“Te adorando pelo avesso”

Zeus e Antiope

O deus atravessou a multidão com compostura e segurança dignas do primeiro escalão do Olimpo. Estava cercado por numerosos policiais que o constrangiam tanto quanto o protegiam da sanha do populacho, tomado por um frenesi. Ofensas, gritos, choro e ranger de dentes não pareciam intimidá-lo. Não pude deixar de pensar em Zeus, o grande estuprador e fecundador de mulheres mortais; em Dioniso, o deus da loucura; em Ares, o senhor da guerra, sempre acompanhado de seus leões de chácara Fobo (Medo) e Deimos (Terror). As mulheres compunham a maioria do séquito que aguardava a chegada do deus ao aeroporto. Não pude deixar de pensar que, como “As bacantes”, se os policiais não estivessem lá para contê-las, elas teriam partido para um ritual orgiástico de desmembramento, um “sparagmós” como aquele em que o rei de Tebas, Penteu, foi despedaçado por um grupo de respeitáveis senhoras, cidadãs exemplares, transformadas por Dioniso num bando de loucas selvagens. Três anos foragido, anos e anos passados da violência literal cometida por ele contra aquelas mulheres e elas ainda permanecem imobilizadas no evento, não procuraram psicoterapia (ou se procuraram, a psicoterapia não as ajudou a sair de lá), não conseguiram descer da maca onde ele perpetrou seus crimes, com a boa consciência de um ente sobrenatural que se crê acima do bem e do mal. Iguais às bacantes, elas ouviram o chamado e largaram o que estavam fazendo, seus negócios, sua casa, seus filhos, para responder à  convocação da divindade, tomadas por uma paixão sombria que as expunha e expunha suas famílias num circo de horrores bem ao gosto das feras midiáticas. Histéricas, elas gemiam e choravam ao microfone, alegando que precisavam testemunhar com os próprios olhos a prisão dele, que agora, sim, elas se sentiam verdadeiramente livres, revelando aos berros que ele implantara óvulos delas a torto e a direito, que elas tinham filhos ignotos espalhados por aí e outras barbaridades nelsonrodrigueanas que a gente enterra e esquece, por não haver outro modo de se lidar com elas. O discurso errático delas, porém, revelava bem o contrário do que mostrava a experiência. Desmascarado o criminoso, julgado e condenado, elas estariam livres para retomar a própria vida e se curar de suas feridas. Todavia era como se elas tivessem passado todos esses anos a impedir qualquer a cicatrização, cutucando a casca mal ela se formava, revolvendo a lesão para manter a carne viva, a paixão ativa ainda que pelo avesso, ainda que pelo ódio que, como todos sabemos, está longe de ser o oposto do amor, sendo apenas sua outra face. Já cantava Ellis, nos versos imortais de Aldir Blanc e João Bosco, que “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam…”. Aquele predador merecia de suas vítimas a mais gélida indiferença, uma tal que o lançasse na pocilga abjeta do opróbrio e do esquecimento, um lugar ainda mais frio e cinzento que qualquer cela de presídio. Recebeu, no entanto, uma ardente homenagem de mulheres que deveriam tê-lo assassinado em seus corações mas, ao contrário, acorreram para sacrificar a ele sua intimidade e as de suas famílias. Se, no ato do estupro, elas estavam literalmente anestesiadas, portanto incapazes de reagir, o ritual que protagonizaram em pleno aeroporto serviu para mostrar que continuam inconscientes, muito embora agora elas aparentem estar despertas.

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Conversando com a Ruth Toledo Altschuler, minha terapeuta de florais, ela me iniciou na ideia de “woundology”, um termo traduzido livremente como “feridologia”, isto é, a capacidade que temos de tirar valor de nossas feridas emocionais e de permanecer imobilizados nelas. Ruth me apresentou a Caroline Myss, que foi quem cunhou esse termo. Para Caroline, a cura emocional tem a ver com a necessidade de enxergar “o poder que as feridas têm sobre nós” e “reconhecer a energia que investimos para manter nossas feridas abertas”. Tem uma fala interessante dela no Youtube, no link http://youtu.be/pzVyNoFA9Es

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Nas matilhas lá do ateliê, enquanto lemos nosso clássico “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, noto o frisson que o conto do Barba Azul continua a desencadear e como essa imagem arquetípica do predador psíquico sempre retorna às nossas conversas, ainda que a gente esteja envolvida com outros enredos. A sedução do predador não pode ser subestimada, a menos que a gente queira cair de novo e de novo na teia de Barbas Azuis machos e fêmeas, individuais e coletivos, literais e simbólicos que pululam por aí, procurando pactuar com as vítimas ingênuas, sempre disponíveis. A grande questão é quando somos nós os nossos predadores, e a  “feridologia” parece falar da outra face da vítima, aquela que ama o predador e colabora com ele para sabotar o próprio desenvolvimento.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Cristiane Marino - Mulheres em Círculo
    ago 24, 2014 @ 12:19:09

    Eli, que post sensacional!
    Menina, uma reflexão digna de Jung e Lacan!

    Sempre que converso sobre esse livro com minhas pacientes é muito frequente elas dizerem que começaram a lê-lo, mas não conseguiram passar do segundo capítulo (O Barba Azul)! Como o predador está constelado em nosso inconsciente…
    E nos grupos de vivências, algumas mulheres param de participar após o encontro do Barba Azul e às vezes retornam muitos capítulos depois…

    Adorei a dica da feridologia, vou ver o vídeo.
    Bjs querida e ótimo domingo!

    Responder

    • elianaatihe
      ago 24, 2014 @ 12:24:56

      Cara, vc tem toda razão… Já tivemos situações desse tipo nas matilhas e certamente temos com mulheres que espanam quando cruzam com o predador psíquico ainda que metaforicamente. Bjs

      Responder

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