Na companhia dos homens

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Fomos ver “Chef” anteontem, filme gostoso e caprichado, do tipo trickster, que são os livros e filmes-embusteiros, aqueles que parecem uma coisa quando são outra, que se passam por levinhos e despretensiosos, quando são, na verdade, densos e profundos. Claro que eles só são assim para quem tem gosto por descascar imagens como quem descasca uma cebola, chegando devagar, com alguma paciência, algum cuidado e muito prazer, ao sumo, ao núcleo, ao subtexto onde o arquétipo pulsa e vibra quase ao alcance da mão de tão aflorado, a desvelar o mistério que se oculta por trás de uma narrativa convencional e até um bocado previsível. Talvez eu ande pensando demais nos homens para deixar escapar uma oportunidade como esta. Deve ser por isso que “Chef” se abriu para mim feito um untuoso sanduíche de carne louca, lotada de molho picante. Semanas atrás, me peguei incomodadíssima com a vitimização crônica das mulheres. Escrevi até um post, “Chatas”, reclamando explicitamente do insuportável mimimi das fêmeas da espécie. Antes disso, há dois meses, mais ou menos, li um artigo do Francisco Daudt chamado “Inveja da vulva”, em que ele contava como muitos de seus pacientes homens se sentiam  em relação à opressão exercida pelas mulheres: a que elas aprenderam com os machos e aprimoraram com o feminismo pintudo, e a que elas exercem desde que o mundo é mundo, criando e educando todo tipo de escroto, de patriarcas potentes a fodões-merda (termo genial inventado pelo próprio Daudt numa outra crônica). Lidando com o tema da ferida dos homens que também sofrem, e muito, sob a canga do patriarcado, propus ao pessoal das matilhas a leitura de “Sob a sombra de Saturno”, do sempre afiado James Hollis, para contrabalançar nossas “leituras de mulher” e tentar nos colocar um pouco na pele desse outro cuja alma mal conhecemos, porém não nos constrangemos de julgar. A mulherada das matilhas topou, já que se trata de uma cachorrada de alma lupina, um povo da alma destemido para lidar com a própria sombra. Vi “Chef” no clima dessas imagens externas, mas também das internas, em especial as de um sonho que tive com um poderoso “homem vermelho”, um “ator e médico” (segundo a narrativa do sonho) aprisionado num calabouço muito pequeno para o tamanho dele. Não posso deixar de fantasiar que falar dos homens seja também uma demanda do meu animus, que anda se sentindo apertado na kitchenete psíquica aonde mora atualmente. Todavia vamos ao filme, com sua confraria iniciática masculina, na vibe da abordagem do tema pelo livro de Hollis: a urgência de reconectar os homens com seus pais pessoais e os ancestrais coletivos, por meio de rituais que tornem possível ativar, dentro deles, os poderes de cura que não conseguiram receber de fora. O protagonista é Carl Casper (o simpático gigante Jon Favreau), que acha que manda na cozinha de um restaurante chique de Los Angeles. Literalmente possuído por seu daimon, ele vive tão intensamente para o que ama fazer que  negligencia a relação com o filho, um menino fofo de uns dez anos, sensível, especialista em redes sociais da Internet e doido pelo pai. O dinamismo literal pai-filho está armado e o garoto, cuja mãe é a a gostosona Sofia Vergara, corre um sério risco de se tornar mais um prisioneiro do complexo materno. Ocorre que os deuses começam a mover as peças do tabuleiro, botando em campo dois “pais” simbólicos que intervêm, aparentemente para azarar com o “filho” chef. O primeiro “pai” coletivo de Casper é o dono do restaurante, um cara rígido, conservador, sem imaginação, vivido por Dustin Hoffman, que impede Casper de inovar o cardápio, impondo-lhe que continue preparando os mesmos pratos que, há dez anos, agradam os clientes. Para foder com (e também para resgatar) o chef, aparece um segundo “pai” coletivo: crítico gastronômico, blogueiro badalado, que o acusa de falta de criatividade e o espinafra em seu blog. Furioso, Casper se destempera e dá um piti, no restaurante lotado, com o blogueiro que veio para o jantar. Casper tem sua imagem pública devastada por um filminho do tal piti, que alguém posta no Youtube. Antes disso, porém, ele já havia sido demitido. A briga na Internet se torna viral e Casper não arruma emprego em lugar nenhum. Mais não vou contar, para não me assumir a “spoiler” que sou. De volta à estaca zero, na jornada e no mundão, o chef vai cruzar com um bando de figuras masculinas uma mais interessante que a outra, que irão testá-lo e apoiá-lo na construção da própria masculinidade profunda: um ex-marido da ex-mulher, bandalho, sedutor e rico; um irmão de alma que se alinha com ele para o que der e vier; duas lindas figuras de anima, uma que o desafia a mudar e outra que o apóia na mudança (a sorte de Casper é que ele está muito bem de mulher). Mais que todos, porém, está o co-protagonista, o filho que o chef decide enfim iniciar no seu amor pela comida e pelo trabalho com significado, o puer que não apenas aprende, como também ensina – e muito – ao senex inseguro que seu pai encarna. Para reforçar o time, ainda há a personagem do sogro cubano, artista como o genro, um cantor latino cheio de suíngue e sabedoria, um senex com tudo em cima, que faz muito bem o que gosta e mostra o que sabe ao neto fascinado. Uma imagem em especial me pegou de frente, pela riqueza do material simbólico que ela evoca: a do pai presenteando o filho com uma faca que ambos compram juntos. Tenho eu mesma um filho que quer ser chef e sei o que significa, nesse universo, comprar sua própria faca. Meu filho me ensinou que um verdadeiro cozinheiro leva sua faca para o trabalho. Ela atesta a sua habilidade, o seu domínio da técnica, a sua capacidade de discriminar, o seu respeito pela ferramenta e pelos materiais do artista, sem os quais ele não é capaz de realizar sua obra. Sua faca é, em suma, sua potência. E para lidar com ela, é preciso aprender a usá-la, de modo que ela não te mande para pronto-socorro. O risco e a experiência. O limite e a força. A cicatriz e o sangue da iniciação: uma queimadura na chapa quente, um corte do dedo. O menino aprendendo com a pai a lidar com o fogo e a usar sua faca é aquele momento que vale pelo filme, sabe? Mas aqui o filme inteiro vale muito.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Cristiane Marino - Mulheres em Círculo
    ago 24, 2014 @ 12:21:07

    Vou assistir, adorei a dica!
    Bjs

    Resposta

  2. Maria Beatriz Szili
    ago 24, 2014 @ 21:33:09

    Maria Beatriz Szili – RODA DE MULHERES SOLIDÃO E INTIMIDADE

    Resposta

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