Anima nobile canina

Pupi

Puppy

Anima nobile (alma nobre) era como os seres humanos se autodesignavam, em oposição a anima vile (alma vil), a condição atribuída aos animais. Aprendi isso com Monteiro Lobato, meu pai número 2. Nada como ser Adão, aquele cara que dá nome às coisas. Ele usa as palavras a seu favor e as transforma numa fonte inesgotável de autoenganos. Hoje vou falar sobre almas verdadeiramente nobres e deixar o leitor decidir quem é vil de fato na ordem das coisas. Nenhuma das pessoas que meu post homenageia pertence à espécie humana, primeira razão, portanto, para serem consideradas nobres. Meus personagens são pessoas não humanas, porém completamente pessoas, animadas e almadas, plenas de afeto e memória, fieis aos seus vínculos profundos e também autênticas na expressão de seus afetos. Não faltam a elas as melhores qualidades humanas, aquelas que nos fariam dignos da verdadeira nobreza, a qual só existe na prática. Algumas dessas pessoas já partiram. Outras eu só conheci de ouvir suas histórias por anos a fio, desde pequena. Outras ainda estão por aí, passeando pelos quintais e telhados, ocupando almofadas e colos, encantando a vida dos humanos a quem dão a graça de sua companhia. Hoje achei que já está na hora de contar, por escrito e para mais gente, as histórias dos bichos da minha família. São boas histórias, simples e comoventes, cheias de gestos impregnados com os melhores valores humanos, entre eles gentileza, lealdade, coragem, altruísmo.Vou dividir meu assunto em dois posts, um dedicado aos cães e outro, aos gatos, e deixar para mais tarde um terceiro, protagonizado por um pássaro chamado Preto e Pessoa, um jabuti solitário.

JOLI: MUITO MAIS QUE UM BONITÃO

Joli foi o cachorro da infância do meu pai. Bonito, como diz o nome, mas duvido que os donos soubessem disso. Escolheram a palavra porque a acharam, ela sim, bonita e acabaram reunindo a qualidade ao sujeito por similaridade.Vira-latas de pelo longo e sedoso, branco raiado de preto, Joli era um valente do tipo Errol Flynn, que desafiava o laçador da carrocinha dando espetáculos de fuga que os garotos da rua aplaudiam, frenéticos. O homem da carrocinha odiava Joli, que o humilhava publicamente com suas performances. Consta que, diariamente, ele escoltava as meninas da família até o ponto de ônibus e os meninos mais novos até a escola. Certo dia, Joli acordou estranho. Jururu, inapetente, isolado num canto. Meu pai tem certeza de que ele pegou raiva, porque um cachorro da vizinhança com quem Joli não se dava morrera há pouco da doença. Mas Joli não arriscou ficar e a contaminar, a contragosto, a família que tanto amava. Sumiu simplesmente e nunca mais apareceu. Um gesto de infinita nobreza, do qual poucos seres humanos são capazes.

TIGRE CORAÇÃO DE LEÃO

Tigre era o cachorro da minha avó materna, um vira-lata sangue bom, grandalhão, preto, plutoniano, mas com um coração de príncipe. Ele a seguia aonde ela quer que ela fosse, qual um cavaleiro provençal a serviço da sua dama. Porém não foi com ela que ele revelou seu coração de leão. Meu avô era inspetor de quarteirão na cidadezinha, ou seja, era o valentão que defendia a vizinhança de outros valentões, ainda piores do que ele. Um dia, foi chamado para enquadrar um encrenqueiro que fazia arruaça no bairro. Tigre o seguiu. A princípio, meu avô botou o cara para correr no grito, Autoconfiante, contudo, deu as costas ao perigo, na pressa de voltar para a cama, já que era noite alta. Ocorre que o homem estava armado e pronto para lhe dar um tiro pelas costas, não fosse o timing de Tigre, que o interceptou e derrubou. O tiro desviou para o alto, o facínora foi para a cadeia e Tigre roubou do meu avô o título de herói do dia.

DICK, O ESCUDEIRO FIEL

Um tequel miúdo e esperto, pretinho, aficcionado pelo dono, Dick vivia na cola do meu pai, então um mocinho de seus 20 anos. Quando este começou a dar plantões noturnos na farmácia do bairro, aonde trabalhava, costumava voltar de madrugada, a pé, pelas ruas desertas do velho bairro do Cambuci. E Dick ia esperá-lo na porta da farmácia, para escoltá-lo para casa em segurança. Nos dias de trabalho normal, Dick ia levá-lo até o trabalho e então voltava para casa, feliz de ter cumprido sua missão. Acontece que, certo dia, o pior aconteceu. Dick foi atropelado por um carro mais afoito, por sorte, logo na saída da farmácia. Meu pai assistiu a tudo e, aflito, não titubeou: baixou a porta de ferro do estabelecimento e levou o companheiro até a Faculdade de Veterinária, que então ficava pelas bandas da Liberdade. Ele tinha um amigo que era aluno de lá e trabalhava no hospital, o Zezinho. Dick foi internado para entalar a perna quebrada, mas ia ter de ficar lá por algumas horas. E meu pai precisava voltar para reabrir a farmácia. Mal chegou ao balcão e o telefone já tocava. Era o Zezinho, dando a pior de todas as notícias: Dick escapulira do hospital e, mesmo com a fratura na perna, não fora recuperado. Meu pai ficou arrasado, porém não havia o que fazer. A distância entre a farmácia e a faculdade era razoável e Dick não tinha como saber o caminho de volta. Os clientes chegavam, havia injeções para dar, fórmulas para manipular, cortes para suturar… Naquele tempo, a vida de farmacêutico do bairro era bem mais emocionante do que é hoje em dia. O tempo passou, duas, três horas, meu pai trabalhando sem parar de pensar no destino do amigo. Enfim houve uma pausa para respirar e a farmácia esvaziou. Ele saiu à porta para olhar a rua e ficar melancólico à vontade, coisa de que gosta muito até hoje. Foi quando viu, subindo bem devagarinho o morro da rua Robertson, o Dick, de língua de fora, capengando com a perninha quebrada. Sabe Deus como, ele tinha encontrado o caminho de volta para casa, levando apenas o amor por seu dono como guia. Os dois se encontraram e foi uma grande alegria. Meu pai entalou a perna do Dick lá mesmo, na farmácia. E caso encerrado.

PUPPY, A GUARDIÃ DO TESOURO

Fox paulistinha brava como só ela, Puppy foi o presente de consolação que minha irmã ganhou de meu pai, porque ele não a deixou ficar comigo em Guararema, nas férias depois do carnaval. Eu cheguei de viagem e ela já estava lá, um filhote muito lindo, pentelhinho e inteligente como só um fox paulistinha sabe ser. Rabo cotó, latido ardido, sempre alerta, apesar do temperamento Puppy submetia-se a quase todos os abusos afetuosos da minha irmã, que queria fazê-la de boneca. Entre outras humilhações, saia fantasiada de noiva para passear de tarde pela rua, metida num velho carrinho de bebê, com um par de óculos de aros redondos e lentes vermelhas instalado no focinho. Claro que Puppy mordeu mais de uma vez sua dona, sendo que, na primeira, ainda não tinha sido vacinada, o que custou uma série de injeções na barriga que fizeram de minha irmã a celebridade do quarteirão. Nós a púnhamos para dormir conosco, coisa que meus pais proibiam terminantemente, e ele ficava quietíssima, metida debaixo dos nossos lençóis, cada noite na cama de uma. Todavia amar mesmo, perdida e completamente, ela só amava minha mãe, sua deusa. Quando minha mãe saia, Puppy ia buscar alguma peça de roupa ou pé de sapato dela no armário, arrastava até a almofada e lá ficava, guardando o tal objeto transicional com a devoção feroz de um talibã. Ai de quem tentasse tirar dela aquela coisa sagrada! Rosnados ameaçadores, tentativas histéricas de morder, ela fazia de tudo para evitar que qualquer um, até mesmo meu pai, chegasse perto do avatar da sua adorada dona. Velhinha, o faro a confundia e ela frequentemente pegava coisas de outras pessoas (principalmente visitas!), achando que eram de minha mãe. Um amigo da minha irmã viu seu pulôver de cachemir inglês novinho em folha virar um amarfanhado forro de almofada de cachorro e teve de esperar até minha mãe chegar para recuperá-lo, babado e cheio de pelos. Puppy viveu 14 anos e morreu docemente, com minha mãe, sua mais querida, ao lado dela. Foi posta para dormir por um veterinário bonito e bondoso que a chamava de “minha preazinha”.

FRIDA QUE QUASE FOI NOSSA

Frida era a cadelinha schnawzer da namorada do meu filho. Por alguns meses, tempo em que a família dela se mudou do Brasil e Frida ficou por aqui, fazendo companhia a sua dona, que também tinha ficado, fomos um pouco donos dela também. Já velhotinha, era uma pessoa deliciosa, divertida, animada, amorosa. Só entortou com o Carlinhos, nosso gato, claro. Cada vez que o via entrar pela janela, Frida nos avisava, muito ciosa de seus deveres, de que um gato tinha invadido nossa casa e, portanto, tínhamos que tomar providências enérgicas. Devagarinho, com a ajuda de alguns florais e da imensa paciência do Carlinhos, esse gentleman, Frida foi se acostumando com ele, de modo que os dois estabeleceram uma convivência um pouco tensa (por parte dela) e blasé (por parte dele), porém, no geral, respeitosa, embora os olhinhos dela continuassem a expressar, cada vez que ele passava por perto, uma certa perplexidade. Dengosa e diplomática, Frida ensinou meu marido a gostar de cachorros. Foi um adestramento afetivo muito bem sucedido porque não só ele se apaixonou por ela como também cultiva o desejo de adotar um cão, coisa que, até a Frida aparecer, era inimaginável. Já doente, ela passou em nossa casa os últimos meses de sua vida, período em que tivemos a sorte de cuidar dela como se realmente fosse nossa. Choramos muito quando Frida se foi, muito mesmo, ainda mais porque não foi aqui em casa, perto da gente, que ela morreu, mas num hospital veterinário. Até o Carlinhos sentiu a ausência dela, tanto que continua até hoje querendo que coloquemos sua ração em cima de uma mesa, que era a estratégia para evitar as investidas da Frida no prato dele. Da parte de um gato, não deixa de ser uma forma de homenagem.

 

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Andrea Petenucci
    ago 14, 2014 @ 15:48:30

    Amei o post, tanto quanto amo esses companheiros de 4 patas que povoam minha vida desde a chegada ao nosso planetinha 😉

    Responder

  2. Fabiana
    ago 14, 2014 @ 17:38:36

    Delícia de post, saborosas narrativas…
    Tenho a sorte de conviver com cães e gatos.
    Sou grata a eles por todo amor devotado a nossa casa e família. São mediadores, fazendo a ponte entre o mundo visível e o invisível. Seres almados e amados!!!
    Bela homenagem, Mulher-Esqueleto!!!
    Beijos,
    Fabi

    Responder

  3. Cristiane Marino - Mulheres em Círculo
    ago 14, 2014 @ 19:28:52

    Oi Eli, Ameeeeei os posts!

    Adorei saber a origem do nome do Carlinhos, que é muito fofo mesmo!

    Lembrei de cada um dos meus doze cães, do meu porquinho de estimação (que era mais inteligente que os cachorros e por isso nunca mais comi carne suína), e agora o amor da minha vida: Bianca, minha gatinha, que adotei há um ano após ter sido abandonada no veterinário.

    Ela conquistou também a minha cachorra, a Brisa, que no começo queria fazê-la de petisco, e hoje são como irmãs, ou melhor, como primas. Brincam e comem juntas, e às vezes a cachorra deixa a gata se aconchegar em sua cama.
    Mesmo tendo chegado já adulta aqui em casa, adaptou-se aos ritmos de cada um e encantou a todos.

    Quanto mais observo e trabalho com os seres humanos, mais vergonha tenho de nós como espécie. Mais amor fui desenvolvendo pelos animais. Tornei-me vegetariana há 15 anos, aboli qualquer produto de limpeza ou higiene que fosse testado em animais, passei a defender a causa animal e apoiar ONGs que o fazem.

    Acho que nos falta observar e seguir os exemplos destes seres para aprendermos a “ser gente”…
    Bjs querida

    Responder

  4. Lourdinha Heredia
    ago 17, 2014 @ 19:46:14

    Que delícia ler isso num fim de domingo cansado …

    Responder

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