Mezinhas

Para Bebel, que sofre nas garras da vaidade científica.

Em caso de saudade da minha mãe, escrevo. Ultimamente, por conta de uns perrengues em família, andamos nos falando muito, não em mesas brancas, que não gosto de literalizações reducionistas. E quando a membrana entre os mundos fica mais fina e porosa, a saudade aperta, claro, coisa mais que natural. Sinal de que ela está na área, qual aroma de bolo flutuando no ar. Pode estar no jardim que anuncia a primavera desafiando a estiagem, passando cheque sem fundo da chuva que há de chegar. Na fé de que as coisas se ajeitarão, de um modo ou de outro, afinal, porque tudo se ajeita e o tempo é o melhor remédio. No serviço da casa que retomo, com prazer, quando da aposentadoria de minha fiel escudeira. Hoje acordei e resolvi aplicar a terapia do soro fisiológico, boa e baratinha, coisa bem de minha mãe. Espirrei no nariz, gargarejei um pouco e dei um banho de gato com ele no rosto, deixando secar naturalmente. Soro fisiológico é um santo remédio para ressecamentos de qualquer natureza, físicos e espirituais. A pele fica mais viçosa, o nariz agradece a garganta se amacia de pronto. Uma das mezinhas de dona Dinorah, sendo mezinhas aquelas poções boas e baratinhas da medicina popular, mais para bruxaria que para ciência, porém quase sempre de comprovado resultado. O soro fisiológico me aliviou da saudade e, enquanto ele secava sobre a minha pele, pensei que não deixa de ser um correlato da lágrima, talvez daí sua eficácia. Mezinha para a secura literal e generalizada em que temos vivido, metáfora de um mundo em que as emoções não valem um tostão de mel coado e ficam por aí, feito mendigas loucas, parasitando a vida racional e produtiva dos heróis no comando. Que falta nos fazem as mezinhas, remedinhos para a alma companheira inseparável do corpo, legados das avós passados de mães para filhas! Canja quentinha para corpos exaustos, cera de ouvido para espinhas inflamadas, clíster de chá de erva-doce para lombrigas agitadas, esfoliante de limão com açúcar, máscara facial de clara de ovos para peles flácidas e capilar de abacate para cabelos quebradiços, cobrinha de papel higiênico metidas entre os dedos dos pés recém-lavados para precaver das frieiras e escalda-pés para friagens, água com açúcar para sustos, bolinhas de lã arrancadas do cobertor do nenê, umidecidas com a saliva da mãe e coladas bem no meio da testa da pessoinha, para aliviar crises de soluço, gargarejo de água morna, limão, sal e bicarbonato de sódio para voz rouca e garganta ardida, vaselina em pasta para narizes feridentos de tanto assoar, vaporização com chá de guaco para tosses gordas e de folhas de eucalipto para peitos que chiam, chá de folhas de goiabeira para piriris…

Faxina, colagem Eliana

Ainda hei de escrever um manual de mezinhas de minha mãe, em homenagem a esse mundo que se dissipa na névoa de nossa inteligência estéril e sem imaginação, como aconteceu com a ilha de Avalon quando da chegada dos padres. O que não tem remédio, remediado está, dizia ela, munida de frases feitas para aplicar, como emplastros, em todas as situações. Para todos os males humanos, todos mesmo, não bastam os remédios objetivos, posto que a vida é mais que a objetividade fria e a cortante eficiência. Aliás, a vida é sonho, já diziam Calderón de La Barca e Shakespeare, que também se tratavam com mezinhas, uma teia inconsútil tramada de coisas visíveis e invisíveis, todas muito reais, todas pedindo os devidos cuidados e devoções e atenções e lenitivos. Nosso coração é muito mais que uma bomba e um músculo. Nas mezinhas, a dose salvadora é a que introduz a fantasia, o quinhão da alma no remédio. Sua falta tem feito toda a diferença. O mundo sempre será o mundo, a pendular entre horrores e bençãos. Somos nós os fiéis da balança, que anda bem desconjuntada, por sinal, já que temos sido desleais com os valores que nos tornam verdadeiramente humanos. Mezinhas que amaciem, umideçam, aliviem, adocem, afofem, temperem, amenizem, embelezem, enfim tornem possível e viável a vida. Bença, mãe. Obrigada e um beijo.

Leda e o cisne, Eliana

Leda e o cisne,  colagem, Eliana

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6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Lourdinha Heredia
    set 18, 2014 @ 19:14:27

    Delicioso, adorável esse post, Eli! Caiu no aconchego do meu colo, dos meus olhos e do meu ouvido e me trouxe lembranças de uma tia avó, minha querida Iá, e suas receitas para tudo. Bons tempos aqueles em que essa “kitchen magic” cuidava de todos os pedaços do nosso corpo e nossa alma!

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  2. Cristina Cavalcante Machado
    set 18, 2014 @ 20:31:36

    Querida Eli, como foi bom ler suas palavras pra alma. Seu texto foi uma mezinha pra mim. Lembrei da minha mãe e da minha avó, duas mulheres que sabiam cuidar da minha alma. Muito obrigada Eli! Um grande Abraço, Cris Machado

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  3. Fabiana
    set 19, 2014 @ 18:26:14

    Bom demais!!
    Beijos e a sua benção, Mulher-Esqueleto!

    Responder

  4. Thiago Domingues
    set 23, 2014 @ 16:13:37

    Você incrível!
    Toda vez que ouço você falar lembro da Cora e com este texto não foi diferente.
    Aquela sabedoria que inspira e encanta, a voz doce que abraça o coração e diz pegando nas nossas mãos: confia sempre!
    Obrigado sempre!

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  5. Ana Luisa Lacombe
    set 24, 2014 @ 16:26:10

    Eli, que lindo este texto! Adorei! Me emocionei… Sempre bom ler seus escritos. Me sinto sortuda de te conhecer e partilhar esses saberes.

    Responder

  6. juci
    nov 27, 2014 @ 21:48:22

    Puxa!! Fiquei surpresa de receber de novo a Mulher esqueleto. Pensei que tinha dado um tempo. Você sempre enviava pelo outro e-mail. Mas tudo bem. Ele vindo é o que importa. Por sinal adorei a mezinha da sua mãe. Acho que porque já sou velha e tenho a minha particular .rsrsrs. Você menina é muito talentosa.bjs

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