Anima nobile felina

Zelda Fitzgerald, nossa gata pitbull

Zelda Fitzgerald, nossa gata pitbull

MINSK SEMPRE À MINHA ESPERA

Minsk ganhou seu nome do periquito de um conto chamado “Minsk”, se não me engano do Luis Jardim. O menino da história ganha um periquito, abre um mapa mundi em cima da mesa e põe o bichinho para andar sobre o mapa. O periquito para sobre Minsk, na antiga URSS e é batizado. Menina ainda, li o conto na escola e decidi que teria um bicho chamado Minsk, qualquer bicho. Foi um gato. Ganhei de uma aluna da 6a série, cuja gata tinha dado cria. Era preto e branco como o Tao, com uma máscara de Mickey Mouse muito engraçada pintada na cara. Carreguei ele da escola aonde trabalhava para casa metido numa caixa precária, todo nervoso e esticado, miando feito doido. Quando saiu da caixa, vimos que era um Frajola longilíneo, grande e lindo, apesar de um pouco arisco. Já tinha uns 4 meses e ainda não havia sido castrado. Mandamos prontamente cortar as bolinhas dele, que o veterinário veio nos mostrar na palma da mão, como quem oferece duas azeitonas e pede reembolso. Minsk gostava de ficar sentado num pilar ao lado do portão de casa feito uma estátua, na mesma pose da deusa-gata egípcia Bast, guardando orgulhosamente seu território. Era de uma elegância e de uma autoestima insuperáveis. Foi o gato da minha filha então com 5 anos, que o chamava de Minskeilândia, tão divertido ele era. Nas brincadeiras dela, Minsk se prestava resignado a bancar o bebê, até que se enchia de ser agarrado e ninado, dava umas arranhadas e sumia. Era meio selvagem, meio gato de rua e, mesmo castrado, tínhamos certeza de que mantinha casos com gatas da vizinhança. Pelo menos não as emprenhava, enchendo o mundo de órfãos desvalidos. Quando eu dava aulas até tarde, nas noites de quarta-feira, tinha de estacionar meu carro na rua, a um quarteirão de casa, por causa da feira que acontecia toda quinta. Claro que nem sempre eu conseguia parar no mesmo lugar. Mal abria a porta do carro, porém, estivesse aonde estivesse, eu dava de cara com Minsk me esperando na calçada. Era uma coisa mágica aquele gato saber aonde eu ia estacionar toda noite de quarta-feira. Eu o pegava no colo e juntos descíamos um quarteirão até chegarmos em casa. Depois de garantir que eu estava segura, ele escapava pelo vitrô da sala para mais uma noite de aventuras. Livre como era, Minsk acabou morrendo atropelado. Depois de morto, passei meses vendo-o atravessar a sala bem rápido, como ele sempre fazia, esticado e arisco feito uma fuinha.

ZELDA, A DAMINHA DE FERRO

Zelda ganhou o nome do video-game favorito do seu dono, meu filho. Eu soube agora que ela é xará da filha do recém finado Robin Williams e que ele escolheu o nome pelo mesmo motivo. Sempre foi uma gatinha minúscula, desde quando chegou aqui, metida numa caixa de papelão com seus irmãos, usando uma fita vermelha no pescoço. Nós a escolhemos porque ela era uma bolinha branca de pelos macios como algodão, com retoques de nanquim preto espalhados pelo corpo e uma mancha preta bem no meio do focinho. Linda e brava, Zelda nos divertia intimidando gatos e cachorros muito maiores do que ela, inclusive um pitbull que pôs para correr na casa da praia. Quando fica brava, ela incha e dobra de tamanho, bota as orelhas para trás e bufa de um jeito tão ameaçador que nos esquecemos que ela é uma anã e nos recolhemos a nossa insignificância. Recusou-se a aceitar Muriel, uma gata linda que adotamos numa ONG. Abrimos mão de Muriel para a segunda candidata da lista de postulantes a mãe adotiva, porque Zelda simplesmente adoeceu de ódio e ciúme da concorrência. Diga-se a seu favor que ela suportou bravamente a presença de Carlinhos, a quem  rapidamente ensinou quem estava no comando e que se dedicou a detestar estoicamente por todo o tempo em que dividiram um espaço que era dela e do qual ela o deixava ocupar um cantinho. Porém quando a vizinha arranjou uma gatinha siamesa gorducha e mansa, Zelda enlouqueceu. Territorial, obsessiva, paranóica, passava o dia de cá para lá, a vigiar o terreno, mijando em tudo, especialmente nos eletroeletrônicos: a TV de LED, o monitor do PC, as caixas de som, o amplificador da guitarra. Acabou estragando o HD de um computador. Vimos então que ela estava sofrendo muito, tensa, agressiva, inquieta o tempo todo, torturando o pobre Carlinhos, nosso macho beta feminino e complacente. Meu pai tinha acabado de enviuvar e minha mãe e Zelda sempre se deram muito bem. Decidi fazer um teste: levá-la para morar com ele por uns tempos, até o surto passar. Convivendo com meu pai no apartamento, assumindo os territórios que haviam sido de minha mãe, sua poltrona, seu travesseiro, os recônditos de seu guarda-roupa, Zelda fez um pacto com meu pai, um acordo de convivência e lealdade entre mal humorados possessivos e obsessivos. Hoje os dois são companheiros e ele diz que ela o segue e cuida dele o tempo todo. O temperamento dela melhorou muito e Zelda, the iron maiden, virou uma gata de colo, podem acreditar.

CARLINHOS GUSTAV JUNG DA SILVEIRA:  A EMOÇÃO DE LIDAR

Na gaiola do petshop, a ninhada de vira-latas nos obrigava a parar ali todo dia, para brincar com aquelas belezinhas multicoloridas. Eu confesso que remanchei um pouco, antes de aceitar outro gato em casa. Já tínhamos vivido a tentativa malograda de adaptar Muriel e Zelda, e me parecia que um filhote iria deixar nossa caudilha ainda mais maluca de ciúme. Meu marido e meu filho fizeram contrapeso às minhas argumentações e Carlinhos veio morar em casa, pequeno e fofo, um perfeito rajastani, filhote de jaguatirica de olhos amarelos e interrogativos. Foi tão bom que me arrependi de não ter adotado outro filhote da mesma ninhada, um negão de olhos verdes, lindo, que eu sabia que ia acabar sobrando na gaiola, pelos motivos mais desprezíveis. Até hoje me dói essa culpa. Botei o nome de Carlinhos por causa da dra. Nise da Silveira, junguiana que amava gatos e introduziu os bichos terapeutas no reino criativo e amoroso do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Ela tinha, entre muitos outros, um gato chamado Carlinhos, sujeito sofrido e com uma bela história, narrada num livro encantador chamado “Gatos: a emoção de lidar”. Daí o nome completo do nosso gato caçula, que também chamamos “o Bebê”: neto da dra. Nise e, portanto, bisneto em linha direta de Carl Gustav Jung, o grande pensador da cultura e criador da psicologia analítica. Meigo e fofo, um falador inveterado, dado a desenvolver longas narrativas, Carlinhos ficou um pouco marcado pela convivência difícil com a tirânica Zelda. Continua tímido, mesmo depois dela ter sido transferida para a casa do meu pai há já algum tempo, nos deixando só para ele.  Adora técnicos que vêm consertar todo tipo de equipamento, o pessoal dos cupins, pintores, pedreiros, instaladores de Tv a cabo e persianas em geral, o que revela sua boa índole. Na difícil provação que foi aprender a conviver com a schnawzer Frida, ele suportou com elegância a animosidade, os latidos agudíssimos (logo ele, que odeia barulho), as perseguições nada lúdicas pela casa. Portou-se como um perfeito cavalheiro, de A a Z. Interesseiro, um verdadeiro esteta na escolha de colos para dormir, Carlinhos escolhe criteriosamente o mais aconchegante em meio a todos disponíveis, tateia e afofa um pouco, para melhorar a textura. Então, depois de rodar em torno de si mesmo, ritualisticamente, por duas ou três vezes, ele se instala no colo eleito como se este fosse uma poltrona viva. Pode permanecer horas a fio aninhado ali, se o escolhido, digno de receber essa alta honraria, assim o permitir. Gosto muito de cães, mas o mistério dos gatos me intriga e atrai para essas criaturas belas e seguras de si, que nos amam e sabem, sim, demonstrá-lo, contra todos os preconceitos que o senso comum construiu a respeito deles. Ser misterioso e independente num mundo de gente óbvia e carente é uma ofensa, quase uma contravenção. Por isso eu amo os gatos. Tenho muito a aprender com eles, com sua diferença (e indiferença para com os caretas), eu que sou, por natureza, uma alma canina.

 Carlinhos medita

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. claudia
    ago 14, 2014 @ 15:08:21

    adorei adorei adorei e adorei! (2 adorei”s” pra cada post)

    Responder

  2. glaucia redondo
    ago 18, 2014 @ 16:19:07

    sabe aquela tarde de segunda-feira enfadonha, cheia de tarefas burocráticas à frente do computador e então você merece uma pausa? Eli, me dei de presente a leitura do seus dois últimos posts, os anima nobiles (pode ter plural aqui?) . Que delícia! E com o bônus pelo fato de eu ter conhecido Puppy, Minsk, Zelda e Carlinhos, assim como Preto, sobre quem vc pretende ainda escrever. Seus textos me encantam, beijos, querida!

    Responder

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