigode era um velho macambúzio, de pouca conversa, e não lá muito amável. Uma extraordinária floresta, cor de neve, brotava-lhe entre o nariz e a boca.

    […]

    Tistu, ao realizar o trabalho que Bigode lhe confiara, teve uma agradável surpresa: esse trabalho não lhe dava sono. Ao contrário, dava-lhe um grande prazer. Ele achava que a terra tinha um cheiro gostoso. […].

    Enquanto Tistu prosseguia o trabalho com afinco, Bigode dava lentamente uma volta pelo jardim. E Tistu descobriu aquele dia por que é que o velho jardineiro falava tão pouco com as pessoas: ele conversava com as flores.

    Vocês compreendem facilmente que depois de cumprimentar cada rosa de um ramo, cada cravo de uma touceira, já não há voz que chegue para distribuir “Boa noite, meu senhor!” ou “Bom apetite, minha senhora!” ou “Saúde!” quando alguém espirra, — todas essas coisas, enfim, que fazem os outros dizerem: “Como ele é bem educado!”

    Bigode ia de uma flor a outra, preocupando-se com a saúde de cada uma.

    ‒ Então, rosa-chá, sempre fazendo das suas! Guarda os botões escondido para fazê-los abrir quando ninguém espera… E você, trepadeira, está pensando que é a rainha da montanha, querendo fugir pelo alto dos caixilhos… Veja se isso são modos!

    Em seguida, virou-se para Tistu e gritou-lhe de longe:

    […]

    Voltaram devagarinho […]. De repente, eles pararam imóveis, boquiabertos, estupefatos, fora de si.

    ‒ Será que eu estou sonhando? — disse Bigode, esfregando os olhos. — Você está vendo o mesmo que eu?

    ‒ Estou, Sr. Bigode.

    Ao longo do muro, ali mesmo, a poucos passos, todos os vasos que Tistu enchera haviam florescido em menos de cinco minutos!

    […]

    ‒ Mas, se não se havia posto semente, Sr. Bigode, de onde é que saíram estas flores?

    ‒ Mistério, mistério… — respondeu Bigode.

    Em seguida, tomou bruscamente nas suas mãos calejadas a mãozinha de Tistu.

    ‒ Deixe ver o polegar!

    […]

    ‒ Meu filho — disse enfim, após madura reflexão — ocorre com você uma coisa extraordinária, surpreendente! Você tem polegar verde…

    […]

    ‒ O polegar verde é invisível. A coisa se passa por dentro da pele: é o que se chama um talento oculto. Só um especialista é que descobre. Ora, eu sou um especialista. Garanto que você tem polegar verde.

    […]

    O menino do dedo verde. Maurice Druon. Trad. Dom Marcos Barbosa. 5 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. p. 36-39

    Resposta

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