Ecos

Poucas pessoas como a Denise Felipe, sabem me impactar logo cedo de manhã. Abro a caixinha e encontro grãos de ouro bateados do ribeirão da beleza, da inteligência, lampejos de Deus que a peneira revela aos meus olhos ainda remelentos, enquanto a água baixa e escorre pelos furos. Melhor: são grãos dourados de quirera nutritiva e apetitosa, espalhados generosamente (desculpe o advérbio, Dê) pelo chão bem varrido do terreiro. Minha alma galinácea sai correndo para ciscar, ronronando cacarejos satisfeitos. Não resisto à tentação de partilhá-los bem depressa com os meus leitores.

*****************************************************************************

“‒ A inteligência não é uma qualidade individual. É coletiva, nacional, intermitente.

‒ Uma nova teoria!

‒ Atenas, 416 a.C., Eurípedes apresenta a sua Electra. Dois rivais assistem, Sófocles e Aristófanes. E dois amigos, Sócrates e Platão. A inteligência estava lá.

Firenze, 1504, Palazzo Vecchio, a pintar paredes, dois pintores: Leonardo da Vinci e Michelangelo. Um aprendiz: Rafael. Um mestre: Niccolo Machiavelli.

Filadélfia, E.U.A., 1776‒ 1787. Declaração da Independência e a Constituição dos Estados Unidos. Adams, Franklin, Jefferson, Washington, Hamilton e Madison. Nenhum outro país foi tão abençoado.

Nasci em Chicoutimi, Canadá, em 1950. É um milagre não ser mais idiota. Em 1950, eram todos idiotas, em Atenas e em Chicoutimi. Na Itália, terias apoiado as Brigadas Vermelhas.

‒ Agora é o Berlusconi.

‒ A Filadélfia votou em George Bush.

‒ Você não é idiota.

‒ A inteligência desapareceu, e pode levar eternidades até voltar. De Tacitus até Dante, foram quê, 11 séculos?

‒ Os árabes mantiveram a inteligência viva.

‒ É verdade.”

(Diálogos do filme “As invasões bárbaras”, de Dennis Arcand”)>

“Passei todos os verões da minha vida fazendo planos para setembro.

Agora não mais.

Agora passo o verão lembrando das boas intenções que se foram.

Em parte por preguiça,

em parte por descuido.

O que há de errado na saudade?

É a única distração para quem não tem fé no futuro.

A única.

Sem a chuva, agosto está chegando ao fim

e setembro não vem.

E eu sou alguém tão comum…

Mas não precisa se preocupar.

Tudo bem, está tudo bem.

*****************************************************************************

Termina sempre assim.

Com a morte.

Mas primeiro havia a vida.

Escondida sob o blá, blá, blá.

Está tudo sedimentado sob o falatório e os rumores.

O silêncio e o sentimento.

A emoção e o medo.

Os insignificantes, inconstantes lampejos de beleza.

Depois a miséria desgraçada e o homem miserável.

Tudo sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo.

Blá, blá, blá, blá…

O outro lado é o outro lado.

Eu não vivo do outro lado.”

(Trechos do filme “A grande beleza”, de Paolo Sorrentini)

Anúncios

3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabiana
    fev 06, 2014 @ 21:43:25

    Minha alma também adorou ciscar por aqui…
    Beijos!!
    Fabi

    Responder

  2. Denise Costa Felipe
    fev 10, 2014 @ 13:27:58

    Eli, querida… é aquele jogo de vice-versa… E você é uma lobamotiva puxando e carregando vagões e vagões de preciosidades. beijos ciclópicos, Dê.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: