Milícias

Cadê as 200 meninas sequestradas na Nigéria em abril deste ano? A última notícia que encontrei delas na Internet é do dia 1 de junho, quando o covil das bestas que as capturaram aparentemente havia sido localizado pelo exército. Depois… silêncio. A notícia, velha de dois meses, conta que algumas haviam conseguido fugir e relatavam que sofriam estupros diários pelos bandidos, os quais a imprensa trata como membros de uma milícia. Sequestradores, fanáticos, estupradores e também traficantes de escravas, claro, como bem explicitou a besta líder, numa filmagem transmitida pela TV. “Educação é pecado”, chama-se o bando sinistro, que invoca um deus e uma fé como justificativas para seus crimes. Milícia é a marca genérica deles. Antigamente a gente dizia quadrilha ou bando. Agora diz milícia, sinônimo de agrupamento formado por milicianos ou militantes, indivíduos dedicados a lutar por uma causa e que adotam disciplina militar em seu treinamento. Chamar de milícia uma choldra de ignóbeis desse calibre é quase um elogio. No Brasil, conhecemos as milícias que ceifavam nos morros cariocas e nos bairros periféricos de Sampa. Quadrilhas. Na América Latina, tem-se notícia das milícias bolivarianas que surraram, torturaram e mataram jovens que se opunham ao regime totalitário chavista, nas ruas de Caracas e em outras cidades da Venezuela. Mais quadrilhas. Os Black Blocks não se autodenominam milícias, mas se dizem militantes. Não se sabe de que causa e suspeito que nem eles mesmos saibam. Mas me parecem bastante afinados com algumas das práticas do metiê, entre elas, a destruição, a intimidação da imprensa e a pilhagem. Bandos. A língua é assim. Pegue-se uma palavra interessante, de preferência pouco usada, e aplique-a com cola branca sobre atos de barbárie, vandalismo, violência, as produções mais escrotas da natureza humana. Se for um termo em inglês, melhor ainda. Implique a palavra ou termo em discursos piedosos ou racionalizantes, todos de cunho ideológico, porque isto os faz soar muito mais convincentes. As palavras também se tornarão milícias, só que bem mais poderosas e eficientes do que aquelas formadas por seres humanos. Milícias de palavras formam e açulam o ódio em milícias de seres humanos. Elas cuidarão de disfarçar uma imagem repulsiva com outra, eufemística. Elas entrarão em qualquer lugar para tomar de assalto as consciências desavisadas e ingênuas ou mal intencionadas, oportunistas. Na Alemanha nazista, palavras bonitas e grandiosas, ditas em tom expressivo, teatral, inflamado, serviram a propósitos mais que hediondos e convenceram muitos homens bons a aceitar e até apoiar esses propósitos. Em Israel, a síndrome do povo escolhido, enraizada no próprio Livro Sagrado de dois monoteísmos, tem justificado horrores inimagináveis, mais ainda quando se leva em conta uma sociedade tão desenvolvida, coroada de Prêmios Nobel, iluminada por algumas das mentes mais brilhantes que a humanidade já produziu. Por isso a educação tem de ser pecado. Me entendam bem, não estou falando de escolarização, de jeito nenhum. Israel tem um sistema escolar modelo. Educar é, para mim, tornar humano, humanizar, e não entupir a cabeça de uma criatura com conceitos e citações. O mundo está cheio de idiotas com pós-doutorado, incapazes de pensar por si mesmos, de julgar com consciência crítica individualizada certos valores e situações a que são expostos. Na dúvida, vale o comportamento de manada. Voltamos à horda por muito pouco, pisoteando sem dó a razão redentora de nossa bestialidade constitutiva, pobrezinha da razão, basta um assopro da besta fera em nós para derrubá-la. Por isso, educação tem de ser pecado. Reflexão também é. Consciência crítica, nossa, essa então dá um auto-de-fé. Ir contra a correnteza do senso comum é pecado. Opor-se a algumas regras do pacote, recusando-se a engolir o pacote inteiro é pecado. O bom é que, por aqui, não se sabe até quando, claro, o castigo continua a ser bem menos contundente do que na Nigéria ou no Afeganistão das milícias talibãs. Mas ainda assim, implica um julgamento sem possibilidade de defesa e consequente enquadramento do infrator da norma numa categoria pejorativa: elite branca, de direita, reacionário.  Mais palavras sem materialidade para lastreá-las. Eu pessoalmente gosto muito de “conservador”, por exemplo, porque se a ideia é conservar a cultura e a civilização, eu estou dentro. Mas, afinal, aonde estão as 200 meninas nigerianas sequestradas em abril? Viram como é fácil a gente se esquecer delas?

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6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana Prando
    jul 28, 2014 @ 14:15:09

    Sim!
    Aonde estão as 200 meninas?!

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  2. Claudia Lima
    jul 28, 2014 @ 19:33:41

    Infelizmente notícias vão e vem…e a descaso permanecem os menos favorecidos através de acobertamento das situações sociais que vivenciamos no nosso coletivo diário. Muito triste…como elas estarão…e suas mães…suas famílias…Pura indignação…

    Resposta

  3. Irene
    jul 31, 2014 @ 13:29:15

    Libertem as inocentes e calem-se as pentelhas!

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  4. Lourdinha Heredia
    ago 08, 2014 @ 13:20:41

    Você “tava com a macaca” no dia em que escreveu, hein? Mandou muito bem. Expressou muita raiva, e com toda razão! Bárbaro! O ser humano anda sendo considerado perto do NADA realmente!

    Resposta

    • elianaatihe
      ago 08, 2014 @ 13:48:58

      Eu tava com a macaca preta e doida, Lou. Melhorei um pouco e fui para São Luís, ver a merda que o clã Sarney continua fazendo por lá. Um câncer com metástases. E que povo bonito, criativo e legal! Fiquei com a macaca vermelha. Tristes trópicos…

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