Chatas

Demorei para voltar porque não conseguia pensar em nada que não fosse política. Ou essa esculhambação a que chamamos política no país do futuro. Cada vez que eu me sentava para escrever um post, era literalmente abduzida pelas imagens delirantes que assolam a nossa irrealidade cotidiana: vândalos defendidos e festejados como presos políticos, amigos inteligentes se deixando lobotomizar cada vez mais docilmente por ideologias infantilóides, ditadores entusiastas da tortura sendo recebidos como reis por ex-torturadas eleitas presidentas e outros temas igualmente insólitos, que renderiam uma temporada completa (e muito sinistra) do extinto seriado “Twilight Zone”. Uma vez sentada diante do teclado, uma sucessão de imagens de pesadelo vinham assediar meu coração e arrepiar meus dedos, imagens capazes de eclipsar um conto de Garcia Marquez escrito sob efeito de LSD. Aliás Garcia Marquez nem é um bom exemplo neste caso, já que sua mais delirante e literal fantasia reduziu-se à amizade íntima longamente cultivada com um famigerado líder da esquerda totalitária, patriarca e padroeiro da ditadura mais longeva do planeta. Nada é perfeito, nem mesmo o realismo fantástico do genial Garcia Marquez, em especial quando não trata de literatura, mas da vida. Então vou parar agora mesmo e por aqui de falar desse assunto, para entrar no meu tema de hoje: a insustentável chatice das mulheres. Meus deuses, como somos chatas! Bipolares, implicantes, ressentidas, ranzinzas, mesquinhas, carolas, interesseiras, histéricas, insaciáveis, falsas, intrometidas, prepotentes, controladoras! Claro que os homens são tudo isso também, mas nós, mulheres, temos um modo muito especial de “ser tudo isso”.  Eu achava chauvinista a história do pescador e sua esposa, aquela em que um peixe mágico concede desejos ao pescador porque este o liberta do anzol, desejos estes que a mulher do pescador usurpa um a um, até levá-los ao paroxismo de querer se tornar imperatriz, que é quando o peixe fica de saco cheio e retira tudo o que lhes deu. Não acho mais essa história chauvinista. Acho uma grande verdade em forma de metáfora modelar, além de um aviso elegante de onde podemos chegar com nossos demandas infinitas. Não há como negar nossa longa sujeição ao patriarcado, que subsiste ainda hoje, e não é só nos fundamentalismos tribais monoteístas. A condição de oprimidas, porém, nos levou a sofisticar, até atingir o status de arte, nossa competência para camuflar nossos sentimentos, manipular os alheios, agir de maneira melíflua, ser venenosamente maledicentes enquanto fingimos piedade e preocupação com os outros etc etc etc. Com o tempo e a prática, não só ficamos muito mais hábeis que os homens no exercício dessa estratégia (que é feminina por natureza), como também aprendemos a responsabilizá-los por muitos de nossos malfeitos. “Ele me engravidou”, por exemplo, é um clássico. “Ele me impediu de viver a minha vida” é um clichê mais malhado que Judas em sábado de Aleluia. Troque por “não fiz aquele curso” ou “não aceitei aquele emprego por causa dele” e dá tudo no mesmo. Quantos pretextos os homens nos fornecem para mascarar limitações, frustrações e insatisfações, complexos, enfim, que dizem respeito unicamente à esfera de nossa vida pessoal, de nossas decisões de foro íntimo! Eu não sou nem louca de negar o fato de que o mundo ainda está repleto de mulheres aprisionadas, reduzidas a objetos (muitas vezes por escolha), impedidas de sequer respirar livremente, até pelas roupas que são forçadas a vestir. Se formos francas, contudo, haveremos de nos lembrar que, por trás de cada tirano, machista, assediador, estuprador simbólico ou literal, há uma mulher poderosa e perversa, uma santa mamãezinha que o criou para ser o que é. Portanto, mulherada, olho no jeito como vocês estão educando seus filhos homens, ou esse círculo vicioso não vai se esgotar mas é nunca. Em suma, nossa história, pessoal ou coletiva, de sujeição ao masculino, parece ter nos ensinado muito pouco afinal. Se foi tão ruim assim, nosso dever era o de compensar e não copiar o pior dos homens. Todavia é isso exatamente isso o que mais temos feito. Liberadas, não cuidamos de procurar mudar a ordem sinistra que nos encarcerou por milênios, mas simplesmente fomos à revanche. Do lado da oprimida, ficamos condenadas a manter esse apego neurótico ao papel da vítima que, contudo, submete o outro pelo avesso, chantageando sem remorso, golpeando por baixo. Fonte desses bloqueios auto-impostos e auto-complacentes, nossa lealdade ao complexo de vítima termina por nos impedir, entre outras coisas, de partir para relacionamentos mais honestos e maduros, tanto com homens quanto com mulheres. Há ainda a mais miserável das estratégias do oprimido: destruir-se voluntariamente para arrasar o outro, o filho, o marido, a amiga que pisou na bola. Na história da minha família materna, houve uma certa tia-avó que rompeu com o pai porque ele a impediu de se casar com o homem que ela amava. Ela então decidiu se vingar… trancando-se num quarto por vinte anos. Claro que ela arrasou com a vida desse pai tirânico, mas principalmente destruiu sua própria vida. No fundo, porém, o que faltou a ela foi peito para fugir com o namorado reprovado pela família. Agora responda: quem foi mais tirano nessa história? Quem foi usado por quem? O pai, aliás, lhe deu de bandeja uma desculpa e tanto para não abrir mão do conforto, da segurança, da respeitabilidade que ela parecia valorizar mais que o amor. Quando as mulheres têm tudo, costuma dizer um amigo sábio, falta-lhes ar. Ele tem toda razão, sorry to say. As frágeis e as fodonas, as manipuladoras explícitas e as encobertas, as vítimas da moda e as corporate bitches, as mães perfeitas e as negligentes, as santarronas hipócritas de qualquer religião, as peruas e as periguetes, as cumbieras intelectuales (ouvir a canção de Kevin Johansen sobre o tema) e as loiras burras, as gritalhonas e as que sussurram, as vitimadas e as espancadoras, as militantes e as princesas, as feministas devoradoras e as “boy-toys”. Todas as mulheres que se contentam com ecoar clichês de um feminino sem profundidade e que não se responsabiliza pela própria sombra, preferindo descarregá-la sobre os outros, os homens em particular, têm em comum o serem chatas, isto é, chapadas e unilaterais, que é como são os estereótipos. Muito, mas muito chatas mesmo. E vamos que vamos, incutindo nas menininhas as mesmas imagens de um feminino deformado e deformante, transformando-as cada vez mais cedo em chatinhas.

 

P.S. – Um trechinho precioso do grande James Hollis: “Se, do ponto de vista histórico, essas energias e essas tarefas (do feminino e do masculino) foram delimitadas a sexos específicos, todos sofreram a opressão de alguma parte vital de si mesmos.” (in “Mitologemas: encarnações do mundo invisível”, p. 68)

P.P.S. – Às viciadas em mimimi, sugiro a leitura de “Infiel”, de Ayan Hirsi Ali, Companhia das Letras. Se não curar, alivia bastante.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana Prando
    jul 28, 2014 @ 09:32:10

    Genial!!
    Tô contigo e não abro. Muito chato ouvir as variações monotemáticas da vitimização. Tempo de bailar com a sombra e viver com autonomia, verdade e responsabilidade.
    Obrigada, Mulher-Esqueleto por nos tirar da chatice epidêmica!!
    Beijos,
    Fabi

    Responder

  2. claudia
    jul 30, 2014 @ 17:26:19

    Olha… admito, sou chata mesmo. Mas muito de minha chatice vem do seguinte fato: Quem não chora, não mama. É muito fácil em nossa cultura machista, ver tudo empurrado para que nós resolvamos com eficiência e rapidez. Tudo. Agora, quanto a essas mulheres que ENSINAM aos meninos e perpetuam essa machice desgraçada, acho de uma sacanagem e egoísmo sem tamanho. Depois ficam reclamando e cheias de mimimi, querendo que os filhos homens fiquem cada vez mais dependentes delas, e tentando de todas as maneiras mostrar o quanto elas são melhores que as noras. Horrível. Mas, contudo, entretanto, super valeu a chamada. Preciso parar de ser tão chata, e acima disso, delegar a quem é de respeito a tal tarefa. Seja ela qual for. Bj minha querida!

    Responder

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