Meninice

mason duplo Mason fases “Boyhood” (Richard Linklater, 2013) é um filme sobre nada. O nada trepidante e turbulento, tedioso e engraçado, desafiante e perigoso do dia-a-dia da vida de um ser humano do sexo masculino que se move rapidamente, da infância para a primeira idade adulta. O jeito como o filme foi feito e narrado é muito mais importante do que a história que ele conta, uma história sobre esse tudo a que chamamos nada e que foi a chave do sucesso de um seriado clássico de TV que muito gente continua a amar 20 anos depois de ter acabado: “Seinfeld”. No seriado, que durou, sei lá, menos de 10 anos, fica mais fácil a gente observar as transformações ocorridas, mais na aparência dos atores do que no enredo propriamente. “O mito é o nada que é tudo”, Fernando Pessoa escreveu, sobre a imagem que funda realidades. Em “Boyhood”, um ator mirim (Ellan Coltrane) encarna Mason, o protagonista de uma epopeia que se desenrola por 12 anos. Ellan-Mason começa a filmar-viver a história com 10 anos, por aí, e vai crescendo até fazer 20, por aí. A gente vai junto com ele, constatando as mudanças que se operam, não somente nele, mas nos outros personagens com os quais ele interage, que também amadurecem, envelhecem, decaem, renascem das cinzas, emagrecem, engordam, ganham cabelos brancos, perdem a graça, ficam mais interessantes… Ninguém morre, não literalmente, no filme, mas todo mundo morre muitas vezes nessa história que certamente poderia se chamar “As Metamorfoses” sem ofender Ovídio, longe disso. Ellan-Mason enfrenta a crise do fim do casamento dos pais, as sucessivas mudanças da família, a concorrência da irmã graciosa (que cresce e vira uma moça sem-gracíssima), a indefinição do pai, as crises nos casamentos posteriores da mãe, as rupturas e os encontros, os variados estilos dos “bullies” das diversas escolas para as quais têm de se mudar enquanto a mãe se firma na carreira, a chegada do primeiro amor… Vai sobrevivendo a tudo e, mais que isso, as experiências vão construindo seu modo de estar no mundo, melancólico, sensível, doce, distraído para as coisas “importantes”, embora também muito atento para o mundo que o cerca e o seu mundo interno. Um menino fora da curva, com um daimon que o protege de dentro e vai se desvelando, desvelando seu mistério, desvelando uma vocação, exibindo, em seu portador, um delicado holograma, uma maneira autêntica de ser e de viver. Ellan-Mason é o fruto desse daimon que amadurece ao sabor das estações, as cálidas e as hostis, um daimon ao qual é permitido se manifestar mais por conta da falta de controles e proteção dos adultos do que pelo excesso: na imaturidade dos pais, na insegurança afetiva e na presença amorosa e constante da mãe, na relação de contrastes e colaborações com a irmã mais velha e outras mulheres, na instabilidade adorável do pai, na agressividade competitiva e insegura dos padrastos … E por aí segue essa história simples e preciosa, mais uma imagem que se desenvolve (como disse o James Hillman) que uma narrativa biográfica.

mason mae
mason pai 2

Não é de hoje que minha alma (ou meu animus, sei lá, palavra bonita de que gosto) anda movida pelas narrativas que falam sobre os homens e o masculino, seus sofrimentos, suas ilusões, seu modo peculiar de se relacionar, seus discursos, sua alteridade por vezes insuportável para nós, mulheres. Já até falei disso aqui no blog, em dois posts (“Chatas” e “Na companhia dos homens”). Ultimamente ando enxergando essas imagens mais no cinema que em outros lugares da cultura. Teve gente que achou “Chef” tosco e tem toda razão. Simplório, convencional, previsível, mas também muito revelador e profundo, embora só para quem está com um olho interno ativado para ver o voo de vagalume das conexões que cruzam o enunciado, como diria o chato do Greimas. Outros filmes sobre esse mesmo tema, que recomendo não como crítica, Deus me livre, sim como fruidora das imagens que nos revelam quem somos, muito mais e bem melhor do que fazem as explicações das ciências e da religião. Segue um pequena lista de lançamentos mais ou menos recentes, que prometo ir encompridando, no ritmo das minhas descobertas:

– “O que os homens falam”, melancólico, claustrofóbico, niilista, mas bonito. Triste conclusão : os homens falam nada.

– “O juiz”, legados masculinos polêmicos, rebeldes que repetem os patriarcas que confrontaram um dia, prisioneiros arriando sob o fardo de tantos papéis e personas. Hollywoodiano mas porreta.

– “O doador de memórias”, para jovenzinhos, mas com um enredo repleto de ideias originais e imagens interessantes. Destaque para a velharada maravilhosa: Jeff Bridges e Meryl Streep, em fúria de titãs.

– “Relatos selvagens”, bestial, não no sentido eufêmico que os lusitanos emprestam ao termo. Personas rotas, egos fraturados e a lava arrastando tudo. Coisa de Dioniso, para estômagos fortes.

– “Magia ao luar”, mais dualismos ingênuos e nostálgicos de Woody Allen, uma preciosa metáfora para o esgotamento da razão prático-científica. Sem fantasia não dá pra viver.

– “Amor bandido” (tradução babaca e equivocada para “Mud”, isto é, “Lama”), pais e filhos, os biográficos e os acidentais, numa história complexa e bonita. Uma educação sentimental do masculino, que começa no ar e termina na água.

– “Liberal arts”, cretinamente traduzido como “Histórias de amor”… Uma delícia de história, sobre homens que congelam em formas esgotadas e homens que decidem fluir.

– “Thanks for sharing”, graças a deus sem título infame em português, conta a história delicada e dramática de homens que precisam lidar com adições que travam a vida e destroçam relações. Um embate e tanto entre egos bem intencionados e a sombra, que quer mais do que simplesmente ser estoicamente reprimida. Engraçado e sério na medida certa, com atuações ótimas de Mark Ruffalo (sempre um fofo) e do grande Tim Robbins, embora todos os atores estejam ótimos (até mesmo a enjoadinha Gwineth Paltrow).

mason uni

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana
    nov 10, 2014 @ 20:58:28

    Querida!!

    A mosca azul que faz a conexão com o masculino também me pegou! Estou tomada por um livro lindo que conheci no último sábado e que sexta-feira levarei para você conhecer, se ainda não teve esse prazer! Falo de “O Matador” de Wander Piroli, magistralmente ilustrado pelo Odilon Moraes e editado pela Cosac Naify. Simplesmente arrebatador. Da estirpe do seu post!
    Beijos e muito obrigada, Mulher-Esqueleto!

    Responder

  2. elianaatihe
    jan 15, 2015 @ 11:12:52

    Republicou isso em Mulher-Esqueletoe comentado:

    Com a merecida vitória no Globo de Ouro (do filme e da atriz coadjuvante), resolvi republicar este post. Acho que vale a pena ler ou reler depois do reconhecimento público de um trabalho totalmente original.

    Responder

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