Na Quaresma, um presente de Páscoa

jesus cristo supersptar logoEram 5 horas da tarde de um domingo tempestuoso, como escreveria o Snoopy. Além das nuvens carregadas e do ar abafado anunciando o toró iminente, nós sequer desconfiávamos da batalha de imaginários que estávamos prestes a testemunhar bem ali, no bairro tão cotidiano e tributário de Pinheiros. Contentes e ingênuos, entramos na Ofner da esquina da Coropés com a Pedroso, decididos a fazer hora nos empanturrando com coxinhas e capuccinos. Eu tinha comprado ingressos para “Jesus Cristo Superstar”, a primeira ópera-rock da dupla Andrew Lloyd-Weber e Tim Rice, que fez muito bem feita a minha cabeça de menina evangélica mas nem tanto, nos idos dos anos 1970. Na época em que o espetáculo estreou no Brasil, em plenos anos de chumbo, fui assisti-lo levada por uma prima mais velha e seu marido, que tinha ganho as entradas. Não quero passar por semostradeira; eu tinha sorte, só isso. Teatro Aquarius (quem da minha geração não se lembra?), Eduardo Conde (foi mesmo ele?) no papel de Jesus e me esqueci quem eram Judas e Madalena, mas OK, minha memória não é assim tão elefantina. Minhas presas de marfim foram serradas nas infância.

Saí do Aquarius com os ouvidos zunindo, o coração aos pulos, a imaginação bêbada, cantando “Hosana”, a única letra que aprendi naquelas duas horas inesquecíveis. Na semana seguinte, encomendei na loja Bruno Blois (os elefantes não esquecem) o álbum duplo da versão inglesa, com Ian Gillian, vocalista do Deep Purple, no papel de Jesus, e Yvonne Elliman, no de Madalena. Ouvi e pirei de novo. E continuei pirando por meses a fio. Eu tinha, sei lá, quinze anos? Dezesseis no máximo? Suspeito que “Jesus Cristo Superstar” tenha sido a primeira experiência de minha vida em que a arte abriu uma fenda irreparável no mundo monolítico da religião de minha mãe, me oferecendo assim a possibilidade de imaginar um Jesus em sintonia com a vida, a minha vida, os meus sonhos de adolescente, os meus ídolos do rock, os meus ideais de viver uma vida autêntica. Era profundo e leve ao mesmo tempo lidar com as figuras da narrativa evangélica movendo-se numa coreografia sensual e poderosa, cantando o estilo de música que eu adorava, encarnando imagens lindas, vivas, potentes. Como foi importante, para mim, naquele momento capital da vida, rever a figura inquietante de Judas e tentar compreender a paixão de Madalena… Era tudo tão bonito, tão novo, tão vital, quase brutal para mim, que já tinha recebido tudo pronto, embrulhado num pacote fechado, marcado com o carimbo “INQUESTIONÁVEL… Assim, quando vi o anúncio da nova produção de Jorge Takla, em cartaz no Teatro Tomie Ohtake, eu não tinha como hesitar: fui lá e comprei três lugares CAROS na segunda fileira. Eu queria estar perto. Eu queria sentir um pouco do que senti da primeira vez. Fui movida pela mesma emoção que vivi há 40 anos, intacta, muito jovem, a emoção de uma experiência ética e estética fundadora da minha personalidade. Para mim, a verdadeira religião consiste, desde então, numa mistura inebriante de liberdade, profundidade e, naturalmente, beleza.

De volta à Ofner repleta, vejo três senhoras metidas em tailleurs um pouco antiquados, ostentando grandes bolsas e impecáveis cabeleiras prateadas, acomodadas na mesa ao lado da nossa. Acho-as graciosas e imagino que, como outras pessoas que circulam pela loja, todas elas vestidas para um evento dos anos 1950-60, elas terão saído de um serviço na igreja anglicana vizinha do teatro. Envolvo-as com pensamentos delicados. Elas terminam de devorar seus éclairs e de tomar seus cafés e se levantam. Passam por nós e uma delas diz, num tom de voz digno de megera Disney: “Vamos protestar contra essa peça imunda e blasfema”. Meu coração se recolhe, assustado, no fundo do peito. A moça do caixa vem em meu socorro. Eles vêm todos os dias até a porta do teatro e lá se postam, antes da peça começar, para protestar. Olho a fachada do teatro e vejo mesmo uma aglomeração de gente evadida do túnel do tempo, carregando estandartes e usando faixas sobre os ternos. Alguns seguram terços nas mãos. Outros carregam cartazes com dizeres inflamados, em que acusam “Jesus Cristo Superstar” de ser uma blasfêmia, coisa que, para eles, não pode se beneficiar da liberdade de expressão democrática. Não, não são anglicanos, de jeito nenhum. Num coro grave e sinistro, em que só se escutam vozes masculinas (embora também haja algumas mulheres presentes), eles pedem reparação para Jesus, que aparentemente está sendo ofendido pela tal peça “imunda”, a mesma que nenhum deles deve ter tido a honestidade moral de assistir, antes de avaliar. E se assistisse, certamente não iria entender. Na frente do teatro Tomie Ohtake, “Jesus Cristo Superstar” parece Maria Madalena na iminência do apedrejamento.

Atravessamos a rua e contornamos a aglomeração de carolas raivosos, não sem temer algum tipo de retaliação. As tais senhorinhas bem podem nos atacar com bolsadas. Desde logo, me lembram muito o pessoal do Monty Python, travestido de velhotas inglesas prontas para encenar uma batalha histórica. Aquelas bolsas enormes devem servir para alguma coisa, carregar as pedras para uma lapidação pública, por exemplo, ou talvez guardar sentimentos irados, desses que costumam ocupar muito espaço na nossa vida. Uma mulher engraçada do nosso grupo de “blasfemos imundos” diz, categórica, que “a produção deve ter contratado esses mocorongos, isso só pode ser jogada de marketing”.  É triste, eu sei, mas preciso discordar dessa hipótese divertida. Em plenos anos de chumbo, não me lembro de ter visto uma cena tão bizarra na frente do saudoso teatro Aquarius. A democracia garante algum espaço para fanáticos religiosos, políticos e futebolísticos promoverem sua constrangedora mélange de ignorância e intolerância, de preferência sem depredar ou agredir (há controvérsias quanto a isso, dependendo de quem deprede e agrida, mas não é esse o tema do post). Frequentemente vemos manifestantes antiaborto fazendo coisas bem mais feias nos EUA, tão feias quanto um aborto, aliás. São os efeitos colaterais da democracia, um sistema de governo muito ruim, o melhor que temos.  Outra integrante do grupo dos “perdidos” comenta: “O pior é que eles entregam uns folhetinhos sacanas aos carros que passam na rua, pedindo que as pessoas buzinem para atrapalhar a peça. Eu não concordo com muita coisa que eles dizem, mas nem por isso vou buzinar lá na frente da igreja deles, na hora da missa”. Ela tem razão. Há algo de black-block sênior, porém não menos violento e gratuito, nesse tipo de vandalismo simbólico.

O banner do espetáculo, dependurado ao lado da bilheteria, exibe o Jesus da hora, encarnado pelo lindo e talentoso Igor Rickli, o peito nu e macio, a calça meio arriada, os cabelos revoltos emoldurados por uma coroa de espinhos. Será que é a beleza dele que ofende esse povo interditado de beleza? É um Jesus dourado e suave, frágil e sedutor, muito alinhado com o ícone católico, de DNA europeu. A imagem desarticula sem esforço (para quem, como Jesus, tem olhos para ver metáforas) a demonstração canhestra e explícita de fundamentalismo literalista que se dá bem ali, aos pés dela. E pensando bem, nos crucifixos Jesus está bem mais pelado do que isso. Penso na moçada que não sabe muita coisa sobre os Evangelhos e que irá ao teatro só para ver esse e outros gatos e gatas em cena, cantando e dançando a Paixão de Cristo. Vão acabar levando nos corações e mentes, ao final do espetáculo, um eco poderoso da narrativa completa, enriquecida pela abordagem inteligente, respeitosa mas também provocativa, de Rice e Lloyd-Weber.  Uma história bem contada, quase convencional na sua apropriação do texto bíblico, não fosse pelo personagem de Judas, peça chave, afinal, para que o tal plano de Deus se desenvolva.

O espetáculo começa. Ouço os primeiros lamentos da guitarra e me arrepio. Judas entra em cena e canta “Heaven on their minds”, traduzida como “O céu não vai te proteger”. O Judas de Alírio Netto é seco, exato, seu tom oscila entre desesperado e irônico, como cabe a todo bom Judas, dividido entre a razão prática que o corrói por dentro, o desejo de controle, e a devoção ao mestre, o terror de se saber de antemão condenado por uma religião que não enxergará nem entenderá a grandeza do seu sacrifício. Pois vocês acreditam que a montagem dos anos 1970 ainda dava uma certa tonalidade homoerótica à dupla? Imaginem o que nós encaretamos em 40 anos… Judas é aquele que se sabe sombra e luta contra esse ingrato e imprescindível papel, uma luta perdida contra o destino, um deus surdo e indiferente. Pensei  até numa variação da trindade que a gente enxerga em cena: Jesus é o Eu, Judas, a Sombra que quer ser integrada, Madalena, a Anima. Sombra a Anima permanecem excluídas, parasitando o ego calcificado da instituição religiosa que se acredita proprietária dos direitos autorais de toda experiência com o sagrado.

A banda-orquestra é, por si só, um espetáculo à parte, fiel a todos os climas da partitura original, alternando ferocidade e suavidade, competente de gritar. Aliás quero cantar junto, e até canto em inglês, baixinho, para não matar de mico o jovem de dezenove anos sentado ao meu lado. Desculpe, mas é impossível não cantar “Hosana”, que pena que esse povo não sabe a letrinha tão básica… Os atores-cantores se sucedem, muito jovens, apaixonados, bem preparados, inocentes. O coro, primoroso, é dionisíaco, não apolíneo, porque Jesus é mesmo dionisíaco. Todos estão entregues, presentes de corpo e alma no grande mito que encenam, e as performances não mentem. Os sacerdotes do templo, Anás e Caifás, o primeiro, Julio Mancini, dono de um falsete de castrato, e o segundo, Rogério Guedes, um sinistro baixo-profundo, dão arrepios, alinhadíssimos com o astral dos manifestantes da calçada, que aparentemente não tiveram sucesso em promover o buzinaço. Negra Li é a Madalena linda, intensa e doce, sem os exageros vocais com que nos habituamos nas vozes negras femininas, um contraponto feminino altivo e forte desse Jesus tão alvo e delicado. Sua interpretação de “Vamos ficar bem” me faz chorar, juro, e olha que ainda nem chegou a hora de “Não sei como amá-lo”, a favorita das favoritas. Cara, como eu cantava isso quando tinha dezesseis anos! O Herodes debochado e bandalho de Wellington Nogueira arrasa e me faz lembrar inteirinha a letra de sua canção, que eu achava que já tinha esquecido. O Pilatos de Fred Silveira impacta já na canção inicial sobre o sonho e, mais tarde, arrebenta nas cenas do interrogatório e das 39 chibatadas.

A encenação rola precisa, bem marcada e ensaiada, a coreografia, os figurinos, o cenário monástico, tudo está bárbaro. Tenho pena dos manifestantes lá fora, tomando chuva, sem conseguir adesão alguma de motoristas domingueiros impenitentes, impedidos que estão, pelo dogma, de entender e experimentar a mensagem de Jesus que o musical renova. Como é triste julgar sem conhecer! Ou informar-se simplesmente, sem contar com um instrumental interno que nos ajude com as metáforas. Essa montagem de “Jesus Cristo Superstar” chega na hora certa, na Quaresma, antes da Páscoa, para convocar a moçada que ouve o galo cantar mas não sabe onde a escutar a nova velha história e, quem sabe, a entendê-la com o coração e a sensibilidade, interiorizando-a como não faz com o conteúdo das aulas de catecismo e da escola dominical. Lopez-Pedraza escreve que a emoção bota a psique em movimento. O que Lloyd-Weber, Rice e agora os meninos da produção em cartaz fazem é justamente isso. Botar a alma em movimento. Não é iconoclasmo. Iconoclasmo é esgotar o poder das imagens por mau uso delas, é condenar as imagens sagradas à estagnação que doutrinas imutáveis lhes impõem, com a finalidade de subjugá-las e manipulá-las a favor de algum tipo de poder. “Jesus Cristo Superstar” é iconodulismo puro, uma prova de amor, devoção, profunda afeição pelas imagens, evento que ativa uma energia capaz de iluminá-las por dentro, para devolvê-las ao fluxo da vida, onde elas podem realizar sua poderosa e perene mágica. Ainda que você não tenha, como eu, tido a sorte de ser raptada ainda muito jovem, pela torrente de imagens de “Jesus Cristo Superstar”, nunca é tarde para viver essa experiência. Vale a pena. Não é barato. E a temporada é curtíssima. Com alguma sorte, você assiste a dois espetáculos em um: o primeiro, gratuito, é lastimável, mas muito pedagógico.

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12 Comentários (+adicionar seu?)

  1. rubensosorio
    mar 19, 2014 @ 09:21:55

    Tua escrita é fina, tuas observações, profundas, tua análise, precisa, tuas críticas, ácidas, teu humor, leve, tua sinceridade, louvável, tua sensibilidade, impressionante, teu resultado, admirável, emocionante, reflexivo… perfeito! Ah, eu não assisti na década de 70, mas adquiri o álbum duplo – apesar da família calvinista conservadora – e cresci espiritualmente com essa versão revolucionária da Paixão. Bjs

    Responder

  2. Lourdinha Heredia
    mar 19, 2014 @ 15:47:55

    Bárbaro, Eli! Que originalidade a sua nos comentários sobre detalhes que já foram tão comentadas. Isso não é nada fácil! Que delícia ver a vida pulsar vigorosa em suas palavras!

    Muitos beijos.

    Lourdinha

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  3. Fabiana Prando
    mar 20, 2014 @ 09:55:18

    Que sorte partilhar essa experiência com a Mulher-Esqueleto. Faz o trivial ganhar notoriedade e desperta meu interesse pelo clássico musical que até então não tinha me atraindo…
    Muito obrigada!!
    Beijos!!💕

    Responder

  4. Mariane Palhares
    mar 24, 2014 @ 12:21:38

    AH! Já disse que amo ler seu blog?
    Sempre que posso dou uma passada.

    Tia Eli, estou com um problemão… quero MUITO assistir “Jesus Christ superstar”, você me deixou curiosíssima.

    Beijos
    Mari

    Responder

  5. Thiago Lemmos
    mar 29, 2014 @ 02:35:23

    Que alegria ver um texto tão bonito de alguém que assistiu a primeira montagem brasileira, e volta a se emocionar com a nossa…. Obrigado, obrigado, obrigado…. Cada segundo da nossa preparação e da nossa performance vale mais a pena quando vemos que tocamos a platéia. Volte sempre!!! Obrigado novamente. (Sacerdote/Mateus)

    Responder

    • elianaatihe
      mar 29, 2014 @ 17:54:42

      Querido Tiago, engraçado como o sagrado genuíno, aquele que brota de uma experiência verdadeira do corpo no mundo, mobiliza mais do que apenas técnica e performance. Algo vibra em vocês que é muito mais do que mera competência. Lindo tudo, meus amigos que têm ido ver vcs também têm saído com o coração repleto. Bjs. Volte sempre.

      Responder

  6. Vânia Pajares
    mar 29, 2014 @ 02:51:20

    Meu nome é Vânia Pajares e sou a Diretora Musical desta montagem de Jesus Cristo Superstar. Poucas vezes li uma crítica tão inteligente, sensível e profunda. Como é bom ler palavras de alguém que conhece tão a fundo esta obra magnífica da qual tenho a honra de dar esta nova roupagem! Eu me emocionei ao ler. Todos na companhia fazem esse trabalho imbuídos do mais profundo amor e respeito pela Arte, por Deus e pelo público. Sou cristã e sou profundamente religiosa. Amo meu trabalho e pra mim ele é sagrado!
    Muito obrigada! Você tocou minha alma e meu coração!
    Que bom que o musical conseguiu tocar o seu coração também…
    E parabéns: você é absolutamente brilhante! Brava!

    Responder

    • elianaatihe
      mar 29, 2014 @ 17:52:08

      Querida Vânia,
      Estou enviando amigos para ver o espetáculos e todos eles têm voltado com a mesma sensação de plenitude e sentido que marca uma experiência com o sagrado profundo. A gente sente que vcs estão inteiros no projeto, corações, corpos e mentes. O Jesus a.C. (como diria o Paulo Leminski) também deve estar vibrando. Beijos. Volte sempre.

      Responder

  7. Vânia Pajares
    mar 30, 2014 @ 01:47:26

    Obrigada, obrigada, obrigada, Eliana!❤️❤️❤️

    Responder

  8. Felipe Bezerra
    nov 06, 2014 @ 18:32:54

    Eliana, parabéns pelo seu post! Sua escrita é maravilhosa e me emocionou muito ao me fazer lembrar das duas vezes que pude assistir e devorar essa peça. Foi o principal motivo a me fazer acreditar em Deus, e atualmente é o meu musical favorito.
    Sou estudante de tradução, e me apaixono por essa versão do musical em grande parte pela letra traduzida lindamente por Bianca Tadini e Luciano Andrey. É uma pena que eu não tenha as letras comigo e elas não estejam em nenhum lugar da internet. Estou, desde que a temporada acabou, tentando encontrar as letras com alguém que tenha filmado/captado o áudio ou mesmo memorizado alguma música. E seria imensamente agradecido se você pudesse contribuir com a minha busca.
    Parabéns pelo texto, ganhou mais um leitor no blog 🙂

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