Figurinhas

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Este post é dedicado às figurinhas que fazem parte do lindo grupo que frequentou o curso que acabo de encerrar na Palas Atena. Espero que essa terra boa fecunde a realidade com alma. Amo vocês. Obrigada por me fazerem a melhor das companhias, ao longo de quatro noites mágicas. Beijos. Eli.

Foi assim que a mitoarqueóloga lituana Marija (lê-se Maria) Gimbutas chamou as estatuetas de cerâmica, pedra e osso que desenterrou, aos milhares, nos sítios das aldeias neolíticas que ela e sua equipe escavaram na Velha Europa, uma região que incluía Romênia, Hungria, antigas Iugoslávia e Tchecoslováquia, ilhas da Grécia, sul da Itália… Figurinhas era como eu chamava os bonequinhos com que meus filhos adoravam brincar e que eu sempre levava na bolsa, para usar como lenitivos contra o tédio e aditivos para a imaginação. As figurinhas que Gimbutas encontrou guardavam os celeiros, as casas e os túmulos, fecundavam as plantações, ajudavam as mulheres a engravidar e as grávidas a parir, protegiam as crianças, faziam companhia aos mortos enquanto eles esperavam para renascer e sabe-se lá mais o quê. No caso das nossas figurinhas, eram todas feitas de plástico e de imensa valia em casos de sala de espera, congestionamentos, mesas de restaurante e outras situações particularmente chatas para crianças. Enquanto o médico e o dentista se atrasavam ou os adultos conversavam, as pessoinhas mergulhavam em misteriosas narrativas em que seus personagens voavam perigosamente sobre pratos e copos, corriam e pulavam para cá e para lá, conversavam, lutavam, namoravam, eram fulminadas por raios… O que elas faziam sempre dependia do humor do demiurgo que as manipulava, igualzinho os deuses fazem com os seres humanos.  Havia as figurinhas bacanas da Lego, da Pollypocket, da Playmobil e as que a tia trazia da Disney. Para as crianças, porém, todas eram legais, mesmo as vagabundas e baratinhas que a gente comprava na loja do chinês aqui perto, os Pokemons legítimos ou gelados, os bichos e hominhos que vinham no Mc Lanche Feliz (Deus me perdoe), os dinossauros, os monstros que nem imagino de onde chegavam, umas porqueirinhas que a gente às vezes achava que eram lixo e que as crianças guardavam como se fossem pequenos tesouros.
venus passaro
deusa passaro madonaAs figurinhas de Gimbutas personificavam a deusa que regia aquele mundo perdido do qual nossa alma sente uma imensa nostalgia, ainda que não se aperceba disso. Um mundo aonde, ao que tudo indica, as pessoas preferiam fabricar ferramentas e enfeites a armas, escolhiam o lugar para construir suas aldeias pela beleza e não pela posição estratégica, e ainda tinham tempo livre para inventar objetos inúteis e lindos, participantes de uma religião e uma arte cujo principal símbolo era a Grande Mãe, doadora da vida e acolhedora da morte. Um mundo em que a terra era uma entidade viva e sagrada e não apenas pó, e onde todos os seres vivos participavam dessa sacralidade, cada qual a seu modo. Um mundo matrístico, como diria Humberto Maturana, em que o amor e o cuidado com o outro, não a competição e a agressividade, determinaram nossa sobrevivência como espécie. Há quem duvide que essa Era de Ouro tenha existido. Eu adoro acreditar que, sim, ela não apenas existiu, como continua viva em algum lugar dentro de nós, um lugar para onde as figurinhas nos levam quando o mundo real está chato demais, tolo demais, conflituoso demais, paranóico demais, vulgar demais. Esse reino da Deusa é, para mim, uma ilha interna e secreta, espécie de Creta da Idade do Bronze aonde a vida é feliz e tranquila, sem escravos para chicotear nem prisioneiros para massacrar, habitada por um povo que ama a paz, a beleza e a natureza. Uma Creta do coração. 


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Outro dia, assisti “Lego Movie”, uma delícia de brincadeira. Na história, o mundo Lego é um lugar quadradésimo, onde manda um tal de Mr. Business, que logo se transforma em President Business e depois em Lord Business. Esse CEO prá lá de chato e besta tem uma arma medonha com a qual ameaça colar todas as figurinhas de uma vez por todas em cenários fixos e coerentes, impedindo que, por exemplo, Drácula e Cleópatra dancem juntos no mesmo baile, ou seja, que os tempos e lugares se misturem, como manda a grande brincadeira. Só um escolhido dos Mestres Construtores, um cara chamado de O Especial pode evitar essa horrível tragédia. O problema é que aparentemente o Especial é Emmet, o operário mais quadrado, previsível e mediano que existe. O roteiro é pura cabeça de criança, tão engraçado e maluco quanto profundo e verdadeiro.  Não perca!

emmet lucy

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7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Dra. Cristiane Marino - Mulheres em Círculo
    abr 26, 2015 @ 19:50:30

    Oi Eli, adorei as figurinhas…
    Estamos trabalhando bastante o corpo da Deusa no Círculo, está gerando uma série de posts lá no blog, quando puder, dê uma olhada.
    Bjs

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  2. Maria de Lourdes Peres Heredia
    abr 27, 2015 @ 13:13:54

    Absolutamente delicioso!!!!!!!!!!!!!!!!! Beijo, querida!

    Resposta

  3. juci
    abr 27, 2015 @ 19:05:18

    Fez-me lembrar do Gabriel. Ele mesmo depois de moço, as vezes pegava os bonequinhos e como estivesse “tirando sarro” brincava. Bons tempos!!!

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  4. Fabiana
    abr 30, 2015 @ 22:22:54

    Amei o post! Mulher-Esqueleto, você é uma figurinha! Beijos!!

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  5. ana maria bacchi ribeiro de oliveira
    maio 17, 2015 @ 12:30:37

    Sim, Eli, você é uma figurinha, concordo com Fabi. Uma figurinha que nos abre horizontes antes obscuros e que nos incentiva à reflexão! Obrigada! Beijo

    Resposta

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